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Uma Mulher no Século XIX

Apreciado como um dos melhores contistas do mundo, o francês Guy de Maupassant não decepciona como romancista

29/06/2017 09:29 Por Eron Duarte Fagundes
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Apreciado como um dos melhores contistas do mundo, pela precisão com que desenvolve em palavras os acontecimentos, o francês Guy de Maupassant não decepciona como romancista: tem fôlego para costurar uma história mais longa. Uma vida (Une vie; 1883) é um romance que nunca decai em seu ritmo graças à constante inventividade da relação verbo-fato na pena de Maupassant.

Trata-se dum retrato —vivo, pulsante, ora poético-romântico, ora melancólico— duma mulher na sociedade profundamente machista do século XIX. Como um artista pleno, o narrador de Maupassant adota o ponto-de-vista de Jeanne, a menina que atravessa sua própria vida colecionando sonhos, ilusões e decepções; assim como no conto Bola de sebo (1880) o contador punha em cena o olhar dorido da prostituta explorada e vomitada pela sociedade. Uma vida não tem o cinismo de outro romance de Maupassant, Bel-ami (1885), sem a visão crua de muitos contos do escritor; o início da narrativa se assemelha a algumas técnicas da escola romântica, especialmente em algumas descrições e metáforas, mas é mais despojado e documental que os exaltados românticos que o precederam.

“Jeanne, ayant fini ses malles, s’approcha de la fenêtre, mais la pluie ne cessait pas.” (“Jeanne, tendo acabado de fazer as malas, se aproximou da janela, mas a chuva não parava.”). A frase inicial não difere muito da oração que abre Bel-ami, com o protagonista saindo dum bar depois de receber o troco de seu pagamento da conta. Uma nota de realidade, de gesto comum, para introduzir lentamente o leitor nas questões da história que se vai contar. Sem pressa, tudo se arma.

A sonhadora adolescente francesa do século retrasado é descrita em cores vivas. “Une vie charmante et libre commença pour Jeanne. Elle lisait et vagabondait, toute seule, aux environs. Elle errait à pas lents le long des routes, l’esprit parti dans des rêves; ou bien, elle descendait, en gambadant, les petites vallées tortueuses, dont les deux croupes portaient comme une chape d’or, une toison de fleurs d’ajoncs. Leur odeur forte et douce, exaspérée par la chaleur, la grisait à la façon d’un vin parfumé; et, au bruit des vagues roulant sur une plage, une houle berçait son esprit.” (“Uma vida encantadora e livre começou para Jeanne. Ela lia e vagabundeava, inteiramente só, pelas redondezas. Ela errava a passos lentos ao longo das estradas, o espírito mergulhado em sonhos; ou então, descia, saltitando, os pequenos vales tortuosos, cujas encostas apresentavam, como um revestimento de ouro, um velo de flores de tojo. Seu odor forte e doce, exasperado pelo calor, a excitava à maneira dum vinho perfumado; e, diante do barulho das ondas rolando na praia, o marulhar embalava seu espírito.”).

Jeanne casa-se e, após o choque inicial para uma menina inocente de antigamente (“Mais une souffrance aiguë la déchira soudain; et elle se mit à gemir, tordue dans ses bras, pendant qu’il la possédait violemment”, “Mas um sofrimento agudo a rasgou; e ela se pôs a gemer, entortada em seus braços, enquanto ele a possuía violentamente”, tratava-se da perda da virgindade pela protagonista), apaixona-se. Após a paixão, as decepções: o marido a trai. E vai descobrindo que o caráter do marido está em todas as pessoas de seu círculo: ninguém escapa. A crítica moral é pura hipocrisia. Seu próprio filho a decepciona. Uma gota de esperança surge na netinha que lhe aparece no último movimento do livro. Como se vê, pouco a pouco as exaltados expressões românticas do princípio do livro se convertem num realismo atroz. Mas a frase final, dita pela criada a Jeanne, topa os verdadeiros meandros duma vida, qualquer vida. “La vie, voyez-vous, ça n’est jamais si bon ni si mauvais qu’on croit.” (“A vida, veja a senhora, não é nunca tão boa nem tão má quanto pensamos.”).

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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