Um Autntico Cineasta Raro

O texto que segue foi escrito em 2006 e teve circulao restrita nos e-mails do Clube de Cinema de Porto Alegre

25/01/2019 23:38 Por Eron Duarte Fagundes
Um Autêntico Cineasta Raro

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O texto que segue foi escrito em 2006 e teve circulação restrita nos e-mails do Clube de Cinema de Porto Alegre. Tem um inicial tom furibundo que na época incomodou um grupo de jovens inquietos que estava à frente do Clube de Cinema. Entre estes, dois que depois se tornariam meus grandes amigos, bons pensadores de cinema da cidade: Davi de Oliveira Pinheiro e André Kleinert, havia outros, também notáveis amigos de hoje, como João Pedro Fleck e Nicolas Tonsho. Pouco depois da circulação de meu texto, Davi, cineasta e cinéfilo que admiro muito, brincou com uma de minhas expressões no texto, se intitulando o líder dos setores confusos do pensamento cinematográfico. Publico agora o texto como uma evocação de nossa divertida trajetória na época.

 

Um Autêntico Cineasta Raro

 

Terrence Malick talvez seja o único gênio vivo do cinema americano, agora que Orson Welles já se foi faz tempo e Stanley Kubrick morreu há alguns anos; por favor, não me venham com Woody Allen (de qualquer fase) ou Robert Altman (nem mesmo o de Cerimônia de casamento, 1978), muito menos com Quentin Tarantino (o cineasta da moda), pois Malick os coloca no bolso em qualquer fotograma que rode. Partilho o sentimento de que em O novo mundo (The new world; 2005) o realizador não reedita toda a profundidade plástica e as inquietações temáticas de suas obras-primas anteriores (Terra de ninguém, 1974; Cinzas no paraíso, 1978; Além da linha vermelha, 1998); mas não posso deixar de ajoelhar-me diante da grandiosidade plástica de que Malick reveste a imagem cinematográfica.

O novo mundo pode estar longe da melhor forma de Malick, mas é seguramente um dos melhores  filmes duma temporada de cinema que prima por uma mediocridade aqui e ali louvada por setores confusos do pensamento cinematográfico. Antes de mais nada, trata-se de um olhar não-civilizado (natural e primitivo) sobre o universo; neste aspecto segue a linha de toda a filmografia de Malick desde seu áspero acompanhamento da trajetória de dois jovens que caem na marginalidade em Terra de ninguém. Em O novo mundo o primitivismo natural vem do debruçar-se sobre as relações entre colonizadores britânicos e selvagens americanos nos Estados Unidos do início do século XVII; o traçado amoroso entre um inglês e uma índia vai tornar ainda mais problemática a questão da violência do enfrentamento entre os dois povos, algo filmado com dureza, engenho e ausência de concessões por Malick.

Topamos em O novo mundo o mesmo tom de mistério que se escapa de cada imagem e que é a marca das narrativas de Malick; meio como o tcheco Franz Kafka na literatura, Malick trouxe para o cinema o clima de seu mistério pessoal, o que torna seus filmes profundamente inquietos. A natureza é novamente uma personagem central do novo Malick, embasando a plasticidade narrativa e certos significados semióticos; herdeiro de certa forma de George Stevens e William Wyler, Malick não abdica dos padrões clássicos de linguagem (seus planos gerais são empostados e duros), mas confere um sopro inovador que se move até em seus planos rigidamente fixos (a contemplatividade em ação do plano).

Rubens Ewald Filho comparou a estética de O novo mundo com a de Desmundo (2003), filme brasileiro de Alain Fresnot. Não me parece que a idéia tenha muita exatidão. Sem embargo de admitir que possa ser também uma comparação torta, eu aproximaria o rigor natural de O novo mundo daquele rigor germânico de Werner Herzog na utilização dos cenários da natureza em Aguirre, a cólera dos deuses (1972). Mas O novo mundo exubera em originalidade, façam-se as ressalvas que lhe fizerem, sobrevivendo galhardamente às equivalências estéticas que lhe imputamos.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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