Soberba, a Obra-Prima Invisível

A edição integral do segundo longa de Orson Welles, por muitos considerado melhor que Cidadão Kane, nunca chegou às telas

21/10/2014 16:09 Por Ely Azeredo
Soberba, a Obra-Prima Invisível

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Cidadão Kane, o mais inventivo filme de todos os tempos, chegou às telas em 1941. Era o primeiro longa-metragem de Orson Welles, originário da direção teatral e radiofônica. Havia impactado a crítica americana com suas encenações de peças de Shakespeare. E ao transmitir pelo rádio, ao vivo, sua dramatização do livro "A Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, reportando a invasão da Terra por seres oriundos de Marte, causou pânico nos Estados Unidos; e teve que prestar contas à Justiça.

O sucesso da "maratona" radiofônica abriu caminho para Welles e a Mercury, sua produtora de vanguarda, fossem contratados pela RKO com total liberdade de criação. Mas a edição integral de seu segundo longa, Soberba (The Magnificent Ambersons) - por muitos considerado melhor que Cidadão Kane - nunca chegou às telas. Na versão comercial, lançada nos Estados Unidos em 10 de julho de 1942 - a mesma que circula em DVD - o filme tem apenas 88 minutos de projeção. Nas salas de montagem da RKO perdeu nada menos que 45 minutos, sem interferência decisiva do cineasta que, no meio da Segunda Guerra Mundial, estava no Brasil dirigindo seu terceiro longa, É tudo verdade (It's all true),

Quando finalizava a filmagem de Soberba, Welles foi convidado pelo  Governo americano para rodar no Brasil um filme que atraísse para os Aliados as simpatias do então ditador Getúlio Vargas - naquele momento  fascinado pela potência da Alemanha nazista. A ideia integrava a chamada política de "Boa Vizinhança" de Washington, também responsável pela vinda de Walt Disney, que aqui se inspirou para criar um personagem brasileiro, o papagaio Zé Carioca. Vaidoso, preocupado  em não ser convocado para o serviço militar, e louco para  brilhar em um "papel" na vida política real, Welles confiou o material filmado para Soberba ao jovem montador Robert Wise (depois de passar três dias e três noites com ele, criando uma versão-rascunho) e voou para o Rio de Janeiro. A partir daí tudo conspirou para que a concepção do cineasta desse origem a um dos mais discutidos "filmes impossíveis".

Se o roteiro fosse respeitado na íntegra, Soberba ficaria perigosamente longo para os padrões da época. Os filmes da chamada "produção A" tinham em média, nos anos 1940, apenas 90 minutos. Com a guerra batendo à porta dos EUA, os estúdios estavam interessados em otimismo; e a adaptação do romance de Booth Tarkington sobre o esplendor e a decadência de uma família aristocrática no final do século dezenove, era uma narrativa soturna, com elementos de tragédia. Conforme uma tática de mercado da época, a RKO  fez duas sneak-previews (pré-estreias de surpresa) para testar a receptividade do público. As reações foram negativas. Muitos espectadores se retiraram antes do final da projeção.

Incansável e extremamente prolixo, Welles já co-dirigira um filme "por telefone": Jornada do Pavor (Journey into Fear). Atuando também como produtor, confiara a filmagem a Norman Foster (a quem passava instruções telefônicas). Mas seria impossível orientar a montagem de um filme dessa forma, ainda que as ligações telefônicas internacionais fossem fáceis. Com o Atlântico em guerra, uma cópia da película não poderia ser enviada ao Brasil. Pressionado em direções conflitantes por Welles e pelos patrões da RKO, o editor Wise não poderia satisfazer o cineasta em "expedição" pelo Brasil. A versão cortada para 88 minutos, que presumiam ser mais palatável, foi lançada e resultou em rotundo fracasso de bilheteria. A RKO recolheu Soberba aos seus cofres. E o material filmado (cerca de 45 minutos!) que não se aproveitou na edição, foi descartado como inútil.

Da concepção original só resta o roteiro. Os produtores não acataram a sugestão, feita na ausência de Welles, de que fosse tirada uma cópia fiel a ser preservada pelo Museu de Arte Moderna de Nova York. Além de adulterar (segundo o cineasta) o corpo essencial do drama, a RKO promoveu a filmagem de cenas inexistentes no roteiro.

A aparência de obra inteiriça atesta a perícia de Robert Wise, que se tornaria diretor de filmes de sucesso. Ele realizou pelo menos uma obra-prima: Punhos de Campeão (The set-up), com Robert Ryan, provavelmente o melhor filme sobre lutadores de boxe.

Vários personagens de Soberba perderam substância com os cortes  Mas os atores refletem o brilho wellesiano, o estilo da Mercury - a produtora de vanguarda que Orson  comandava e que assinou contrato com a RKO para dois longas-metragens. O ator-cineasta não aparece na tela, mas participa vocalmente, fazendo a narração. O elenco atua com uma "bravura" de aturdir plateias menos sensíveis. Até um ator limitado como Tim Holt (no papel de George, o belicoso herdeiro dos Amberson) corresponde à expectativa. Vindos de Cidadão Kane, Joseph Cotten faz o papel do inventor de automóveis Eugene Morgan; Ray Collins é o irmão de Isabel Amberson; e Agnes Moorehead vive o papel da cunhada. Ainda no estágio inicial de sua carreira, Anne Baxter interpreta Lucy, que George corteja. No roteiro de "desencontros" da história, o orgulho de George trava sua atração por Lucy, filha do homem que despreza por ser negociante, Eugene, e impede a aproximação amorosa entre este e Isabel (Dolores Costello), sua mãe que enviuvara.

Enquanto, seduzido pelo Brasil (e principalmente pelas brasileiras), Welles filmava É Tudo Verdade sem um roteiro prévio, os problemas de Soberba atraíram sobre  ele a pecha de "irresponsável". É Tudo Verdade, principalmente por ineseperada mudança no comando da RKO, ficaria inacabado. Este material foi aproveitado por terceiros (após a morte de Orson) para um documentário longo sobre sua "aventura brasileira".

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Sobre o Colunista:

Ely Azeredo

Ely Azeredo

Ely Azeredo é jornalista, crítico e professor de cinema. Escreve no caderno "RioShow" (O Globo) e no blog de cultura cinematográfica cujo acesso é: elyazeredo.com. Livros publicados: "Infinito Cinema", "Olhar Crítico: 50 Anos de Cinema Brasileiro" e "Jorge Ileli - O Suspense de Viver". Participou de edições sobre Hitchcock, Bergman e outros cineastas. Integrou o júri do Festival de Berlim. Criou o primeiro Cinema de Arte (RJ) e a revista "Filme Cultura".

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