Um Mestre do Conto

O francês Guy de Maupassant é um mestre do conto. As tumulares (Les tombales) é uma de suas obras-primas

06/05/2018 01:55 Por Eron Duarte Fagundes
Um Mestre do Conto

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O francês Guy de Maupassant é um mestre do conto. Amigo e discípulo de Gustave Flaubert, Maupassant sabe utilizar os aspectos de precisão da linguagem para contar qualquer história que se propõe: posto nas fronteiras entre o naturalismo e o realismo, criando muitas vezes uma crônica ficcional que envereda aos poucos para uma fantasia crítica e metafórica particular, Maupassant é um dos que sobreviveu porque seu texto nunca se circunscreveu às escolas (sempre passageiras) de seu tempo.

As tumulares (Les tombales) é uma de suas obras-primas. Conta a aventura erótico-sentimental de um homem acontecida a partir de sua visita a um cemitério, cenário por que ele tem afeição irresistível. Confessa o narrador-personagem lá no início: “J’aime beaucoup les cimetières, moi, ça me repose et me mélancolise: j’en ai besoin. Et puis, il y a aussi de bons amis là-dedans, de ceux qu’on ne va plus voir; et j’y vais encore, de temps en temps.” (“Amo muito os cemitérios, isto me repousa e melancoliza: preciso disto. Depois, há também bons amigos ali dentro, daqueles que não vejo mais; e ainda torno ali, de tempos em tempos.”).

Um belo dia ele ali encontra uma mulher, conversam, passam a ter relações: um caso. O caso termina: ele não a vê mais. Um outro belo dia (eis o espanto), tornando ao mesmo cemitério, ele a vê; e a vê com outro homem, numa atitude semelhante à que ela tivera no primeiro belo dia para ele, o narrador. Ele se pergunta: “Était-elle Unique? Sont-elles plusieurs? Est-ce une profession? Fait-on le cimetière comme on fait le trottoir? Les Tombales!” (“Era ela Única? São várias? É uma profissão? Faz-se o cemitério assim como se faz a quadra? As Tumulares!”). Maupassant, apaixonado pela figura da prostitua (sua herança naturalista, talvez vinda de Émile Zola, seu primeiro editor, o que o lançou), sabe-se por La Maison Tellier e Mademoiselle Fifi, contos ambientados em prostíbulos, cria esta figura que pode antecipar um pouco o surrealismo-naturalista demente do brasileiro Nélson Rodrigues, a garota que caça homens nos cemitérios. Repouso e melancolia: seria bem assim que o homem Maupassant, morto de loucura e sífilis aos 43 anos, via suas próprias relações com as mulheres da vida?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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