Literatura e Jornalismo: História e Cotidiano

O texto escrito em julho de 1991, foi enviado ao escritor Moacyr Scliar, que, lendo-o, anotou o seguinte em sua coluna “Diário de bordo”, no jornal Zero Hora, de 14.07.1991

21/11/2018 22:07 Da Redação
Literatura e Jornalismo: História e Cotidiano

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Pré-notas: O texto abaixo, escrito em julho de 1991, foi enviado ao escritor Moacyr Scliar, que, lendo-o, anotou o seguinte em sua coluna “Diário de bordo”, no jornal Zero Hora, de 14.07.1991: “Eron D. Fagundes (Porto Alegre) manda um artigo em que fala sobre as relações entre literatura e jornalismo, analisando várias obras e concluindo: ‘Se a literatura é perene e o jornalismo efêmero, a aproximação entre os dois serve para dar cunho histórico e duradouro ao cotidiano’. De acordo, Eron. Escritores têm muito a aprender com jornalistas: objetividade, síntese. E o jornalismo pode aprender com a literatura a valorizar o rigor formal do texto e a buscar sempre a profundidade.” De uma certa maneira, esta publicação de meu texto inédito (um de meus muitos inéditos) é uma homenagem a este grande romancista gaúcho falecido em 2011. 

Literatura e Jornalismo: História e Cotidiano

As relações entre a literatura contemporânea e o jornalismo são muito fortes. É natural que o jornalismo molde o estilo de muitos escritores modernos quando se sabe que alguns deles, lado a lado com a publicação de livros, escrevem para jornal: é o caso do colombiano Gabriel García Márquez e do brasileiro Moacyr Scliar. Mas jornalismo, hoje, não é somente a página impressa: são as ondas sonoras do rádio (cuja influência nem chega a ser tão grande na literatura) e as ondas visuais da televisão (de avassaladora ação sobre tudo na vida moderna, inclusive sobre os livros).

Seria a ação jornalística uma vulgarização de atividade literária?

Três livros de ficção bastante importantes no começo dos anos 90 das letras brasileiras permitem curiosas divagações sobre o assunto. Divagar com os pés no chão —e a com a cabeça nos livros— é um bom começo para a reflexão. O mineiro-carioca Rubem Fonseca compõe seu Agosto (1990) como um cronista policial; e o faz com o melhor de suas capacidades narrativas. O baiano Antônio Torres deixa entrever suas origens de repórter e publicitário no intenso espelho surrealista que é Um táxi para Viena d’Áustria (1991). Em Quem faz gemer a terra (1991) o gaúcho Charles Kiefer se deixa obcecar por um gesto real (a foice do colono que atinge o pescoço do soldado) e elimina quase toda a trama ficcional para deixar no texto só aquele gesto inicial, um despojamento jornalístico. São livros diferentes entre si. As relações de causalidade e continuidade dos episódios do romance de Fonseca não são encontradas na novela de Kiefer, uma obra elíptica, que recria o mundo a partir de algumas ações básicas e não pelo processo narrativo comum que coloca sempre a questão —o que vem depois? (Kiefer diz: tudo vem junto). A investigação do crime no livro de Fonseca é ignorada por Torres em sua narrativa, onde o que interessa é o rosário interno de misérias do desempregado brasileiro que parece ter cometido um assassinato mais metafórico do que real. A vivacidade dos textos de Fonseca e Torres é substituída pela linguagem do desencanto nas frases de Kiefer. O realismo de Kiefer e mesmo de Fonseca é execrado pelos delírios algo barrocos de Torres. E por aí vamos de diferença em diferença. O que quer dizer que o jornalismo pode agir diferentemente em sua influência sobre a literatura.

Agosto permite descobrir uma relação que está na base da essência jornalística: as relações entre a história e o cotidiano. Recriando em cores vivas o mundo brasileiro e especialmente carioca de agosto de 1954, e o fazendo sem pudores para com as figuras históricas, Fonseca torna clara esta relação entre fatos históricos e o dia-a-dia das pessoas. O atentado contra Lacerda, as exacerbações políticas da época, o suicídio de Vargas se misturam sem solução de continuidade com a úlcera e os namoros do protagonista de ficção, o policial Alberto Mattos, que sai à cata dos assassinos dum empresário carioca e se envolve na busca dos mandantes do atentado contra Lacerda; a relação história-cotidiano é reforçada na justaposição do suicídio de Vargas ao assassinato do policial Mattos no fim do livro à mão de criminosos que não simpatizavam com o espírito “abelhudo” do investigador; e esta relação é evidenciada pela descrição que fecha a obra, uma descrição da rotina da cidade: o dia do grande centro urbano brasileiro, seu funcionamento burocrático, nascimentos de bebês, chegada de turistas, temperatura, e outros dados estatísticos retirados de jornais da época. Isto é: apesar dos acontecimentos notáveis daquele famigerado agosto de 1954 (as mortes de Vargas e, acrescemos, de Mattos), a vida continuou como sempre.

Antônio Torres é mais ousado e secreto nas trocas que propõe entre jornalismo e literatura. Publicitário, repórter, o autor de Um táxi para Viena d’Áustria se vale de aspectos destas linguagens para criar seu estilo de escrever em literatura. Publicidade e jornalismo hoje têm muito a ver com televisão. A televisão é prima (alguns dizem que distante) do cinema. Títulos de capítulos: gritos e sussurros, o rosto, o homem do século vinte que vê cinema logo evoca filmes do sueco Ingmar Bergman. O brilhante texto do delírio da parede branca lembra, por referir-se à parede branca, o cinema do italiano Michelangelo Antonioni dos anos 50 e 60. Alfred Hitchcock tem uma de suas frases irônico-teóricas como epígrafe de um dos capítulos. Copacabana me engana é título de um filme brasileiro de Antônio Carlos Fontoura. Porém, Um táxi para Viena d’Áustria deve mais à televisão do que ao cinema. Algumas chamadas publicitárias (ao estilo daquelas já usadas pelo romancista paulista Ignácio de Loyola Brandão) são eminentemente televisivas.

Como ocorre nos mais sinceros textos jornalísticos, o estilo nasce do tema. É a realidade que produz a maneira de narrar. A consciência narrativa é dada pela personagem dum publicitário desempregado que cometeu um crime. O desemprego é o tema e a sintaxe da publicidade marca a interstícios o ritmo narrativo. Mas a temática social, incrustada nesta aguda crise brasileira, e as veleidades televisivas não impedem Torres de impor uma arte superior, sem concessões, quer às facilidades de fotografia do cotidiano, quer às superficialidades de linguagem.

Mais de um século depois de O alienista (1882), de Machado de Assis, Antônio Torres propõe um universo de sarcasmo e loucura como forma de interpretar a sociedade brasileira. Se Franz Kafka fosse brasileiro, seu texto Transeuntes poderia ter a forma do primeiro parágrafo de Um táxi para Viena d’Áustria: em lugar da abstração espacial e temporal dum tcheco sombrio, algo mais concreto, mais objetivo, onde quem corre está muito claro que corre por alguma coisa e não, como em Transeuntes, por função metafísica.

A relação entre história e cotidiano se materializa na obra de Torres na aliança entre rigor estilístico e contemporaneidade.

Enquanto a história se muda em cotidiano em Agosto, de Rubem Fonseca, é o cotidiano que se converte em história em Quem faz gemer a terra, de Charles Kierfer. Um fato recente, ainda cheirando a brasa jornalística, embora uma brasa já quase apagada pelo esquecimento inconsciente da velocidade da história do cotidiano, é não somente o ponto de partida da novela de Kiefer, como seu próprio ponto de chegada, quase uma linha reta feita de um só ponto; a trama inteira, os vaivéns romanescos são deixados de lado para deixar no texto como solitária partícula este evento único. É tão pequena esta partícula que Kiefer sequer chega a movimentar o confronto armado entre soldados da Brigada Militar e colonos sem-terra na Praça da Matriz; isola um só gesto deste fato que tem dois anos de história no momento em que escreve sobre ele, o gesto do colono que matou com uma foice a um soldado.

O resto é pouca trama. Um despojamento temático total. Por exemplo, a aproximação entre o protagonista-narrador e sua futura esposa Neusa é resumida em algumas frases; o que o enredo novelístico de um Leon Tolstoi ou de um Honoré de Balzac exigiria um bom volume de páginas, Kiefer enquadra em algumas linhas. Igual procedimento é adotado quando se trata da infância do filho do colono. “Eu podia lhe contar sobre a infância do guri, mas nisso você mesmo ponha enredo. Pense no seu próprio tempo de menino: a moleza da febre, o vermelho do sarampo, o pus das cataporas. Acrescente a miséria, o frio e a fome.” O que fica no texto é um fiapo —materializado por uma sucessão de palavras e sintaxes de determinada sonoridade— que permite ao leitor um contato com a alma do colono, vítima duma tragédia do cotidiano obscurecida pelo imperialismo da imprensa citadina.

Um pouco à maneira de Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), Kiefer começa seu livro questionando a própria estrutura narrativa: abrir sua história pelo fim (os episódios da Praça da Matriz) ou pelo início (sua infância) ou contar em vaivém. E acaba por concluir que, se não disse tudo, é porque uma história não tem fim. É claro que Kiefer está longe de ter os fumos metafísicos de Machado. No entanto:...

“O Mateus que perdeu a razão e matou o soldado já estava no menino que levantou a foice contra o gambá no incêndio do mato? Se estava, a miséria temperou o aço da lâmina, aguçou o fio e me preparou pro desatino”. Mateus —e o ser humano em geral— é assim como a Capitu de Machado de Assis: seus gestos de infância explicam seu comportamento de adulto. A vida crua, o texto simplório de Kiefer e os refinamentos elevados de Machado guardam em alguma instância a mesma essência de origem. O resto é literatura.

Se a literatura é perene e o jornalismo efêmero, a aproximação entre os dois serve para dar cunho histórico e duradouro ao cotidiano que passa veloz diante de nossos olhos. Serve para resgatar o cotidiano esquecido porque estava mergulhado em acontecimentos históricos (Agosto) ou para colocar na linha de frente da história o cotidiano cuja inegável força histórica é ignorada ou pela colonização cultural ou pela brasa jornalística que ainda queima nas mãos de quem se debruça sobre este cotidiano (Quem faz gemer a terra). Em A miséria do cotidiano (1991) o jornalista, ensaísta e escritor Juremir Machado da Silva lembra que “o estudo do cotidiano tem sido acusado de minimizar as relações de poder”. No caso da literatura de ficção não há estudo no sentido  científico ou escolar da expressão; há apreensão de um sentimento, estado d’alma, momento político; até que ponto a inserção do cotidiano jornalístico vai vulgarizar ou dar vivacidade ao texto literário, isto dependerá de cada escritor.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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