O Cinema Tateante: Um Sonho Documental

Errante; um filme de encontros (2016), realizado pelo cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro, tarda um pouco a engrenar

18/09/2017 09:09 Por Eron Duarte Fagundes
O Cinema Tateante: Um Sonho Documental

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Errante; um filme de encontros (2016),  realizado pelo cineasta gaúcho Gustavo Spolidoro, tarda um pouco a engrenar. Gustavo é diretor e personagem do filme; como personagem, vive a si mesmo como um diretor de cinema que pretende filmar livremente durante os cinco dias do Carnaval de 2011, na cidade de Porto Alegre e fora dela; o filme vira seu próprio assunto e a construção narrativa se autorreflete, aqui e ali curiosa, acolá desajeitada, mas sempre capaz de interessar o observador crítico. Como disse na primeira frase deste texto, as coisas demoram um pouco a juntar-se e a sensação de fagulhas dispersivas chega a incomodar; mas, especialmente após o desenvolvimento tateante do velhinho que caminha a esmo (“como um cão sem dono”, segundo Spolidoro, narrador e criatura) pelo centro de Porto Alegre, e durante o episódio que traz para a cena a francesa Stepahnie Piou que é também, como o diretor do filme, uma errante que anota as coisas que vê (ela escreve em seu bloquinho, Gustavo registra com sua câmara), o filme adquire uma beleza serena e fundamental para aquilo que o realizador pretende expor.

Há uma referência a Jean Rouch e Edgar Morin, franceses que rodaram, no modelo de ir filmando para chegar a um resultado desconhecido, o clássico Crônica de um verão (1961). Sabe-se que o brasileiro Eduardo Coutinho foi o mais hábil de todos os nossos diretores do gênero: fazia engatar seus filmes de espontaneidade nos primeiros movimentos. Mas não me parece que a forma como o filme de Rouch e Morin age sobre Coutinho seja a mesma que atua influenciando Spolidoro. O cinema de Spolidoro remete muito mais aos neodocumentários alemães dos anos 80, como Não me venha falar em destino (1979), de Helga Reidemeister, visto há muitas décadas no salão do auditório da Reitoria de Universidade Federal do Rio Grande do Sul: há tensões de construção/desconstrução que inibem aquela “natureza natural” perseguida por Coutinho. Em Morro do céu (2009), o melhor de Spolidoro, estas tensões tinham uma consistência muitas vezes maior que esta que se vê em Errante. O lado de ensaio instintivo do jeito cinematográfico de Spolidoro já se via em Ainda orangotangos (2007), ainda que baseado num original literário, e mesmo quando adaptava as formas de encomenda de De volta ao quarto 666 (2008), um olhar para o cinema do alemão Wim Wenders, outro tipo de cinema para o qual é bom olhar para se meditar sobre os métodos fílmicos múltiplos de que se vale o diretor gaúcho para tatear seu próprio estilo de encenar.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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