O Cinema, a Experiencia: Divagacoes no Espaco

Um dos mais perturbadores realizadores cinematograficos de hoje, o tailandes Apichatpong Weerasethakul transforma o cinema numa experiencia

27/12/2022 13:32 Por Eron Duarte Fagundes
O Cinema, a Experiencia: Divagacoes no Espaco

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Um dos mais perturbadores realizadores cinematográficos de hoje, o tailandês Apichatpong Weerasethakul transforma o cinema numa experiência: algo vital e único para o espectador. Se não surgir aí uma certa defasagem de conceitos, se poderia aplicar ao cineasta oriental aquilo que um comentarista brasileiro dos anos 60, José Lino Grünewald, dizia de diretores como o americano Orson Welles (após ver Cidadão Kane, 1941) e o francês Alain Resnais (depois da visão de Hiroshima, meu amor; 1959): é um inventor; isto é, um inventor da imagem cinematográfica. O novo filme de Weerasethakul, Memória (Memoria; 2021), vai propondo novas divagações no espaço de filmar, algo que ele já exercitara em Tio Boonmee (2010), premiado com a Palma de Ouro em Cannes, e Cemitério do esplendor (2015), estes dois filmes os únicos do cineasta que chegaram aos circuitos comerciais brasileiros, espantando a muitos observadores, com sua radicalização estética, com sua absoluta ausência de concessões às maneiras fáceis de conquistar as plateias colonizadas por modelos de filmar. Memória não foge a esta estatura de encantamento: cada percurso espacial da câmara de Weerasethakul é o cinema como experiência.

Os longos planos sobre o espaço, os quadros estranhos e um roteiro (que é basicamente de anotações livres) que é labiríntico e naturalmente incógnito servem em Memória para desestabilizar a fácil tranquilidade de ver daquele que entra numa sala de cinema ou, hoje, se senta à frente duma tela doméstica. Na primeira imagem, uma tomada vagarosa e de visual escuro como boa parte das cenas, de repente o espectador habituado do cinema pode distinguir a silhueta da atriz Tilda Swinton. Lento como o plano estético e os medidos movimentos de câmara do realizador, o corpo de Tilda se ergue lateralmente do chão na escuridão da imagem. Depois, com seu rigor plástico, acompanha a personagem Jessica, a antropóloga vivida por Tilda, em sua aventura numa terra estrangeira, primeiro ela é vista com um jovem Hernán que é engenheiro de som (o som como matemática se antecipa ao som como arte de Bach ou Debussy), este Hernán lá pelas tantas desaparece como um ente metafísico à maneira de personagens de Michelangelo Antonioni, ela queria que Hernán captasse o som duma explosão que havia na cabeça dela, Jessica; na sequência, perdida de Hernán, Jessica se aproxima de outra personagem, homônima da anterior, novamente um Hernán, mas não é o mesmo, é mais velho mas não é o jovem anos depois como se poderia pensar, este Hernán mais orientalizado simula num longuíssimo plano fixo a ausência de movimentos e de respiração da morte deitando-se diante de Jessica no chão, um comprido silêncio de imagem exasperante. Neste filme, em que o diretor sai de sua Tailândia natal e desembarca com seu cinema-experiência na Colômbia, a memória se bifurca; na verdade ela não tem os habituais conteúdos, tem sensações, que nascem do espaço divagante do filme.

Tilda Swinton, a intérprete central, é também produtora executiva. Nota-se em seu desempenho —minuciosamente criativo— a entrega absurda ao projeto do cineasta tailandês: na coisa que transcende. Tilda esteve em alguns filmes de seu patrício Derek Jarman (Caravaggio, 1986, e Wittgenstein, 1993). Fez fama com a trilogia As crônicas de Nárnia, o primeiro destes filmes é de 2005. Recentemente ela carrega com brilho as andanças verbais do monólogo do francês Jean Cocteau na versão cinematográfica do espanhol Pedro Almodóvar em A voz humana (2021). Tilda nasceu em Londres mas sua família paterna é escocesa, ela reside na Escócia. Ela é uma nota que se põe à altura do empenho de filmar de Weerasethakul.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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