A Linguagem é a Instância da Loucura

O escritor psicanalista Jacques Lacan fez a pergunta: “Joyce était-il fou?”. O ensaísta brasileiro Donaldo Schüler retomou a questão intitulando seu ensaio joyceano: Joyce era louco? (2017)

02/03/2018 16:44 Por Eron Duarte Fagundes
A Linguagem é a Instância da Loucura

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O escritor psicanalista Jacques Lacan fez a pergunta: “Joyce était-il fou?”. O ensaísta brasileiro Donaldo Schüler retomou a questão intitulando seu ensaio joyceano: Joyce era louco? (2017), uma luminosa e também obscura penetração nos mecanismos dementes da linguagem. Não se pode escrever sem alguma dose de loucura; James Joyce, o grande escritor irlandês que teria sepultado a língua inglesa em herméticas e delirantes obras-primas como Ulisses (1922) e Finnegans Wake (1939), exasperou-se diante da loucura da linguagem. Schüler, que traduziu Wake, anota: “E se procurássemos o mal no próprio corpo da escrita, uma doença que explique textos rebeldes?” Radical em suas preferências, o ensaísta proclama: “Textos legíveis não precisam ser lidos.”

De que é construída a escrita como arte? “A mesma fonte abastece esquizofrênicos, parafrênicos, neuróticos, poetas, escritores.” Em que momento se rompe o diálogo de Joyce com a literatura habitual? Onde se deu o instante da crise, que o afasta da família de seus pares e o mergulha num labirinto complicado, isolado? “De jouissance navegamos a j’ouïs sens”, lembra Schüler, fazendo-nos ouvir o sentido na fruição. Processos poético-simbolistas no texto de Joyce desabam: ouvir primeiro e depois compor dentro do ouvido o sentido que vem do som. Jouissance tem o mesmo som (pronúncia) que j’ouïs sens, o desfrutar diz como escutar o sentido do próprio desfrutar. Uma articulação complexo-delirante entre o comentarista brasileiro Donaldo Schüler e o ficcionista irlandês James Joyce: com o pensador francês da psicanálise Jacques Lacan —linhas se interligam desenraizando-se. Paranoia? São as próprias letras que permitem esta desconfiança: por que jouissance leva a j’ouïs sens?

A sombra de Lacan se afunda em Schüler na busca de Joyce: “Lacan lembra que Joyce, ao picar as frases, desarticula a língua inglesa já em Ulisses, processo que muda o uso do idioma, exercício de saber fazer.” Este “picar as frases”, que é quase o mesmo que “quebrar as frases”, misturando-as ao sabor do nada, no fundo é um processo da esquizofrenia de escrever; um dom único, como observou um esquizofrênico legítimo, que pode transmitir-se semelhantemente por influência, mas nunca se repete —o diálogo com o restante da língua se quebra em Joyce, assim como na esquizofrenia o pensamento se parte ao meio e interrompe a influência das relações sociais.

Utilizando a teoria da relatividade da loucura exposta por Machado de Assis nO alienista, investigando Erasmo de Rotterdam, uma espécie de papa da demência histórica, Schüler chega a aduzir a uma das manias mais características dos transtornos cerebrais, a ideia fixa. Segundo o ensaísta, quem criou clinicamente a expressão “idée fixe” teria sido o psicólogo francês Théodule Ribot num livro de 1885, Les maladies de la personalité. Ora, antes dele, em 1881, no capítulo IV de Memórias póstumas de Brás Cubas o brasileiro Machado de Assis a estabeleceu literariamente: “A minha ideia, depois de tantas cabriolas, constituíra-se ideia fixa.” Quem é, pois, o pai da ideia fixa? Eis outra loucura: uma ideia que tem pai.

Ler Joyce era louco?, para poder reler Joyce e também consultar Lacan, é uma ponte para a criatividade da loucura; o leitor mais empenhado escreve com a leitura, a leitura é a pena do leitor. A ideia fixa, ler interminavelmente, pode ser uma psicopatia. Necessária? Debrucemo-nos em Schüler: “O território que confina o psicopata não coincide com o mundo das pessoas que o cercam nem abre portas a projetos. Todos inventamos a casa em que vivemos, lugar de delírios. Joyce era louco? Ao desarticular o mundo que assombra, um pesadelo, Joyce age como um criador, cria-se a si mesmo, contribui para que leitores ativos se evadam da rigidez petrificante.” Seria Joyce louco até certo ponto? Tratar-se-ia duma loucura provisória para impedir que a arte de escrever se petrifique? Ao que parece, as ondas ensaísticas de Schüler, expansivas e constantes, apontam para este sentimento.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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