A Obra-Prima Ignorada de Carpenter

A obra cinematográfica deo John Carpenter sempre retirou seu estilo de filmar das narrativas de horror e suspense cuja tensão visual-sonora da imagem é uma herança musical

10/08/2017 10:17 Por Eron Duarte Fagundes
A Obra-Prima Ignorada de Carpenter

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A obra cinematográfica do americano John Carpenter sempre retirou seu estilo de filmar das narrativas de horror e suspense cuja tensão visual-sonora da imagem é uma herança musical, pois Carpenter volta e meia faz a música de seus filmes e isto não deixa de refletir-se no ritmo imposto e exposto nos filmes. Eles vivem (They life; 1988) é uma preciosidade quase esquecida no universo fílmico de Carpenter, não tem as referências de Halloween (1978), Fuga de Nova York (1980) ou O enigma do outro mundo (1982), mas é certamente aquela realização onde Carpenter, com absoluto poder síntese, se despoja de algumas ingenuidades de suas fantasias de roteiro e faz com que as características fantásticas de seu cinema adquiram um agudo sentido cinematográfico como em nenhum outro momento Carpenter teria atingido.

Antes de mais nada, Eles vivem é, em seu conjunto, uma metáfora cinematográfica, um modo de carregar a imagem de símbolos que deem sentido (ou um certo sentido) ao mundo em que vivemos ou que “vemos”. Alinha-se assim na maneira de construção do clássico Zombie, o despertar dos mortos (1978), de George A. Romero, e de O nevoeiro (2007), de Frank Darabont, duas produções do cinema americano que utilizam certos signos cênicos do capitalismo ianque (o shopping no primeiro, o supermercado no segundo) para fazer uma crítica sub-reptícia ao sistema. A mesma crítica que Carpenter faz, a seu modo, em Eles vivem. Carpenter, sem trair o teor noturno de suas imagens, começa sua narrativa quase como um documentário social típico dos anos 70: um operário desempregado (John Nada) chega a um centro urbano em busca de emprego. A fixação em cartazes típicos que convidam os indivíduos ao conformismo (“Obedeça”, diz um letreiro) é abundantemente enquadrada pela câmara. A influência das mensagens televisivas na vida americana é outro dado sociológico. Como dado sociológico é a figura do “louco” e “esquisito” pregador de rua tão comum naqueles anos. Seria, como dizem, o mais político dos filmes de Carpenter? Talvez. Mas o senso cinematográfico de Carpenter desmonta os gessos dos conceitos sociais fáceis, que estariam em desacordo com a maneira fílmica do realizador. No entanto, mesmo nestes trechos iniciais do filme onde só “vemos” o social e o político na trama, pode-se dizer que a energia da imagem é puro Carpenter. A virada para Carpenter dá-se então com a utilização dos óculos escuros pelo protagonista: ao usar estes óculos, o ex-operário vê o mundo em preto-e-branco e muitos dos indivíduos que o cercam como monstros, que, depois se revela, seriam extraterrestres que controlam os meios de comunicação (a televisão) e querem subjugar os seres da Terra; o ex-operário se transforma num indivíduo da resistência, curiosamente o cinema-espetáculo e fantasioso de Carpenter “se engaja” nesta luta.

Falando em luta, John Nada (que seria um alter ego do cineasta) é vivido por Roddy Piper, um ex-lutador. Quando o protagonista quer fazer com que um seu colega negro utilize os óculos para ver o mundo como ele, John, vê, ambos se desentendem e uma longa e violenta luta se trava, por uns dez minutos de filme; é um pouco uma homenagem ao ator, um lutador esquecido, mas também é um tributo de Carpenter ao feitiço de filmar com intensidade plástica a ação cinematográfica.

O “enigma do outro mundo” inventado por Carpenter em Eles vivem está mesmo neste mundo: o fanatismo demente, a ganância perturbadora, o trabalho deformado e explorado. E é uma obra sintomática das próprias inquietações de Carpenter: inserido dentro do cinema industrial, onde “o dinheiro é o Deus”, muitas vezes suas fugas às regras lhe rendem dissabores contraditórios.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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