Os Cruzamentos Est?ticos e Simb?licos do Homem Que Mira o Sudeste

Talvez seja o ponto mais extremo da excentricidade de seu realizador, o argentino Eliseo Subiela

01/10/2026 02:59 • Por Eron Duarte Fagundes
Os Cruzamentos Est?ticos e Simb?licos do Homem Que Mira o Sudeste

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Em Hombre mirando al sudeste (1986), um dos sucessos de estima na década de 80 e que também atraiu um expressivo público curioso aos cinemas que exibiam o filme, há uma relação algo metafórica entre as duas personagens centrais, e esta relação em símbolos pretende transformar-se numa reflexão real em torno da sociedade: a metáfora do real. Talvez seja o ponto mais extremo da excentricidade de seu realizador, o argentino Eliseo Subiela. Em cena, no cenário dum manicômio, um paciente (Hugo Soto, extraordinário em sua capacidade de mimetizar a demência de Dantés, sua criatura) e um psiquiatra (chamado Dr. Julio Denis, interpretado com a perplexidade requerida por Lorenzo Quinteros); o paciente (o louco) apresenta para o médico uma narrativa: ele, Dantés, veio de fora da terra, o que se vê dele (e dos próprios humanos) são imagens que remetem a uma realidade que está ocultada. Numa determinada cena do filme o médico folheia o livro A invenção de Morel (1940), do argentino Adolfo Bioy Casares, e imagina que o delírio cibernético (os mundos que se superpõem como umas imagens ou reproduções que não podemos materialmente tocar) de seu paciente pode vir duma possível leitura do romance de Casares. E assim, os próprios conceitos de natureza narrativa de Hombre mirando al sudeste apontam para sua origem: Subiela, como argentino culto, leu Casares e agora parte dele para construir um arquétipo cinematográfico sobre a natureza humana. Bem antes de Subiela, o francês Alain Resnais em O ano passado em Marienbad (1961) foi visto nas sombras do ficcionista platino. Há um pouco do cinema como máquina quântica nestas obras, inclusive no livro de Casares, que, exacerbando na questão da imagem, é muito um livro-cinema: os tempos que coexistem em mundos diversos habitando espaços que seriam ilusórios. Loucura? Pois é disto que trata Hombre mirando al sudeste: loucura embora, tem sua lógica, especialmente quando opõe a espontaneidade dos ditos dementes ao comportamento escapista e egoísta dos homens normais. Subiela agudiza a relatividade da loucura, como já o fizeram na literatura O alienista (1882), de Machado de Assis, e Enfermaria número 6 (1892), de Anton Tchekhov. No fundo, a densa atmosfera cinematográfica de Hombre mirando al sudeste nasce de todos os caminhos mal traçados antes pela cultura ocidental; Subiela (1944-2016), que uns dois anos antes de morrer esteve em Porto Alegre para apresentar aquele que seria seu derradeiro filme, Paisagens devoradas (2012), não deixa de ser herdeiro destes aspectos culturais racionalistas e mecanicistas, mas se transforma num rebelde demencial, intenso para com estes valores herdados.

Como acontece ao médico que trata o louco no filme de Subiela, o espectador não logra sair ileso da atmosfera dúbia e pesada duma narrativa que, lá vai mais uma referência, como em Franz Kafka, a metáfora se cola ao real e o mimetiza sem dó nem piedade. Sentimos o peso de duvidar de nossa própria sanidade ou inteligência; afinal, como diz Dantés, o louco, a alma mais mortal que temos não é a estupidez?

Mas, às vezes, esta loucura de cruzamentos estéticos e simbólicos vistos nas sombras de Hombre mirando al sudeste, ressuscitou muitos anos depois num filme americano. K-Pax, caminho da luz (2001), dirigido nos Estados Unidos pelo inglês Ian Softley, conta, como no filme argentino, a história da relação entre psiquiatra e louco em que a narrativa do louco gira em torno de ser um astronauta cibernético; Subiela acusou K-Pax de plagiar seu filme, sem referir os créditos, mas Softley alegou que extraíra seu roteiro dum romance americano de Gene Brewer. É possível então que Brewer tenha copiado Subiela? No século em que escritores veem filmes, escritores são influenciados pelo cinema, aí está o prato estético que faz entornar a questão aqui proposta: ao mirar o sudeste, o doido percorre os símbolos estéticos e simbólicos do passado e do futuro.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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