O Amor é mais forte que a morte

O Amor é mais forte que a morte, não traduz literalmente a verdade, mas certamente nos move.

10/08/2017 10:02 Por Marcus Pacheco
O Amor é mais forte que a morte

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Num vilarejo europeu do século XIX, a Morte leva um jovem justo quando este estava prestes a se casar. Sua noiva, aos prantos, suplica que devolva a vida do seu amor. A Morte (cansada) decide dar uma chance à jovem desesperada.

Clássico do Expressionismo Alemão, este filme foi lançado pela Obras Primas do Cinema numa fantástica caixa com outros quatro clássicos do gênero e com mais de 2 horas de extras para fã nenhum de expressionismo botar defeito.

O filme é inspirado nos sonhos de infância do diretor Fritz Lang. Curiosamente, escrevi sobre o filme Hardware - Destruidor do Futuro há menos de um mês, e ele também foi baseado nos sonhos do diretor Richard Stanley. É o cinema se reciclando até nas suas origens.

A Morte Cansada é uma obra prima alemã, com uma fotografia maravilhosa e efeitos sempre interessantes, abusando da criatividade, como é comum no cinema de Lang. O roteiro é dele com a atriz (e esposa) Thea von Harbou. O relacionamento dos dois começou em 1920, sendo que ela colaborou nos roteiros de alguns dos seus filmes mais notórios: Dr. Mabuse, O Jogador (1922), Os Nibelungos - A Morte de Siegfried (1924), Metrópolis (1927) e M, O Vampiro de Dusseldorf. Eles se casaram em 1922, ficando juntos 11 anos. No mesmo ano de sua separação, em 1933, Goebbels (Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista), ofereceu a Lang o cargo de chefia do Instituto de Cinema Alemão. O diretor não aceitou (era católico e anti-nazista). Com medo de retaliação, transferiu seu dinheiro para fora do país e fugiu para a França. Depois de um ano lá, foi para os EUA em meados de 1934, iniciando um contrato com a MGM. Pelos próximos 20 anos, dirigiu numerosos filmes americanos.

Mas voltando ao filme, ele é sobre o destino implacável (até mesmo a Morte sofre com a dor das vítimas !!!). A produção influenciou Ingmar Bergman (em Sétimo Selo, principalmente), Luis Buñuel (que declarou que este filme foi o que o estimulou a ser cineasta), Alfred Hitchcock (é de comum senso de que este era o seu filme preferido), Orson Welles, Terry Gilliam entre outros.

A história, como descrita acima, se divide então em três partes, acontecendo em três espaços e tempos diferentes e nelas, a mulher vive um personagem, seu noivo outro e a morte se disfarça de outros personagens, estando claro, sempre envolvida ou sendo instrumento do pior por vir. Fritz Lang passeia por um campo inexplorado, indo aonde homem nenhum jamais esteve (me sentido o próprio Spock aqui...) nos anos 20. Um lampejo de Outer Limits, eu diria.

Um desconhecido se instala num pequeno vilarejo. Compra o terreno ao lado do cemitério (!!), explicando que deseja fazer ali seu jardim e descansar do seu cansativo trabalho. Ergue um imenso muro, sem nenhuma passagem visível. Uma moça faz uma descoberta instigante com a perda do seu amor: quem ultrapassa aquelas paredes são os espíritos dos recém desencarnados. O homem misterioso seria o ceifador. A moça não perde tempo e faz um trato com ele que favoreça a volta do seu amor à vida. O trato envolve salvar 3 vidas condenadas, que são os três contos em que se divide a história.

O primeiro conto se passa na Pérsia com o caso proibido entre uma mulher árabe e um aventureiro ocidental. Um conto trágico que se beneficia do uso das locações. O segundo conto envolve um triângulo amoroso que se passa em Veneza. A mulher é prometida a um homem de bem, mas ao qual ela não ama, enquanto vê seu amor em situação oposta à de seu pretendente e seus planos sendo frustrados de forma inesperada. O terceiro e último se passa na China imperial. O conto gira em torno da disputa amorosa do Imperador que deseja a assistente do mágico, está apaixonada pelo seu assistente. E os três contos transitam entre vida, morte e o amor que une este dois em algum ponto.

A produção é pioneira (até por conta de quando foi feita) de temas caros ao diretor em toda sua filmografia, como amor, vida, morte e as discussões que fases da vida proporcionam, bem com a redenção. O título do filme remete à figura triste e solitária por ofício, porém cansada do sofrimento que ela leva, sendo incapaz, aparentemente, de fugir do "destino" (que é o título do filme em alguns países !!!). Quase uma maldição, do seu ponto de vista.

Detalhe importante, relativo ao momento atual que vivemos: as personagens femininas eram fortes dos filmes de Lang. Sempre dispostas, tomam iniciativa, protagonizam e inspiram. E isto, já nos anos 20. Talvez aí resida a maior colaboração da sua então esposa nos roteiros.

Lang fez um cinema para ser estudado, admirado e reverenciado. Nada menos que isto.

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Sobre o Colunista:

Marcus Pacheco

Marcus Pacheco

Marcus V. Pacheco é jornalista, formado na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Cinéfilo, Editor de site, Colecionador e Escritor. Marcus já realizou vários curtas metragens e um longa chamado "O último homem da terra (2001)", baseado no conto de Richard Matheson. Escreveu também 30 e-books sendo 29 sobre cinema e um de ficção que está em fase inicial para publicação. Criador e editor do site "Tudo sobre seu filme (http://www.tudosobreseufilme.com.br/)" onde publica críticas, listas, aulas de cinema e curiosidades do mundo da 7ª arte há 4 anos, além de realizar entrevistas com atores, diretores, críticos e colecionadores do mundo todo.

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