Presença e Ausência de Welles nos Lados do Vento

Por sua extravagância de filmar e por seu desprezo para com a responsabilidade financeira, o cineasta norte-americano Orson Welles foi o diretor dos filmes inconclusos

05/01/2019 23:16 Por Eron Duarte Fagundes
Presença e Ausência de Welles nos Lados do Vento

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Por sua extravagância de filmar e por seu desprezo para com a responsabilidade financeira, o cineasta norte-americano Orson Welles foi o diretor dos filmes inconclusos. Um deles foi rodado no Brasil e há uma série de crônicas cinematográficas de Vinicius de Moraes onde o narrador brasileiro acompanha as aventuras estéticas do diretor em plagas tropicais. Nos anos 90 terminaram de montar um filme feito por Welles entre 1951 e 1971: Don Quixote (1992). Agora é a vez de O outro lado do vento (The other side of the Wind; 2018), que seria o filme testamentário do realizador, cujas filmagens foram em boa parte concomitantes com Verdades e mentiras de Orson Welles (1974), o último trabalho lançado durante a vida de Welles, que faleceu em 1985. Com autorização da viúva de Welles, a ex-modelo croata Oja Kodar, e sob a supervisão de produtor de Peter Bogdanovich (ambos, Oja e Peter, são atores nesta obra incompleta póstuma), O outro lado do vento foi produzido pela Netflix, e sua exibição, por enquanto, se dá na tela doméstica; mas é certamente uma obra-prima do cinema, ainda que em muitos aspectos de sua montagem apresente uma atmosfera difusa e perplexa que não era propriamente aquela invenção formal que se conhece de Orson Welles. A montagem atual de O outro lado do vento tem mais proximidade com o experimentalismo francês ou alemão (talvez uma mistura dos dois) do que com a veia de absurdos que era a raiz do estilo de filmar do cineasta americano.

Bastante mais cuidado em sua tentativa de resgatar as ideias cinematográficas de Welles que aquilo que se viu na montagem de 92 de Don Quixote, O outro lado do vento é um apaixonante depósito da criatividade de Welles para articular os planos cinematográficos e as relações entre estes planos; ainda que a montagem de Bodganovich o empurre para um lado diferente, a própria forma de existir de cada plano vai puxando o resultado final para algo dentro da maneira de montar que seria em Welles. Uma dialética sensorial-fílmica a que o espectador se submete enlevado. Welles sabe desfiar paixões em suas encenações. Uma destas paixões é um constante debruçar-se de cinema sobre o corpo e a essência de sua amada amante daqueles anos de filmagem, a modelo croata Oja. A atriz deixa exibir a naturalidade de seu corpo. E, numa cena de sexo dentro dum carro, cena longa sob o olhar exterior da chuva, Oja devora não somente seu parceiro de cena mas a própria vista do espectador. A outra paixão alimentada (ou realimentada) por Welles em seu filme é a do cinema mesmo; na pele do autodiretor de cinema Hannaford, vivido pelo veterano John Huston, Welles explora os perturbados conflitos do artista e da indústria do cinema, e se vale do mais jovem Bogdanovich (também um diretor de cinema, como Huston) para expor esta dialética enviesada entre o velho e o novo. A montagem que se vê em O outro lado do vento propõe uma narrativa de semiótica confusa, que nunca fecha os termos; é aí que assoma sua diferença do que seria uma montagem de Welles em seu tempo, pois em suas excentricidades formais o diretor americano ia pondo sentidos simbólicos que chegavam a fechar o cerco estilístico. A profusão de vozes que aparecem no filme (há inclusive a figura duma crítica de cinema, interpretada por Susan Strasberg, e que se diz calcada na acidez de Pauline Kael, com quem Welles teve desavenças) dilui bastante o foco, aproximando as tensões formais de outras realidades experimentais, como já se afirmou. Em outra citação, a utilização do ator Dennis Hopper, refazendo atmosferas, a bordo duma moto, cenas aparentadas ao clássico Sem destino (1969), dirigido por Hopper e interpretado por Hopper e por Peter Fonda.

Entre presenças e ausências, pode-se dizer que O outro lado do vento é um destaque e tanto dos lançamentos cinematográficos nestas duas primeiras décadas do milênio.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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