O Texto e o Contexto de Jorge Amado: A Misria Social na Linguagem Poeticamente Simplria

Apesar das facilidades de leitura do texto de Jorge e de suas habilidades de narrador, sente-se constantemente que alguma coisa falta ao escritor para a consistncia de sua literatura

22/02/2019 00:12 Por Eron Duarte Fagundes
O Texto e o Contexto de Jorge Amado: A Miséria Social na Linguagem Poeticamente Simplória

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Jorge Amado é o mais conhecido escritor brasileiro fora do Brasil. Conta o jornalista gaúcho Juremir Machado da Silva que, num diálogo com o famoso cineasta francês Alain Resnais, no momento em que Juremir revelou a Renais suas intenções de ser romancista, o francês teria exclamado, sob a forma de pergunta: “Como Jorge Amado?”

Apesar das facilidades de leitura do texto de Jorge e de suas habilidades de narrador, sente-se constantemente que alguma coisa falta ao escritor para a consistência de sua literatura. Ele se derrama em poesia cantada em prosa, bem nordestinamente; e suas saídas de enredo são muitas vezes esquemáticas e superficiais, expelindo melodramas com um cheiro algo popularesco.

Capitães da areia (1937) não foge necessariamente aos arquétipos, linguísticos e psicológicos, de Jorge; mas talvez seja um de seus romances mais bem trabalhados, adquirindo aqui e ali alguma consequência nos contornos verbais e sintáticos que põe diante do leitor. “Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem.” Assim começa a história dos meninos de rua da Bahia dos anos 30, criaturas muito pequenas, abandonadas por família e sociedade, que caíram na delinquência, e enfrentaram o desafio de invadir a segurança da classe média. Como ontem. Como hoje. Desesperados e espalhando o medo. O olhar de Jorge é o olhar benevolente de alguém da classe com teto e comida; segundo Zelia Gattai, escritora e esposa do romancista, Jorge dormiu no trapiche com os garotos, para buscar a autenticidade de caracteres; esta autenticidade de fato está, e em parte, nas personagens, nas suas formas de expressão, mas ainda é um olhar de fora, brando e levemente romantizado, escorreito demais e até duma vulgaridade simplificadora; um romance como Cidade de Deus (1997), de Paulo Lins, é terrivelmente mais duro e cru que aquilo que o romancista baiano expõe em Capitães da areia; na própria utilização da linguagem da garotada uma experiência como a de Lins ultrapassa a eventual rudeza dos diálogos do texto de Amado.

Ainda assim, Capitães da areia é um ponto considerável na literatura brasileira do século XX porque ali Jorge penetrou melhor na essência popular que era seu projeto literário. Lá para o fim do romance, Jorge faz alusões à inserção dos líderes dos meninos de rua no movimento de esquerda que então se estaria organizando no Brasil; mas é uma referência fugidia, é uma anotação de passagem e que não faz do livro um olhar sobre a esquerda de então.

Usando com frequência o “tu” mas fazendo a concordância na terceira pessoa, valendo-se das flexibilidades sintáticas do português falado no Brasil, Jorge transforma Capitães da areia também num instante de linguagem que hoje pode parecer esmaecido pelo tempo mas ainda interessa. O principal trunfo de Jorge —como era o do gaúcho Erico Verissimo— é a arquitetura romanesca —sintoma de sua sobrevivência, ainda que a duras penas e mais no imaginário do leitor comum que numa visão crítica de seu universo. Ainda se lê Jorge Amado fora do contexto literário? Que significa literatura popular e bastante lida nos conceitos que possam ter sobrevivido na arte de Amado?

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a dcada de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicaes de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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