Viajar Sem Sair do Quarto

Viajar sem sair do quarto nos tempos do internet eh palpavel

14/04/2020 14:17 Por Eron Duarte Fagundes
Viajar Sem Sair do Quarto

tamanho da fonte | Diminuir Aumentar

 

Viajar sem sair do quarto nos tempos do internet é palpável; mas no século XVIII era um exercício de imaginação gigantesca —ou ironia burlesca. Xavier de Maistre cometeu a empreitada. No início de Viagem ao redor do meu quarto (Voyage autour de ma chambre; 1794) o escritor francês é claro e sucinto: “J’ai entrepris et exécuté un voyage de quarente-deux jours autour de ma chambre.” (“Empreendi e executei uma viagem de quarenta e dois dias do redor de meu quarto.”).

De Maistre nasceu em Chambéry, na França, no dia oito de novembro de 1763 e faleceu em São Petersburgo, na Rússia, em doze de junho de 1852 (uma idade de morte avançadíssima para o seu tempo). Além de escritor, foi pintor e, na Rússia, onde se casou com uma russa, foi militar a serviço do poder. De Maistre era originário da Savoia, no condado de Nice, onde se falava um dialeto que misturava francês e italiano; mas sua escrita é autenticamente francesa e um dos pontos altos da língua de Gustave Flaubert.

Viagem ao redor do meu quarto é uma narrativa curta (uma novela satírica) que explora a situação de alguém como o narrador que, por motivos não nominados, explora uma viagem em torno de seu próprio quarto. Mordaz, construindo frases e capítulos como picadas intermitentes de um mosquito em busca de sangue na sociedade humana, De Maistre zomba de seu ponto de vista absurdo, põe o leitor na parede do quarto do narrador para tirar-nos a solenidade de ler a que, muitas vezes e inconscientemente, nos habituamos. Há algo do espanhol Miguel de Cervantes nestes trechos em frenesi do autor francês; a brincadeira e o não levar-se a sério, a zombaria para com as paranoias humanas, uma destas que parece atualíssima no século XXI, o da circulação constante nas cidades, nos países, no mundo. Sabe-se que o brasileiro Machado de Assis se fez influenciar por este pequeno grande livro de De Maistre, especialmente a segunda fase de Machado, com capítulos sofregamente curtos e ironias pequenamente devastadoras. “Ce chapitre n’est absolument que pour les métaphysiciens” anota o narrador de Viagem ao redor do meu quarto (“Este capítulo não é absolutamente senão para os metafísicos”), e sabemos os brasileiros que Machado de Assis o fez muito em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); Machado e De Maistre eram homens cultos, mas sabiam mofar do poder do saber, divertindo-se com teorias divagantes e miméticas. O português Almeida Garrett (1799-1854), contemporaníssimo do ficcionista francês, também visitou De Maistre, citando-o na abertura de Viagens na minha terra (1846); mas Garrett, bom romântico, está distante da ferocidade demolidora, em língua e sentenças, e até se queixa do estrito cenário de De Maistre, que, se vivesse em Portugal, observa Garrett, poderia: “ao menos ir até o quintal”, pois “com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta”.

Cuido que Garrett e De Maistre nunca se encontraram, e De Maistre nunca leu Garrett. Mas se tivessem topado um com o outro numa calçada qualquer, De Maistre poderia contrapor a Garrett algo que seu narrador aduz no início do opúsculo: “Mon coeur éprouve une satisfaction inexprimable lorsque je pense au nombre infini de malhereux auquels j’offre une ressource assurée contre l’ennui, et un adoucissement aux maux qu’ils endurent. Le plaisir qu’on trouve à voyager dans sa chambre est à l’abri de la jalousie inquiète des hommes; il est indépendant de la fortune” (“Meu coração experimenta uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes aos quais ofereço um recurso seguro contra o tédio, e um atenuante para os males que eles suportam. O prazer que se tem ao viajar no próprio quarto está ao abrigo do ciúme dos homens; é algo independente de fortuna.” De Maistre explica bem as formas de prazer de viajar em sua rotina, alude à satisfação e ao prazer, e dá conta de seu privilégio em relação a quem não tem teto. Para que quintal, não é mesmo, Garrett? “Après mon fauteuil, en marchant vers le nord, on découvre mon lit, qui est placé au fond de ma chambre, et qui forme la plus agréable perspective.” (“Depois de meu sofá, caminhando para o norte, descobre-se minha cama, que está colocada no fundo de meu quarto, e que forma a mais agradável perspectiva”.)

Viagem ao redor do meu quarto é a geografia da rotina de alguém, assombrosamente edificada em palavras por um mestre da invenção literária, capaz de nos mostrar, no rimo narrativo que põe nas breves páginas, como “les heures glissent alors sur vous, et tombent en silence dans l’éternité, sans vous faire sentir leur triste passage” (“as horas deslizam então sobre vós, e caem em silêncio na eternidade, sem vos fazer sentir a triste passagem”). Trinta anos depois, em 1824, De Maistre publicaria na continuação, Expedição noturna ao redor do meu quarto (Expédition nocturne autour de ma chambre); é ainda o mesmo escritor irônico e brilhante, mas os capítulos mais longos (embora o todo seja mais curto) e a sisudez que se insinua tornem o novo livro uma aventura menos travessa, original e devastadora. Mas são dois textos de extraordinária perenidade, capazes de vencer o deslizar das horas com uma sabedoria que transcende.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

Linha
tamanho da fonte | Diminuir Aumentar
Linha

Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

Linha
Todas as máterias

Efetue seu login

O DVDMagazine mantém você conectado aos seus amigos e atualizado sobre tudo o que acontece com eles. Compartilhe, comente e convide seus amigos!

E-mail
Senha
Esqueceu sua senha?

Não é cadastrado?

Bem vindo ao DVDMagazine. Ao se cadastrar você pode compartilhar suas preferências, comentar ou convidar seus amigos para te "assistir". Cadastre-se já!

Nome Completo
Sexo
Data de Nascimento
E-mail
Senha
Confirme sua Senha
Aceito os Termos de Cadastro