Os Murmúrios de uma Obra-Prima

Morrer Como um Homem é a obra madura de um cineasta de grandes vivências cinematográficas

18/04/2017 23:14 Por Eron Duarte Fagundes
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O começo de Morrer como um homem (2009), filme português de João Pedro Rodrigues, já exige do espectador toda a força de sua capacidade de aguçar  todos os sentidos do cinema. É uma longa sequência em que a tela fica às escuras e precisamos atentar para detalhes de movimentos quase invisíveis: nossa visão é exigida em seu grau máximo. Ouvimos seres conversarem dentro da cena, mas, à parte o sotaque lusitano e sublinhado por legendas em inglês que é melhor esquecermos, as coisas são ditas aos murmúrios: um teste para a audição, exigida de maneira quase metafísica. A cena se estica intrigantemente; o que se passa neste prólogo (antes dos créditos iniciais) em que dois jovens soldados  espiam um apartamento de travestis e no final da cena há o disparo duma arma, não chega a ter uma utilização narrativa posterior, é quase como uma epígrafe-conto-parábola, cuja relação com o resto é mais metafórica, é do terreno dos símbolos ou dos mitos (impulsos e agressividades do corpo e do espírito). E na verdade, apesar de ter um esqueleto de história central (a relação dum travesti com seu amante, com um inusitado filho duma possível relação com uma mulher, com os colegas do clube onde trabalha), Morrer como um homem é como construído de epigramas cinematográficos: sequências , cada uma à parte, que deslocam os focos narrativos e parecem ir encerrando experiências formais que se singularizam. Estamos, pois, no campo do experimentalismo cinematográfico: tudo é muito demorado e estudado na encenação e ao mesmo tempo a atmosfera elaboradamente artificial de cada quadro estabelece uma radicalização de filmar que joga com as possibilidades do observador de transcender a si mesmo.

Morrer como um homem é a obra madura de um cineasta de grandes vivências cinematográficas. Ancorado nos melodramas clássicos de Hollywood, especialmente aqueles que o alemão Douglas Sirk fez no cinema americano, Rodrigues se vale da tradição para criar o mais avançado. E é da escrita de outro realizador alemão, Rainer Werner Fassbinder (também fascinado pelo melodrama à Sirk), que Rodrigues extrai certas formas de artificializar o naturalismo clássico: sequências em que a cor adultera e divide a textura duma mesma personagem, como em Lola (1981), crueza e secreto despudor na evocação física do homossexualismo como em Querelle (1982). Há uma cena num bosque em que as personagens estão estáticas e caladas como peças de cenário ouvindo uma canção-off; é um acalanto musical e pictórico ao mesmo tempo. E as citações são tão sutis quanto funcionais na linguagem: na sequência em que o casal central de travesti visita outros travestis, vemos uma lareira, uma estante com seus livros e numa parede está um cartaz de Marnie (1964), um melodrama tardio do inglês Alfred Hitchcock que lhe acrescentava sempre a nota do “suspenso”.

Para os brasileiros, vale lembrar que o codinome da protagonista, Tônia, é ( e está dito em cena) uma homenagem à atriz brasileira Tônia Carrero. Estabelecendo reflexões exemplares sobre aquilo que há de perversamente transcendente na sexualidade humana, Morrer como um homem tem bases fincadas na experiência real mas alça voos para uma fantasmagoria livre. É o próprio diretor quem tem afirmado em várias entrevistas: suas personagens não nascem de sua imaginação, para compor um travesti ele executa um processo documental a partir dos travestis que topa do lado de fora do cinema, depois é que suas personagens vão expandir-se em sua imaginação. Isto se evidencia em várias alternâncias (naturalismo-onirismo) ao longo de Morrer como um homem.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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