Paris, Texas: Pé na Estrada

Lá se vão mais de 30 anos desde o lançamento e Paris, Texas segue irretocável como um drama sensível e sincero

28/09/2017 10:03 Por Jorge Ghiorzi
Paris, Texas: Pé na Estrada

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As recentes mortes do ator Harry Dean Stanton e do escritor, roteirista e também ator Sam Shepard oportuniza a revisão de um dos mais significativos trabalhos cinematográficos de ambos. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1984, Paris, Texas (Paris, Texas), dirigido por Wim Wenders, conta com a participação de Stanton como protagonista e o roteiro coescrito por Shepard (em parceria L. M. Kit Carson) a partir de uma obra de sua autoria.

Produção europeia filmada em locações nos Estados Unidos, Paris, Texas é um dos filmes mais icônicos do alemão Wim Wenders, um cineasta que manifesta especial interesse na cultura e nas paisagens norte-americanas, constantemente presentes em sua filmografia. Neste aspecto pode-se dizer que esta produção é uma espécie de releitura temática de um trabalho anterior, Alice nas Cidades, realizado exatamente uma década antes, também ambientado no cenário norte-americano de pequenas cidades, estradas, paisagens desoladas e busca da identidade.

Road movie por excelência, Paris,Texas já inicia sob o signo do movimento. Ao som dos acordes melancólicos da guitarra de Ry Cooder, na sequência de abertura somos apresentados ao personagem Travis Henderson (Harry Dean Stanton) vagando sem rumo sob o sol inclemente do deserto texano, próximo à fronteira do México. Resgatado à beira da morte por inanição, Travis é levado pelo irmão Walt (Dean Stockwell) para morar em Los Angeles com sua família. Lá ele encontra seu filho Hunter de sete anos, abandonado pela mãe, Jane (Nastassja Kinski). O próprio Travis não via o filho há quatro anos, quando também abandonou a família depois uma crise no casamento e colocou o pé na estrada sem projeto de retorno. Inicialmente estranhos um ao outro, após um tempo Travis e Hunter reconstroem os laços emocionais partidos entre pai e filho. O fortalecimento da relação entre os dois desperta por fim o desejo de reencontrar Jane para reconstituir a família desfeita.

Diz a máxima que nunca retornamos iguais de uma viagem. Ela inevitavelmente nos transforma. Wim Wenders certamente compartilha este pensamento e isto fica muito evidenciado no citado Alice nas Cidades e de maneira especial em Paris, Texas. A alternância de cenários reflete - ou induz – os estados de alma do solitário Travis. Uma trajetória que percorre paisagens desérticas, subúrbios da classe média de Los Angeles, movimentadas freeways e arranha-céus que aço e vidro em Houston, pontua as transformações do protagonista que transitam da catatonia ao tédio existencial, chegando por fim a reconquista da autoestima.

O vazio do deserto representa o vazio emocional de Travis. Sua imagem, isolado no meio da planície árida, sem mapa nem bússola, é um símbolo do homem em desespero que se perde para tentar reencontrar-se. A fuga dos problemas o colocou na estrada, longe de tudo e de todos. Mas a negação da sua própria história pessoal é pesada demais para carregar na bagagem emocional. Esperava encontrar no isolamento do deserto uma resposta para suas frustrações. O que descobre é um abismo emocional que só amplia suas angústias. O providencial resgate e posterior reencontro com o filho colocam os fatos inexoráveis da vida nos trilhos e trazem alguma lucidez para seus propósitos. Há uma missão a cumprir: reconfigurar o núcleo familiar, ainda que sua presença já nem seja mais necessária. O objetivo é assegurar pelo menos alguma chance de felicidade para o filho junto à mãe. Um ponto final para uma história de amor e paixão que estava inconclusa.

O ponto central e enigmático de Paris, Texas é a mãe, figura que deflagra a ação e movimenta os personagens. A imagem de Jane é trazida da memória através da magia das imagens em movimento do cinema. Somos apresentados a ela por pequenos vídeos domésticos de Super-8, de um tempo onde reinava o amor e a harmonia entre Travis e Jane. Testemunho de um fragmento de história preservada em filme. Interpretada por uma Nastassja Kinski no auge da beleza e prestígio, a presença de Jane domina o filme de ponta a ponta, ainda que esteja realmente em cena em apenas alguns minutos. Mas como esquecer a pungente sequência do diálogo acerto de contas entre Travis e Jane. Ambos isolados (!), sem jamais se tocarem fisicamente, separados por um vidro, como dois prisioneiros de uma relação com marcas profundas de mágoas, rancores e decepções mútuas.

Lá se vão mais de 30 anos desde o lançamento e Paris, Texas segue irretocável como um drama sensível e sincero. O atento olhar estrangeiro de Wim Wenders revela o retrato de uma América altamente industrializada e consumista que promove o individualismo e desestimula o humanismo.

Assista o trailer: Paris, Texas

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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