ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E STREAMINGS
Bons filmes para todos os gostos!
Grenal: O maior clássico das Américas Produzido pela Giros Filmes e Panda Filmes, com direção de Belisario Franca e Tatiana Sager e produção executiva de Mauricio Magalhães, o documentário esportivo que trata do clássico de futebol entre os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul (o Sport Club Internacional e o Grêmio Porto Alegrense) estreou ontem no canal SporTV e em breve estará na Globoplay. Dinâmico, bem humorado e bem editado, com vastas cenas de jogos antigos, o filme traça a história da rivalidade dos dois times gaúchos e a paixão pelo futebol no sul do país, pelo ponto de vista de jogadores, técnicos de time e torcedores. Exibido no Festival de Gramado de 2026, o longa (cujo nome Grenal vem de uma aglutinação de Grêmio e Internacional) remonta as origens daquelas disputas em campo, nascidas nos últimos anos da primeira década do século XX (o primeiro embate direto em campo foi em 1909). Com o tempo, o Grenal se enfrentou regularmente em campeonatos como o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores. A rivalidade é tão forte que divide o estado do Rio Grande do Sul em duas cores: o vermelho (Internacional/Colorado) e o azul (Grêmio/Tricolor) – e o filme capta essa essência das paixões, de torcedores nas arquibancadas levando no grito as partidas. Gostei da vibe do filme, e acredito que fãs de futebol gostarão de conhecer mais a fundo a trajetória do Grenal, que virou um símbolo na memória dos boleiros. Não haverá mais História sem nós Ainda em circulação nos principais cinemas brasileiros (ele estreou em 23/09), o documentário historiográfico luso-brasileiro dirigido pela cineasta paranaense Priscilla Brasil é um grande debate sobre as histórias não contadas da Amazônia. E pelo fato dessas histórias ficarem escanteadas, a exploração do território correu solto ao longo das décadas. O filme se passa entre Munique, na Alemanha, e Belém, no estado do Pará, reunindo dois pesquisadores amazônicos que investigam o que há por trás da ideia da Amazônia como um paraíso natural, de território amplo e de recursos naturais inesgotáveis. A dupla pesquisa séculos de exploração de terras e dos povos originários, trazendo à tona temas como colonialismo, racismo e genocídio. O filme pode ser visto como um manifesto dentro de uma obra didática, narrada com exatidão e fatos claros sobre a perpetuação da devastação da Amazônia (em muitos momentos fiz relação com o perturbador documentário de Aurélio Michiles, outro cineasta da Amazônia, “Segredos do Putumayo”). Os pesquisadores, por serem daquela região, assumem o lugar de fala para representar suas reivindicações e tratar sobre seu território, numa perspectiva decolonial – eles tratam de como por muito tempo passou-se a ideia de que a Amazônia poderia servir ao garimpo ilegal, madeireiro ilegais, a grileiros e até à interferência estrangeira. O filme teve a estreia mundial no Bali International Film Festival (Balinale) e sua primeira exibição brasileira no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), em Goiás, em junho de 2024. Coprodução entre a produtora paraense Companhia Amazônica de Filmes e a portuguesa Clandestina Filmes, com apoio do projeto ECOAmazônia, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação e desenvolvido pela Universidade de Coimbra, o doc segue em cartaz nos cinemas, com distribuição da Kajá Filmes. Nosso segredo Vencedor do Kikito de melhor filme no Festival de Gramado (que terminou na última semana) e lá também ganhador dos prêmios de melhor fotografia e direção de arte, “Nosso segredo” chega aos cinemas após carreira de sucesso em festivais de cinema nacionais e internacionais (como na Berlinale do ano passado, onde teve a première mundial). O filme autoral marca a estreia na direção da consagrada atriz mineira Grace Passô, que escreveu também o roteiro, uma adaptação da peça dela de 2006, “Amores surdos”. De forte teor poético, com um visual visceral, o roteiro delicado e a autenticidade nas interpretações são características essenciais do belo filme rodado em Belo Horizonte, que presenta um trabalho extraordinário do elenco, principalmente o infantil. O enredo acompanha uma família negra atravessada pelo luto; cada um, da criança ao idoso, enfrenta seus sentimentos de tristeza e ausência. Do silêncio, surgem as memórias do ente que se foi, até que um segredo guardado passa a ser explorado, que irá marcar aquele longo processo de dor. Há uma mistura de drama e fantasia, consolidados em uma atmosfera sensível que trata de identidade e reconstrução. A fotografia é uma assinatura à parte, que ajuda a explorar a vida transformada daqueles personagens. O elenco reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, e traz participações especiais de Mateus Aleluia (do grupo Tincoãs) e da cantora e compositora Tássia Reis. Produzido pelo cineasta Ricardo Alves Jr., em coprodução com Rachel Daisy Ellis, Julia Alves, Grãos da Imagem e Globo Filmes, está nos cinemas na Sessão Vitrine Petrobras, com distribuição da Vitrine Filmes em parceria com a Petrobras (projeto que amplia o acesso do público ao cinema nacional independente). Morte e vida Madalena Fazendo alusão à “Morte e vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, o novo filme do inventivo cineasta cearense Guto Parente tem fortes traços com o clássico poema regionalista da literatura brasileira. Ambos tratam de um longo percurso de um personagem solitário, em meio aos desafios do mundo, cercado por obstáculos sociais. Parente volta a estudar personagens queer complexos, aqui trazendo uma protagonista com mutas camadas, Madalena (ótimo papel da atriz travesti Noá Bonoba, também professora e pesquisadora). Ela é uma produtora de cinema, que está grávida e prestes a rodar uma fita de ficção científica B, cujo roteiro foi deixado pelo falecido pai. Madalena tem a rotina revirada quando Davi (Marcus Curvelo), o diretor do filme e seu ex-marido, desaparece do set. Cheia de dúvidas e maus pressentimentos, ela investiga por conta próprio o sumiço de Davi. O bebê dela está para nascer, o que a motiva a querer gravar logo o filme, mesmo sem a presença do diretor. O longa é uma comédia dramática cheia de subtramas, sobre as andanças dessa personagem que se transforma durante aquela jornada de busca pelo marido e de ser mãe de primeira viagem – sem contar os desafios para as gravações no set. Vê-se um filme dentro de outro filme, metalinguagem pura, com momentos de incerteza sobre aquilo que vemos ser da cabeça da protagonista, algo real ocorrendo ou se aquilo tudo é do roteiro do longa em execução. Para complexar ainda mais o roteiro, a personagem tem devaneios, sonhos misteriosos, enquanto as cenas nítidas de como ela quer o filme aparecem em imagens caóticas, assombradas. Como em “Inferninho” e “Doce amianto”, o cineasta faz um cinema queer contemporâneo unindo fantasia, estética camp, figuras marginalizadas complexas e altas doses de melancolia, entregando aqui um dos filmes de destaque do ano, que gostei demais. Tanto que foi exibido e premiado em importantes festivais nacionais e internacionais, como Ciné+ no FidMarseille 2025 (França), Festival de Brasília, Mostra de Cinema de São Paulo e MixBrasil. Em exibição nos principais cinemas com distribuição da Embaúba Filmes. Bom garoto O cineasta polonês Jan Komasa realiza obras complexas e bem contraditórias, de narrativa moderna e visual ousado. Antes de “Bom garoto” (2025), ele fez dois longas que acho geniais, o indicado ao Oscar de filme estrangeiro “Corpus Christi” (2019), sobre um jovem detento que abre uma igreja, e “Rede de ódio” (2020), da Netflix, que veio no meio da pandemia e trata de uma conspiração política por meio das fake news. Os anteriores a esses eu não vi, que são dois outros, “A sala do suicídio” (2011) e “Varsóvia 44” (2014). “Bom garoto” é o primeiro trabalho do diretor fora da terra natal, rodado no Reino Unido com atores premiados e até indicados a Oscar. “Heel” ou “Good boy” (recebeu esses dois títulos originais) é um suspense psicológico com alta dose de humor macabro e um denso clima perturbador, explorando os limites da moralidade. É uma trama complexa e bizarra, em que acompanhamos Tommy (Anson Boon), um jovem de 19 anos mergulhado em drogas, violência e exibicionismo nas redes sociais. Após uma noite de excessos, é sequestrado por Chris (Stephen Graham, premiado com o Emmy, o Globo de Ouro e o Bafta pela minissérie “Adolescência”) e sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough, indicada ao Oscar por “A sorte grande”), que decidem “reeducá-lo” em sua residência isolada. O casal, que bate fora do bumbo, utiliza o lar como um cativeiro, sem comunicação com o mundo exterior. Ali também mora o filho pequeno do casal, Jonathan (Kit Rakusen). Chris e Kathryn desenvolvem uma estranha obsessão em transformar Tommy em um “bom garoto”. O rapaz fica numa coleira pendurada no teto, em trilhos, inicialmente no porão escuro; com o passar dos dias, a família libera mais espaços para o jovem percorrer, sempre com o pescoço amarrado com a corrente cruzando os trilhos. Entre castigos físicos, leituras de clássicos literários e recompensas por comportamento adequado, Tommy passa por uma experiência de tortura psicológica e condicionamento social. O filme nasceu da colaboração entre os roteiristas Bartek Bartosik e Naqqash Khalid, que se inspiraram em debates sobre juventude desgovernada e os limites da disciplina familiar. O argumento do diretor é inspirado em casos reais de jovens que transformaram a delinquência em espetáculo online, viciados em redes sociais – e Komasa imaginou o que aconteceria se alguém decidisse impor uma cura radical a essas atitudes. Há momentos sufocantes, tensos, num filme que explora a Síndrome de Estocolmo e a manipulação mental. O elenco é um dos pontos altos, com destaque para Stephen Graham, Andrea Riseborough e Anson Boon. Komasa, vale destacar, explora novamente, com inteligência, o tema do vício nas redes sociais, depois de o fazer em “Rede de ódio” (aqui o protagonista, alvo daquela família, é um exibicionista/narcisista, que tem voz ativa nas mídias e utiliza o espaço para sustentar seu ego). PS: No mesmo ano de “Bom garoto”, 2025, o diretor lançou outro filme ótimo, também inspirado nas redes e no uso desenfreado das fake news para corroer a democracia americana, um filmão que acaba de estrear na Prime Video, “O aniversário” (com Diane Lane, Kyle Chandler e Dylan O'Brien). “Bom garoto” se destacou em festivais internacionais, como Toronto, BFI London e Roma, e agora chega com exclusividade no Brasil na plataforma Filmelier. Os trapaceiros de Garibaldi Drama histórico exibido no Festival de Rotterdam, escrito e dirigido pelo diretor Roberto Andó, um veterano cineasta que faz obras de arte ao mesmo tempo cult e moderno. Novamente trabalha com o nome mais importante da Itália do momento, premiado ano passado em Veneza, Toni Servillo – eles fizeram juntos pelo menos três longas que gosto muito, ‘Viva a liberdade’ (2013), ‘As confissões’ (2016) e ‘A estranha comédia da vida’ (2022). Nesta intrigante história real ocorrida nos anos finais do Risorgimento, a Unificação Italiana, Servillo interpreta o coronel siciliano Vincenzo Orsini, que liderou tropas para enfrentar o exército Bourbon, na campanha de 1860, de Giuseppe Garibaldi (papel aqui de Tommaso Ragno). Orsini e Garibaldi criam a Expedição dos Mil, na tentativa de conquistar Palermo; para tanto, organizam um mirabolante plano, de simular a retirada dos soldados para enganar os inimigos. Um filme de estratégias militares, que lembra uma partida de xadrez, onde cada movimento é decisivo. Apesar de poucos recursos, Andó realizou um filme diferenciado, de uma história esquecida e que se tornou emblemática para a Unificação da Itália na metade do século XIX. Bom figurino de época e diálogos auspiciosos impulsionam a trama de disputa de território e heroísmo. Exibido no 20º Festival de Cinema Italiano no Brasil, em 2025, com o título provisório e “A ilusão”, estreia hoje nas principais salas de cinema, com distribuição da Pandora Filmes. Três vezes adeus Renomada diretora, roteirista e produtora de cinema espanhola, que faz filmes também na França, EUA e Itália, Isabel Coixet já realizou mais de 40 longas, dentre eles "Minha vida sem mim" e "A vida secreta das palavras". Este seu último trabalho, “Três vezes adeus”, estreou no Brasil no 8½ Festa do Cinema Italiano, em julho, e hoje entra no circuito brasileiro de cinema, distribuído pela Autoral Filmes. Longa autoral da diretora, como boa parte de suas obras, a coprodução Itália/Espanha tem roteiro assinado por ela junto a Enrico Audenino, adaptado do livro semi-autobiográfico “O sentido da náusea”, da escritora e ativista italiana Michela Murgia (1972-2023). É a vida de um casal que está a ponto de se separar, Marta (Alba Rohrwacher, de “As maravilhas”, irmã da diretora Alice Rohrwacher) e Antônio (Elio Germano, de “A vida solitária de Antonio Ligabue”). De um tempo para cá as discussões entre eles foram banais, relativamente pequenas, mas colaboraram para o cansaço da relação e o consequente término. Após a separação, Marta, uma professora de educação física, isola-se do mundo, sente-se para baixo, com falta de apetite, enquanto ele, um chefe de cozinha, segue com tudo no trabalho. Antônio começa a sentir falta de Marta. Ela então tem fortes dores de estômago, parece que sua saúde não anda bem – e logo descobre uma gravíssima doença. Coixet, como em “Minha vida sem mim” (2003), retorna ao tema da morte e do isolamento feminino, explorando aqui dois assuntos pessoais para ela: gastronomia e música. Tudo é trabalhado como oposições/antíteses na figura do casal: ela perde a fome, enquanto o marido ganha dinheiro com comida; ela se isola, enquanto ele vive intensamente – o que demonstra a dor maior da mulher na separação. Melancólico, faz uma meditação sobre o fim do casamento e da brevidade da vida, sem cair em melodramas. Coixet é uma diretora talentosa, veterana, que faz filmes variados, e mais uma vez coloca no currículo um bom trabalho de atores. O filme teve exibições nos festivais de Toronto e do Rio. Rebelião dos Jangadeiros Documentário independente produzido em 2025, com direção de Cinthia Medeiros e Demitri Túlio, e produção executiva de Íris Sodré (Gavulino Filmes), o filme é uma aula didática viva sobre a Rebelião dos Jangadeiros, conhecida historicamente como a Greve dos Jangadeiros, ocorrida em 1881 no Porto de Fortaleza, Ceará. O que se viu ali tornou-se um marco fundamental do movimento abolicionista no Brasil e uma preparação para a Abolição dos escravos, que viria anos depois. Liderada por Francisco José do Nascimento, o Chico da Matilde (apelidado de Dragão do Mar), a revolta ocorreu em janeiro de 1881 no Porto de Fortaleza, consistindo na recusa coletiva dos jangadeiros em transportar pessoas escravizadas para os navios negreiros que as transportaria para os mercados de café nas regiões Sul e Sudeste. Com o famoso lema de que "no porto do Ceará não se embarcam mais escravos", a rebelião paralisou o tráfico interprovincial na região, abrindo uma ampla discussão na sociedade brasileira daquele período. A mobilização popular foi decisiva para acelerar o fim da escravidão no Nordeste, fazendo com que o Ceará se tornasse o primeiro estado brasileiro a abolir a escravidão, em 27 de março de 1884, quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea. O filme é repleto de depoimentos de historiadores, museólogos, antropólogos e ativistas sociais, sentados em uma sala olhando para a câmera, em que lembram curiosidades, dados históricos e fatos relevantes daquele movimento pioneiro, que rompia não só com trabalho forçado, mas de ideais racistas e de um sistema todo de controle dos corpos negros. O longa, de apenas 79 minutos, mistura aos depoimentos imagens (como desenhos da época e ilustrações de livros de História) e animações modernas. O filme está em exibição gratuita no streaming Sesc Digital até o dia 11/10 – em https://sesc.digital/home
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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