Procura Insaciável: Choque de Gerações

Procura Insaciável retrata uma espécie de ressaca do movimento hippie no início dos anos 70

05/07/2017 23:13 Por Jorge Ghiorzi
Procura Insaciável: Choque de Gerações

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O movimento hippie, quem diria, já é um cinquentão. O “verão do amor”, marco da proposta de mudança de comportamentos apregoada pela juventude, aconteceu no distante ano de 1967 na icônica cidade de São Francisco, na Califórnia (EUA). A contestação aos padrões sociais estabelecidos ganhava força através da cultura que conquistou os corações e mentes dos jovens com um fortíssimo aliado: o rock. A liberdade absoluta era um direito a ser exercido na plenitude. Sem limites. E de preferência com flores (e algo mais) na cabeça. O cinema, é claro, não podia ficar de fora daquela nova onda. Naquele período em particular surgiram muitos filmes explorando aquele universo social e suas ideias. Ora tratando o tema com interesse genuinamente sociológico, ora com algum caráter de exploração gratuita ou cômica, ou ainda, na maior parte das vezes, apenas incluindo personagens hippies na história para aproveitar o modismo e atrair público.

Um dos filmes mais significativos e simbólicos daquele período foi realizado tardiamente, apenas em 1971, por um diretor europeu, portanto, com um olhar estrangeiro, crítico e não comprometido com aquele ambiente social dos Estados Unidos. O realizador foi o checo (hoje naturalizado norte-americano) Milos Forman e o filme em questão é Procura Insaciável (Taking Off). Esta foi sua primeira realização em terras americanas, com a qual ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Cannes daquele ano. O projeto inicial de Forman ao viajar para a América era filmar a peça “Hair”, de grande sucesso na época, mas o projeto acabou sendo adiado, só concretizando-se oito anos depois, no final da década de 70. Partindo de um roteiro original, escrito em parceria com Jean-Claude Carrière, Milos Forman aborda em Procura Insaciável temas semelhantes e afins com Hair. Substancialmente o que diferencia os dois filmes é a mudança de foco narrativo. Em Hair acompanhamos a trama pela ótica dos jovens, já em Procura Insaciável o eixo de interesse se dá sob a perspectiva dos adultos, no caso, os pais da jovem influenciada pelo universo da contracultura.

O modo de vida hippie é envolvente e sedutor para os adolescentes presos às tradições sociais das famílias conservadoras. É esta promessa de um mundo de liberdade que faz a cabeça da jovem aspirante à cantora Jeannie Tyne (Linnea Heacock). Ao participar, sem avisar aos pais, de uma audição para o elenco de uma produção teatral (uma longa sequência inicial) a jovem fica fora de casa por muitas horas. A ausência da filha faz os pais imaginarem que ela decidiu fugir de casa para viver com os hippies. Ou, quem sabe, ela foi sequestrada por um bando deles. Decididos a descobrir o paradeiro da filha, o casal Larry (Buck Henry) e Lynn (Lynn Carlin) decide que eles próprios devem procurar por ela. Nesta busca por bares e ruas da cidade conhecem outros pais em situação semelhante e se envolvem numa viagem de descobertas pessoais que superam inclusive o desejo de encontrar a própria filha.

Procura Insaciável retrata uma espécie de ressaca do movimento hippie no início dos anos 70. O fim de um tempo de utopia se aproximava e o movimento chegava num impasse por não propor caminhos viáveis para alcançar resultados concretos e objetivos. Mas que deu uma sacudida na sociedade ocidental, disso não há dúvida. Ao forçar os limites comportamentais provocou reflexões mais do que oportunas. E a família tradicional nunca mais foi a mesma. Milos Forman faz um retrato deste tempo de mudanças e troca da guarda. O filme, que na essência mostra o choque de gerações e suas respectivas visões de mundo, se constitui hoje num preciso documento histórico.

A procura dos pais pela filha os tira de um estado de letargia. Viver o mundo real além das paredes confortáveis do lar seguro possibilita que eles “vejam” o mundo com outros olhos. Mais do que isto na verdade. Permite que eles experimentem novos desejos e sensações que estavam adormecidas, ou domesticadas em nome dos bons modos de uma sociedade repressora e careta. Na prática eles descobrem um mundo de liberdades que eles próprios reprimiam em sua filha. Milos Forman é sarcástico e implacável com esta hipocrisia. O resultado é um riso amargo no rosto do espectador.

Impossível ficar impassível diante da impagável sequência de um grupo de pais tendo aulas de como fumar um cigarrinho de maconha, ministrada por um expert no assunto, um interno com problemas de dependência química. Rico em detalhes de como preparar o baseado, passando pelos atos de acender e tragar a fumaça, a experiência deveria ser importante para os pais realmente entenderem seus filhos. Se entenderam realmente não se tem certeza, mas que o experimento foi um barato, não resta dúvida.

Procura Insaciável é um registro histórico também por mostrar na sequência inicial (da audição musical) duas artistas que ganhariam notoriedade anos depois: a atriz Kathy Bates e a cantora Carly Simon. Consta que a cantora Madonna (então com cerca de 10 anos de idade) disputou sem sucesso um papel para participar desta sequência. E mais: Tina Turner aparece se apresentando num show real filmado numa casa de espetáculos.

 

Assista o trailer: Procura Insaciável

 

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Sobre o Colunista:

Jorge Ghiorzi

Jorge Ghiorzi

Bacharel em Jornalismo e pós-graduado em Marketing. Redator, roteirista e produtor de eventos culturais. Editor da publicação “Cine Guia Preview” (1995 – 2000) e do newsletter “Cine Guia Preview” (2009 – 2011). Produtor do Festival de Cinema de Gramado por 17 anos. Colaborou com críticas de cinema para jornais do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Já publicou textos de cinema em diversos blogs e sites, como “Papo de Cinema”, “Facool” e “Movi+”, e também para a revista “Voto”. Criou a produtora cultural “Cine UM”, em 2009, que desenvolve uma programação de cursos livres de cinema em Porto Alegre e no interior do estado. Contato: jghiorzi@gmail.com

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