Os Exercicios Cinematograficos de Welles em Shakespeare
Impressionante como, numa obra tao cheia de problemas, o genio de Welles se estabelece olimpicamente
O americano Orson Welles tinha a obsessão da grandeza. A grandiloquência e a megalomania faziam parte de seu jeito: humano e estético. Como seu brinquedo era o cinema, o que conhecemos de sua maneira de ser vem de seus filmes. Feitos sempre com o gênio de filmar, que ele exercitava em montagens absolutamente criativas. Falstaff, o toque da meia-noite (Campanadas a medianoche/Chimes at midnight; 1965) foi um de seus feitos que ficaram mais ou menos perdidos ao longo do tempo e que se tinha bastante dificuldade de encontrar, por qualquer suporte. Na verdade, é a mais ambiciosa e profunda aproximação de Welles ao universo de uma de suas obsessões simbólicas, o multifacetado poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare, de quem ele já filmara Macbeth (1948) e Othelo (1952) e cuja altissonância de natureza estético-filosófica constantemente ronda o universo fílmico do realizador americano. Construído de detalhes de textos de algumas peças de Shakespeare (Henrique IV, Henrique V, As alegres senhoras de Windsor), Falstaff exubera na montagem com a essência da linguagem-personagem de Welles: neste filme Welles —grandiloquente, barroco, agudamente narcisista— se põe como Shakespeare no cinema: seu Shakespeare, encarnado muito no enviesado John Falstaff interpretado pelo próprio Welles, com sua figura impositiva de ator, é um tanto o diretor do filme, um diretor de cinema, Shakespeare é Welles, dois gênios separados por séculos.
A longa sequência bélica que Welles filma, com sua alternância de planos rápidos e angulações rebuscadas e primorosas, remete ao processo estético de atrações de S.M. Eisenstein, cineasta russo que é outra das cabeças de influência de Welles, eternamente atraído pela grandeza, pelos grandes homens. E esta hipnose da grandeza que Welles cultiva em seu cinema se estende à sua escolha e utilização de elenco. O inglês John Gielgud (visto em Julio César, 1953, um Shakespeare dirigido por Joseph L. Mankiewicz, e um amargurado escritor na velhice em Providence, 1977, um Alain Resnais montado um pouco à maneira de Welles) põe em Falstaff seus atributos bem shakespeareanos, com fundos originalmente britânicos. E não faltam as travessuras geniais da francesa Jeanne Moreau como a esquiva prostituta Doll Tearnhett. É impressionante como, numa obra tão cheia de problemas, o gênio de Welles se estabelece olimpicamente. Entre suas verdades e mentiras.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br