Outra Vez em Toquio, Entre os Banheiros e a Cultura

Em Dias Perfeitos Wenders volta a Toquio, que sempre o inquieta, muitos anos mais tarde que aquela sua visita a capital japonesa de 1985 em Tokyo-Ga

01/03/2024 03:50 Por Eron Duarte Fagundes
Outra Vez em Toquio, Entre os Banheiros e a Cultura

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Durante os anos 70, Wim Wenders formou o quarteto de ouro do cinema germânico, aquele mais estimado pelos críticos e pelo público mais empenhado, ao lado de Werner Herzog, Volker Schlöndorff e Rainer Werner Fassbinder. A partir da década de 80, com a guinada estética em modificação, Wenders tem experimentado um declínio crítico. A despeito de continuar fazendo um cinema único e forte. Com o lançamento de Dias perfeitos (Perfect days; 2023), desde Cannes, ao que parece, seu cinema volta aos favores dos analistas influentes, algo que se tinha esfarelado depois de Paris, Texas (1984) — ainda que seu mais revolucionário filme tenha sido realizado pouco depois, o muitas vezes incompreendido Asas do desejo (1987).

Em Dias perfeitos Wenders volta a Tóquio, que sempre o inquieta, muitos anos mais tarde que aquela sua visita à capital japonesa de 1985 em Tokyo-Ga quando saía no rastro da cidade oriental do pós-guerra cujos cenários foram a fonte do cinema de um dos mestres do alemão, o japonês Yasujiro Ozu. Como em Ozu, especialmente em sua obra máxima, Era uma vez em Tóquio (1953), Wenders simula, em Dias perfeitos, um documentário em alguns de seus aspectos, como nesta recusa de ultrapassar o desejo da imagem. É bem verdade que Wenders não é Ozu, nem japonês; uma simbologia teutônica o afeta subterraneamente. Ainda assim, em vários enquadramentos de Dias perfeitos, o realizador parece contentar-se com registrar as atividades de rotina de um faxineiro de banheiros em Tóquio, silencioso e ativo, a rotina como o encanto de ver nos filmes de Ozu. É documental, mas é também uma outra coisa, pararrealista.

Quando sabemos da gênese de Dias perfeitos compreendemos mais de perto estes paradoxos e estas fusões de natureza estética da realização. O projeto nasceu de um convite japonês para Wenders: observar e filmar o Tokyo Toilet Project, um redesenho de banheiros públicos da capital japonesa, em sua arquitetura, limpeza a manutenção. Wenders seria somente mais um dos elementos internacionais para ajudar nessa criação nipônica. Para o alemão, imaginava-se que seriam apenas registros documentais curtos. Criativo, Wenders propôs a seu roteirista Takuna Takanaki uma ficção que girasse em torno do universo dos banheiros públicos. Assim nasceu Hirayama, a personagem central, que passa o tempo das imagens de Dias perfeitos limpando diversos banheiros de Tóquio. Um faxineiro de banheiros da cidade virou personagem: sem perder as características de verdade da imagem de um homem de banheiros, mas alastrando-se, aproximando-se duma interioridade que foge em boa parte ao documental.

Sem muitas falas, de gestos claros mas sempre entre o secreto e o transparente, pouco a pouco a personagem de Hirayama faz descascar o que se esconde por trás de sua rotina de limpador de sanitários. Wenders mostra a personagem ouvindo músicas em seu veículo de deslocamento, ali desfrutamos com ele diversos sons, como Patti Smith e Van Morrison. E também damos com o apreço à literatura que Hirayama entremostra. Numa certa noite, no leito de dormir, um exemplar de William Faulkner surge no plano. Vemos a criatura entrar amiúde numa livraria. Numa cena, a atendente lhe diz que Patricia Highsmith sabe tudo de ansiedade. E num outro lance, também em livraria, ele compra um livro duma autora cujo primeiro nome é Aya, curiosamente o mesmo nome da garota cortejada pelo jovem colega de faxina da veterana personagem central do filme, uma criatura estranha a da garota, ela também, como Hirayama parece esconder algo mais que aquilo que aparenta, como se depreende numa sequência em que ela chora após algumas falas breves e elípticas diante do silencioso Hirayama, no veículo.

Wenders capta estas figuras e cenários orientais à sua maneira ocidental. Esforçando-se muito para os mimetizar. Mas o fato de ser uma produção nipônica lhe permite uma esquiva aproximação.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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