O Texto Que Se Move em Bernardet

Cinema brasileiro: propostas para uma Historia eh uma peca de antologia critica, um modelo de como pensar cinema

15/06/2020 14:02 Por Eron Duarte Fagundes
O Texto Que Se Move em Bernardet

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Jean-Claude Bernardet, belga de nascimento, é há muitas décadas o ponto alto do pensamento crítico cinematográfico brasileiro. Ele é um daqueles exilados estrangeiros que, como o austríaco Otto Maria Carpeaux (crítico literário), é responsável pela atual cara da cultura brasileira que sem ele seria uma outra coisa ou impensável nos moldes em que a vemos atualmente. Cinema brasileiro: propostas para uma história (1979), um de seus livros básicos numa quadra importante e dupla do cinema brasileiro onde conviviam as pornochanchadas e os melhores anos de Nelson Pereira dos Santos, foi há algum tempo reeditado pela Companhia das Letras e ampliado com textos  atuais (há um de 2003 que confronta o cinema argentino contemporâneo com um determinado cinema brasileiro do início da década) ilumina as possibilidades de visão de nosso cinema; a atualidade das ideias de Bernardet, mesmo tratando de assuntos distantes no tempo, é posta à prova e sobrevive com brilho; sem peias em sua língua crítica, Bernardet opta por uma realização ligada à pornochanchada como Ainda agarro essa vizinha (1974), de Pedro Carlos Rovai, contra um filme mais estimado como Os condenados (1973), de Zelito Viana; concordando-se ou não com aquilo que o crítico defende, é inegável a profundidade de um texto de Bernardet, cuja lucidez já está antecipada na primeira frase do ensaio (“Depois deste artigo, vou passar por inimigo da cultura e defensor roxo da pornochanchada”) e se conclui com orações ainda mais lúcidas (“E há filmes que fecham caminhos: são os vaudevilles ‘abstratos e mecânicos’; são os filmes candidatos à Academia Brasileira de Letras”).

Ligando com clareza a questão econômica à questão estética dentro do cinema brasileiro, Bernardet apresenta nos excertos finais depoimentos soltos e vivos de três produtoras (mulheres) brasileiras, abrindo sua reflexão para vozes verdadeiras. Segundo revelou Bernardet em seu blog, ele pretendia (e não o fez por falta de tempo) incluir no livro o discurso de posse de Roberto Moreira numa entidade cinematográfica paulista; o discurso de Roberto (publicado no blog), diretor de Contra todos (2004) e Quanto dura o amor? (2009), se casa bem com as inquietações amealhadas pelo crítico sobre as possibilidades e a necessidade dum cinema brasileiro. A questão aí é: quem precisa de filmes brasileiros?

Uma obra-prima dentro da obra-prima geral que é o livro é o texto que encerra o ensaio, “O produtor Anatole Dauman”, escrito à luz da leitura das memórias do produtor francês e que se liga com um artigo anterior do livro, escrito ante as urgências dum Festival de Gramado de 1990. Radicalizando seu interesse pelo produtor que seria mais do que um burocrata do dinheiro (Bernardet “reivindica” uma citação de Dauman, “produzir, isto é, criar”), Bernardet vai colecionando dados das memórias de Dauman para fortificar sua tese; é bem verdade que, forçando a exemplificação de sua tese, ele exagera ao tratar com desdém uma das obras-primas do cineasta francês Robert Bresson feita sem o apanágio de Dauman, Uma mulher suave (1969), e, mais que esta discutível mas possível posição pessoal do crítico, incorre num deslize de informação histórica: afirma Bernardet que Bresson utilizou uma das atrizes da moda, Dominique Sanda, para viabilizar seu projeto, o que é falso, pois Dominique era desconhecida quando Bresson a lançou em seu filme e só depois em filmes como O jardim dos Finzi Contini (1971), do italiano Vittorio de Sica, e Novecento (1976), do também italiano Bernardo Bertolucci, ela se tornaria “uma atriz da moda”; em Bresson ela é somente um dos modelos não-profissionais de intérpretes característicos do cineasta. Mesmo com este reparo, o artigo final de Cinema brasileiro: propostas para uma história é uma peça de antologia crítica, um modelo de como pensar cinema.

 

* * *

 

(Jean-Claude tem o dom de provocar nossa disposição crítica. Há quem pense que meditar sobre cinema seja escrever aquilo que vai na mente de quem lê o texto. Os textos de Bernardet vão noutro sentido. Movem-se para questionar, mais do que aos filmes, aquilo que se passa em nossa cabeça. Encontrar uma complexidade fora dos fundamentos fáceis que nos põem a definir as situações dos filmes. Será que Joana francesa (1973), de Carlos Diegues, simulando uma crítica ao imperialismo, é ele mesmo uma forma cinematográfica do imperialismo, com sua utilização retumbante da estrela francesa Jeanne Moreau? Será que Tenda dos milagres (1977), de Nelson Pereira dos Santos, paparicando as fontes populares no cinema, não se transforma com o correr da narrativa em suavidades que engambelam os conflitos sociais? Mais recentemente, poder-se-iam aplicar as dúvidas de Jean-Claude a um filme como Garapa (2009), de José Padilha, um dos destaques do cinema brasileiro em 2009: como o Joana de Diegues e o Tenda de Nelson não estaria o filme de Padilha, sob a capa de uma revolta estética contra a miséria extrema, submetendo esta miséria à contemplatividade do espetáculo? São propostas complexas que na dicção de Jean-Claude não têm uma direção unívoca.)

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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