ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

Muita coisa boa num cinema ou no streaming

07/05/2026 17:06 Por Felipe Brida
ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

tamanho da fonte | Diminuir Aumentar

ESTREIAS DO MES NOS CINEMAS E NO STREAMING

 

A fúria

Do movimento Cinema Novo, somente Ruy Guerra está vivo, e na ativa, aos 94 anos. As produções cinematográficas do cineasta moçambicano radicado no Brasil atravessam sete décadas: do primeiro curta-metragem, “Quand le soleil dort” (1954), e o primeiro longa, o “Os cafajestes” (1962), até chegar à “A fúria” (2024), filme que encerra uma trilogia iniciada no auge do referido Cinema Novo. A “Trilogia dos Fuzis” abria com o hipnotizante “Os fuzis” (1964), cruzava com “A queda” (1978) – ambos premiados no Festival de Berlim, e encerra com “A fúria”, que acaba de estrear nos cinemas, após vencer dois prêmios na edição passada do Festival de Brasília. Seu novo longa é uma obra simbólica que reúne ilustres personagens dos dois trabalhos anteriores - enquanto em “Os fuzis” (um de meus filmes brasileiros preferidos) expunham-se a fome e a repressão no sertão e em “A queda” discutiam-se dilemas morais e corrupção no ambiente urbano e empresarial com as mesmas figuras (vividas por Nelson Xavier, Hugo Carvana e Paulo César Peréio), “A fúria” traz uma ampla discussão sobre o mundo político no Brasil da última década, focando na ganância e a degradação institucional. Personagem central nos anteriores, Mário, um ex-operário da construção civil (antes papel de Nelson Xavier, mas neste aqui interpretado por Ricardo Blat) enfrenta os espectros da ditadura e da corrupção política no país. Ele volta do mundo dos mortos (ele foi assassinado na ditadura) para assombrar o sogro e empreiteiro Salatiel (Lima Duarte), um empresário inescrupuloso, e Feijó (Daniel Filho), um político disposto a tudo para calar as pessoas. Diferente dos dois primeiros filmes, que privilegiavam o realismo e locações abertas, este novo capítulo foi rodado em estúdio, com cenários sombrios e estilizados, que o aproximam à linguagem do teatro, reforçando a atmosfera alegórica. O clima é de devaneios e loucura, com enquadramentos fortes no rosto dos atores, uma pegada meio expressionista. A narrativa é direta, dividindo personagens entre justos e corruptos, num longo embate em plena época de crise moral e institucional (com direito até a um Bolsonaro no desfecho). O elenco entrega o melhor de si: Blat, Duarte e Filho, além de Grace Passô, Simone Spoladore e participações rápidas de Paulo César Pereio, Maria Gladys, Antonio Pitanga e Urutau Guajajara. Misturando drama e thriller político, o filme é uma fábula quase dantesca sobre memória, justiça e as feridas abertas da Ditadura, contando com as experimentações estéticas que Ruy Guerra sempre se apropriou muito bem. Ele dirige a direção com Luciana Mazzotti, sua ex-mulher e roteirista também. Está pela segunda semana em exibição nos cinemas pela Pandora Filmes – antes de ver, recomendo conhecer os anteriores (em “A fúria” há cenas dos filmes “Os fuzis” e “A queda”, que retornam como lembranças dos personagens e serve para o público ter base para o desdobramento daqueles anos todos).

  

Michael

 “Michael” é o filme do ano que vem arrastando muita gente ao cinema e, como não poderia ser diferente em biografias de ícones pop, dividindo a opinião do público e da crítica. Dirigido com vigor e emoção entusiástica por Antoine Fuqua (diretor de obras policiais, parte delas com Denzel Washington, como “Dia de treinamento” e “O protetor), é uma cinebiografia grandiosa do cantor e compositor Michael Jackson (1958-2009), que contagiou o mundo com suas canções vibrantes, porém esteve envolvido em uma série de polêmicas, como acusações de abuso sexual infantil e mudanças drásticas na aparência de clareamento de pele. Na altura do campeonato, fala-se muito na retirada dessas polêmicas do roteiro. Vamos analisar: Hollywood é careta na hora de retratar fielmente uma personalidade pública, ainda mais um nome de relevância e querido por uma legião de fãs como Michael, portanto deu espaço para fazer um filme mais positivo sobre ele; segundo ponto, o filme é assinado pelos irmãos de Jackson como produtores, e como os casos de pedofilia caíram por terra em 2005, após Michael ser absolvido de todas as acusações, resolveram não mexer no vespeiro. Por enquanto, pois, como já é sabido, haverá uma parte 2 em breve (que está em produção). Discutiremos o que está na tela e não aquilo que poderia ter sido: “Michael” é uma cinebiografia contagiante, um filmão publicitário que faz o público se emocionar, cantar e dançar junto. Filme feito para fã, com longas cenas reinventadas de shows dele, misturando espetáculo musical e drama familiar. O longa acompanha a jornada de descoberta de Michael no universo musical. A primeira parte (os 25 minutos iniciais) focam na formação de “The Jackson 5”, a banda de Michael e seus quatro irmãos, que surgiu dentro de casa com comando austero do pai, Joe Jackson, que se tornaria o empresário de grande parte da trajetória de artista depois. Na segunda parte, o filme traz Michael procurando carreira solo, ainda se dividindo no Jackson 5 (que viraria “The Jacksons”), até 1979, quando lançou um disco que surpreendeu, vendendo milhões de cópia, “Off rhe wall” (1979), produzido por Quincy Jones. O disco trazia faixas que ficaram no topo da parada das rádios, como "Don't stop 'til you get enough" e "Rock with you". A terceira parte do longa é a tentativa incessante de Michael sair das garras do pai patrão, um homem austero, difícil, violento, que batia nele quando criança. Enquanto Michael tenta atravessar a rua nessa nova fase da carreira, a sombra do pai o persegue. É quando ele lança o épico disco “Thriller” (1982), o que fez o cantor explodir e se tornar um dos 10 músicos pop mais influentes dos anos 80 – a partir daí a crise familiar aumenta, tentando lidar com o pai furioso, que não aceitava o sucesso do filho mais novo longe dos irmãos na banda que ele criou em Gary. Michael tinha apoio secreto da mãe, enquanto os irmãos seguiram aos poucos outras carreiras fora da música. O filme se divide bem entre o palco e os ensaios nas gravadoras com as questões familiares de Michael e seu dia a dia: mostra ele adotando animais que depois manteria no rancho apelidado de Neverland, como o chimpanzé Bubbles, lhamas e girafa (foram mais de 130 animais diferentes), a fixação por Peter Pan (por isso o nome do rancho) e a descoberta do vitiligo. Sem dúvida a interpretação de Jaafar Jackson, sobrinho do astro, de 29 anos, é o ponto máximo do filme – o rapaz ficou a cara do tio e em muitos momentos até melhor que Michael no palco (sem ofensa a Michael, que admirava como músico). Jaafar (que é filho de Jermaine) afinou a voz, emagreceu, ficou com silhueta idêntica ao do tio, e seu rosto surpreende pelas semelhanças. É a estreia do rapaz no cinema, após uma breve carreira como cantor e dançarino, e com certeza será indicado a Oscar e outros prêmios em 2027. Colman Domingo faz muito bem o papel do pai, num trabalho difícil, um homem violento que bate no filho e o fulmina com seu olhar arregalado (o personagem usa anéis e correntes, de sobrancelha pintada, lentes claras, mas esse over era o estilo do verdadeiro Joe Jackson). E Nia Long interpreta a mãe conciliadora, Katherine Jackson, num bom papel também – Katherine está viva, com 96 anos. Outros atores valem destaque, como Juliano Valdi (o Michael do período Jackson 5), Mike Myers como o empresário musical Walter Yetnikoff, dono da CBS Records, KeiLyn Durrel Jones como o chefe de segurança e motorista de Michael Bill Bray, que trabalhou com ele por mais de 25 anos e foi seu fiel escudeiro, chamado por Michael de “pai”, e Milles Teller como o advogado de muitos artistas famosos da época John Branca. O filme faz enorme carreira nos Estados Unidos e Brasil; em seu primeiro fim de semana arrecadou mais de US$ 217 milhões, tornando-se a maior estreia de uma cinebiografia na História do cinema, e acumula, nessa terceira semana nas salas de mais de 80 países, U$ 440 milhões em bilheteria (superando o orçamento. de U$ 155 mi). Os ótimos figurinos próximos do real fazem o recorte da época, há momentos de puro encanto e musicalidade (como as gravações do clipe de “Thriller” com os zumbis), ou seja, é um filme de entretenimento classe A para homenagear a carreira de um astro inigualável, mesmo que as polêmicas fiquem de fora (acordos judiciais e a supervisão do espólio de Jackson limitaram também a profundidade da adaptação de sua vida para o cinema, que se concentra em celebrar o mito em vez de confrontar suas contradições - inclusive a irmã Janet Jackson não aceitou participar por desacordos no roteiro e desavenças familiares, segundo contou à imprensa a outra irmã de Michael, La Toya Jackson). Vamos aguardar a parte 2 para saber que tipo de história e informações serão lá colocadas – a Lionsgate informou essa semana que a continuação terá Antoine Fuqua na direção, e que ele já gravou as primeiras cenas, cuja trama segue a partir de 1988, após o lançamento do disco “Bad”, de 1987, e da última turnê de Michael com os irmãos; o roteiro continuará de John Logan (indicado a três Oscars) e a produção de Graham King, vencedor do Oscar por “Bohemian rhapsody”. Nos cinemas pela Universal Pictures.

 

Zico - O samurai de Quintino

Estreou anteontem nos cinemas pela Downtown Filmes o documentário que homenageia a vida e a trajetória de Arthur Antunes Coimbra, o jogador meio-campista Zico. Um filme não só para fãs do atleta, mas também para quem gosta de futebol, já que é uma viagem pelas últimas cinco décadas do esporte no país. O longa reúne vasto acervo pessoal de Zico, grande parte inéditos, incluindo registros em Super-8 (da família e amigos em momentos íntimos) e cadernos de anotações. Foi o principal jogador do Flamengo nas décadas de 1970 e 1980, e pela Seleção Brasileira, disputou três Copas do Mundo, de 1978, 1982 e 1986. O time do coração de Zico, Flamengo (que o defendeu profissionalmente por 15 anos), participou ativamente da produção do filme, cedendo material raro para a obra, que conta com uma direção competente e entusiasmada de João Wainer, diretor da minissérie “Meu Ayrton, por Adriane Galisteu” (2025). O doc parte do bairro Quintino Bocaiúva, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde Zico nasceu e cresceu, para mostrar como família e a disciplina moldaram a sua forte personalidade (demonstrada dentro e fora dos gramados). E depois de narrar a trajetória dele no Brasil, mostra a relação de Zico com o Japão, seu segundo país, onde fundou a liga japonesa de futebol, dirigiu times, foi técnico e até hoje apelidado de “deus do futebol” – o título “Samurai” remete à fase japonesa de Zico. É um filme dinâmico, bacana, com depoimentos de jogadores como Ronaldo Fenômeno e Júnior, além dos treinadores Carpegiani e Parreira, da esposa Sandra e dos filhos do homenageado. Com montagem fluida e tom intimista, o documentário celebra tanto o homem Zico quanto o craque aplaudido por várias gerações. Produzido pela Vudoo Filmes e Guará Entretenimento, é uma coprodução da Globo Filmes, SporTV, Pontos de Fuga e Investimage com patrocínio do Sicoob, da Tim e Austral, além de contar com a RioFilme como codistribuidora.

 

O diabo veste Prada 2

Lotando as salas de cinema de todo o mundo, a continuação de “O diabo veste Prada”, 20 anos depois do original, virou um fenômeno inesperado e repentino. Assim como “Michael”, estreou muito bem nas bilheterias e logo se aclamou como um arrasa-quarteirão – no Brasil, por exemplo, as sessões andam abarrotadas de gente. Gostei do filme, é uma sequência que atualiza o original, mas prefiro o frescor do primeiro. Diretor, produtores e elenco retornam com tudo em seus icônicos personagens, em uma história que volta à crítica ao mundo da moda e da mídia, ambas em crise na era digital. A conceituada editora de moda Miranda Priestly (Meryl Streep), para driblar o colapso do jornalismo impresso, planeja formas de manter em pé a antiga revista Runway. Ela precisa urgentemente adequar o formato ao digital, já que a maior parte das revistas e jornais não sobrevivem mais no papel. O choque maior vem quando descobre que Emily Charlton (Emily Blunt), antes sua fiel assistente, ocupa hoje um cargo executivo em uma grife de luxo, ou seja, virou sua uma rival direta. Entra para abrir novos conflitos na trama a jornalista Andy Sachs (Anne Hathaway), que era estagiária de Miranda e agora procura por um novo emprego, após ser demitida; ela acaba voltando à Runway, onde terá de lidar com os estresses de Miranda, bem como com os dilemas da profissão em tempos de redes sociais e desinformação. O trio de mulheres entrega atuações formidáveis, com destaque para Emily Blunt, uma antagonista tão mesquinha quanto Miranda era no filme 1 – a atriz pode pegar indicações a prêmios no ano que vem. Stanley Tucci retorna como Nigel, o assessor de Miranda, e novos nomes aparecem, como Lucy Liu na pele de uma magnata da moda, Kenneth Branagh como o marido de Miranda, e até Lady Gaga como ela mesma, num momento glamuroso em que canta nos palcos do Fashion Week de Milão. Gostei especialmente do tratamento ao tema da crise do papel e da era digital, mostrando que em menos de 20 anos, de um filme para o outro, o mundo se transformou radicalmente (mais dinâmico e fugaz), com desgaste das grandes revistas, a explosão do marketing digital e a fragilidade das carreiras diante da velocidade da informação. E os figurinos seguem deslumbrantes, com assinatura da figurinista Molly Rogers, que demonstrava talento lá no passado com as roupas das personagens do seriado “Sex and the city”. Nos cinemas pela 20th Century Studios.

 

A sombra do meu pai

Diretamente da Nigéria chega aos cinemas brasileiros um contundente drama de olhar autobiográfico, feito pelo estreante cineasta Akinola Davies Jr, diretor, roteirista e produtor executivo do longa. Com sensibilidade e mão precisa para contar uma história íntima e profunda, ele resgata, dos fundos da memória, sua infância no interior da Nigéria, e a relação dele com o irmão e a família. Ele mora com o irmão e a mãe na zona rural de uma cidade da Nigéria, até ser estremecido com a vinda inesperada do pai, uma figura enigmática, que retorna para casa depois de longos tempos. Aos poucos o homem se torna presença constante entre os irmãos, e os leva para uma viagem à Lagos, principal cidade do país. Eles chegam em meio ao turbulento cenário político de 1993; a Nigéria (bem como outros países da África) enfrentava agitação política, um período dominado por ditaduras, golpes de Estado e tentativas frustradas de transição democrática. As ruas estão inflamadas, com manifestações por todo canto, e o pai está naquele caos para receber uma dívida. O filme vai muito além da reconstrução de laços familiares, focando na fragilidade de um país em crise. O diretor articula, com magistral maneira de ver o mundo, a ausência paterna com a ausência de estabilidade no cenário social/político/econômico da Nigéria, criando um paralelo entre a busca individual por pertencimento e a busca coletiva por um país justo, democrático e de eleições livres. A escolha de narrar tudo em um único dia intensifica a sensação de urgência daquele reencontro entre filhos e pai ausente, como se o tempo fosse um recurso escasso diante da memória e da perda. Filmado em 16mm, com enquadramentos conceituais, dentre eles closes em rosto e filmagens por trás dos atores, é um filme sobre a busca por identidade individual e a busca por identidade nacional em um país fragmentado. Os meninos são interpretados com extrema naturalidade pelos irmãos reais Chibuike Marvellous Egbo e Godwin Egbo (este faz Akin, abreviação de Akinola, o diretor), e o ator que interpreta Folarin, o pai, é outro artista marcante, á¹¢á»páº¹Ì Dìrísù. A direção de Davies é a alma do filme, um diretor que surgiu com tudo nesse trabalho pessoal feito para emocionar – ele fez anteriormente um curta-metragem exibido em Sundance, “Lizard” (2020), disponível na Mubi. “A sombra do meu pai” venceu o Bafta de melhor diretor estreante, recebeu menção especial no Caméra d’Or no Festival de Cannes e foi premiado em festivais como a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o British Independent Film Award e o Gotham Awards, além de ter sido exibido no Festival de Toronto. Coprodução Nigéria, Irlanda e Reino Unido, está nos cinemas com distribuição pela Filmes da Mostra.

 

O riso e a faca

Chega aos cinemas brasileiros o novo trabalho do proeminente cineasta português Pedro Pinho (de 49 anos), que já teve seus filmes exibidos em festivais como Cannes, Toronto e Munique. A coprodução Portugal, França, Brasil e Romênia é uma saga épica ultracontemporânea, de enorme metragem, 211 minutos (3h31), mais apropriada para público que suporta filmes de arte longos – isso porque é a versão menor, a de cinema, já que o diretor fez uma versão sem cortes, de 330 min (5h30). O filme é uma análise sobre o neocolonialismo, que conta com uma linguagem moderna mesclando ficção e documentário. E também um road movie mágico pelas entranhas da África com toda sua beleza e complexidade. Filmado na Guiné-Bissau em 35mm, o projeto nasceu sem ensaios e com diálogos improvisados, que demorou quase três anos para ser finalizado. Essa demora e lapidação revelam a ambição de construir uma obra épica de cunho íntimo, com cenas demoradas sem cortes, que unem a grandiosidade das paisagens africanas à proximidade dos dramas humanos. A trama acompanha Sérgio, engenheiro português enviado por uma ONG para a África Ocidental para avaliar o impacto ambiental da construção de uma estrada, entre o deserto e a selva. Em meio à missão, ele se envolve com Gui, um rapaz brasileiro, e Diára, mulher de origem cabo-verdiana, formando um triângulo amoroso que funciona como metáfora das tensões entre colonizador e colonizado. Nesse tempo e espaço, o diretor Pedro Pinho capta a essência do neocolonialismo numa África contemporânea, ainda marcada por contradições, articulando temas como imigração, racismo, capitalismo e exploração econômica a dilemas pessoais. O título é inspirado na música “O riso e a faca”, de Tom Zé, lançada em 1970, que chega a ser citada no longa – o filme se apropria dos simbolismos da música, que traduz em palavras as dualidades da vida, das instabilidades nas relações, da alegria (riso) à dor/violência (faca). A atriz cabo-veridana Cleo Tavares (a Cleo Diára) recebeu o prêmio de melhor atriz na Mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, neste que é um dos filmes mais desafiadores e corpulentos do ano, falado em seis línguas (português, cabo-verdiano, inglês, francês, espanhol e árabe). No elenco, além da ótima Cleo, tem os atores Sérgio Coragem (português, no papel do engenheiro) e Jonathan Guilherme (brasileiro, que rouba as cenas com um humor impecável – ele é ex-atleta de vôlei, que trocou de profissão, hoje ator e poeta em Barcelona, onde reside). Está nos principais cinemas com distribuição da Vitrine Filmes, em parceria da RioFilme.

 

O drama

Novo longa da A24 dirigido e roteirizado por Kristoffer Borgli, cineasta norueguês em seu segundo trabalho nos Estados Unidos (o anterior foi um que gosto muito, o maluco “O homem dos sonhos”, com Nicolas Cage), que continua em exibição nos cinemas pela quinta semana consecutiva, com distribuição da Diamond Films. E vem fazendo uma carreira surpreendente, por ser uma excêntrica comédia dramática sobre os altos e baixos de dois noivos na véspera do casamento. É estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, que interpretam respectivamente Emma e Charlie. Eles são um casal apaixonado à espera do casamento dos sonhos. Cada um tem suas manias e estranhezas; ela é bem tímida, de olhar curioso sobre as pessoas, enquanto ele, meio bobalhão e atrapalhado. Às vésperas da cerimônia, porém, um segredo do passado de Emma vem à tona quando ela faz um comentário aparentemente banal na mesa com amigos, em um encontro regado a vinho. A fala de Emma causa espanto e ameaça a relação dela com Charlie, enquanto os dois amigos ali presentes se afastam. As horas, a partir de então, serão uma calamidade, que colocarão à prova a sobrevivência daquela relação conjugal. Borgli, que explora dilemas existenciais em todos os seus trabalhos, como nos três longas anteriores, “Energético” (2017), “Doente de mim mesma” (2022) e “O homem dos sonhos” (2023), retorna ao tema misturando romance, suspense e comédia mordaz, criando uma linha tênue entre o drama íntimo e a ironia desconfortável. Contando com uma atmosfera inquietante, o filme traz à tona uma discussão inevitável nos tempos de hoje: a fragilidade dos relacionamentos modernos, focando na imaturidade de um jovem casal que não sabe o que fazer com um segredo do passado. A dupla Zendaya-Pattinson, cotadíssimos para os prêmios de cinema da temporada de 2027, está perfeita, numa sintonia fora de série (seja no amor ou no ódio), e o elenco conta com participações excelentes de Alana Haim (de “Licorice Pizza”), Mamoudou Athie (de “Tipos de gentileza”) e Hailey Gates (de “Marty Supreme”). A trilha sonora do indicado ao Oscar Daniel Pemberton intensifica a carga emocional do longa, cuja produção é assinada por Ari Aster. São 106 minutos que passam voando, deixando um gostinho de “quero mais”.

 

Suspiria

Na última segunda-feira publiquei um texto sobre o relançamento em 4K nos cinemas de “Veneno para as fadas”, um cultuado folk horror mexicano. O filme voltou às telas na semana passada, juntamente com a cópia restaurada, também em 4K, de “Suspiria” (1977), outra emblemática fita de terror que fez a cabeça do público cinéfilo e se tornou referência no gênero. É considerada a magnum opus do lendário cineasta italiano Dario Argento, hoje na ativa aos 85 anos, e uma das pérolas do horror fantástico. Psicodélico, brutal, com cenas fortíssimas de sangue e mortes escabrosas, o terror bruxo, cuja base é o giallo sobrenatural, acompanha a história de Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem dançarina americana que chega a uma renomada escola de balé em Friburgo, no sul da Alemanha. Hospedada no local com mais de 10 garotas, que estão lá para serem treinadas para a dança, pouco a pouco suspeita que a academia é assombrada por uma antiga entidade. A moça ouve sussurros noturnos, bem como o ronco de uma mulher idosa; vermes aparecem no teto, e algumas das meninas desaparecem na calada da noite. A apreensão atinge não só Suzy, mas as colegas de quarto. As indagações das dançarinas são levadas para as diretoras da academia de balé, Miss Tanner (Alida Valli) e Madame Blanc (Joan Bennett), que não dão ouvidos. Até que Suzy vê o mal reinar ao seu lado. O impacto de “Suspiria” vai além do roteiro fabuloso: está também na estética visual alucinante, marcada por cores intensas vermelhas, pink e azul neon, ao lado da iluminação expressionista (inclusive na geometria dos quartos e enquadramentos, que remetem ao Expressionismo Alemão). A trilha sonora, da banda Goblin (que aqui assinam “Goblins”, e tinha como mentor o paulistano Claudio Simonetti), intensifica a experiência sensorial, criando um ambiente hipnótico, perturbador, claustrofóbico. Não tem jeito: saímos magnetizados de cada sessão de “Suspiria”, e olha que já vi o filme mais de 10 vezes, um de meus preferidos do mestre Argento. Olhem só: além do relançamento os cinemas, o filme ganhou uma edição oficial limitada em VHS no Brasil, gesto que resgata a aura analógica que marcou os anos 1980 e 1990. A cópia restaurada em 4K realça as cores deslumbrantes dessa obra-prima do cinema de horror, realizada pelo laboratório alemão TLEFilms, que corrigiu danos nos negativos de 35 mm. Vale lembrar que “Suspiria” é o primeiro capítulo da trilogia “As três mães”, seguido por “A mansão do inferno” (1980) e “O retorno da maldição - A mãe das lágrimas” (2007), que são independentes, mas tratam do mal sobrenatural. Em 2018 o diretor italiano Luca Guadagnino refez o filme, com uma nova linguagem, que ficou até boa, “Suspiria: A dança do medo”. Com quase meio século de existência, o filme continua a ser celebrado pela crítica e pelo público, e que bom foi redescoberto para voltar para a telona. Continua em cartaz pela segunda semana, com distribuição da FJ Cines.

 

Placar: A revista militante

Assisti entusiasmado a esse bom documentário realizado em 2025 para se comemorar os 55 anos da revista Placar, da editora Abril. Fundada em 1970, em pleno auge da Ditadura, a revista, que nasceu para se divulgar o esporte no Brasil, logo começou a estampar na capa reportagens especiais sobre democracia e política. Críticas sociais vinham não só no editorial, mas da fala de esportistas consagrados, transformando a Placar numa revista de linha progressista (e por isso, foi perseguida pelos militares). O documentário relembra capas históricas com Pelé e o Santos FC, entrevistas políticas com jogadores de pensamento progressista, como Sócrates, e furos como a Máfia da Loteria Esportiva - primeiro grande escândalo de manipulação de resultados no futebol brasileiro, revelado em outubro de 1982 pela revista e que envolvia mais de 120 nomes de dirigentes e jogadores. Jornalistas e editores da Placar sofreram censura e ameaças, mas a revista nunca abriu mão de seus posicionamentos fortes. Contam histórias para o doc jogadores como Casagrande, Afonsinho (que defendeu a Lei do Passe e foi entrevistado várias vezes sobre o tema) e Zico, e quem é o ponto focal do filme é o ex-diretor e jornalista esportivo Juca Kfouri. Outros jornalistas brasileiros trazem seus pontos de vista sobre a Placar, como Celso Unzelte e Arnaldo Ribeiro, bem como o ex-diretor Carlos Maranhão, o fotógrafo Ronaldo Kotscho, o treinador e comentarista esportivo Paulo Roberto Falcão e Martha Esteves, uma das primeiras repórteres femininas da Placar. Em certo momento fazem um mea culpa ao reconhecer comentários misóginos em algumas edições e sexualização de esportistas femininas, por exemplo em matérias de jogadoras de futebol de areia e uma capa com Susane Werner quase seminua segurando uma bola para tapar os peitos, parecendo capa de Playboy (que era do grupo Abril também). Ao ver o filme, assista até aos créditos finais, onde tem participação de Pelé em erros de gravação para o documentário – ele já estava debilitado e faleceria logo depois. Exibido nos cinemas em agosto do ano passado, está disponível gratuitamente no Sesc digital até dia 10/05.

Linha
tamanho da fonte | Diminuir Aumentar
Linha

Sobre o Colunista:

Felipe Brida

Felipe Brida

Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com

Linha

relacionados

Todas as máterias

Efetue seu login

O DVDMagazine mantém você conectado aos seus amigos e atualizado sobre tudo o que acontece com eles. Compartilhe, comente e convide seus amigos!

E-mail
Senha
Esqueceu sua senha?

Não é cadastrado?

Bem vindo ao DVDMagazine. Ao se cadastrar você pode compartilhar suas preferências, comentar ou convidar seus amigos para te "assistir". Cadastre-se já!

Nome Completo
Sexo
Data de Nascimento
E-mail
Senha
Confirme sua Senha
Aceito os Termos de Cadastro