A Beleza do Mal

A narrativa de A Beleza das Coisas se da pela estrategia da primeira pessoa

10/01/2026 01:21 Por Eron Duarte Fagundes
A Beleza do Mal

tamanho da fonte | Diminuir Aumentar

 

O narrador toma a palavra de cara. “Estou aqui lutando com a escrita de um poema. Um poema longo, épico, triste. Fruto de minha obsessão dos últimos tempos, a relação entre o belo e o mal, entre a beleza das coisas e a maldade onipresente no mundo.” É a frase de abertura do romance A beleza das coisas (2025), mais um belo livro de André Caramuru Aubert. Como em Exílio (2024) e diferentemente de Estevão (2021), a narrativa de A beleza das coisas se dá pela estratégia da primeira pessoa, a personagem (e junto dela, o leitor) se aproxima mais dos centros de ação, a criatura parece sofrer mesmo os percalços narrativos e vitais que se vão sucedendo.

A construção dum poema pela personagem narradora, “A beleza das coisas”, forma os interstícios que vão determinando o próprio ritmo do romance A beleza das coisas. Há uma história intelectual-cultural que se cruza com a aparência duma história policial. O narrador, que além de escritor/poeta é editor, se aventura a publicar um livro-reportagem de um amigo que denunciava obscuros figurões. Publicado o livro, o autor é morto num forjado acidente de trânsito e o editor (que é quem narra a história) vai esconder-se num lugar remoto para tentar fugir aos perseguidores facínoras. No meio, surge a figura duma mulher, uma senhora casada que visita o editor a espaços, e eles são amantes. A mulher, cuja frequência no local de isolamento do editor é espaçada, lá pelas tantas desaparece. O narrador decide compor um poema paralelo dedicado ao amor dela que naquele momento lhe escapava. A estrutura policial é sutil: diferenciada. Nem de longe evoca os processos narrativos do belga Georges Simenon: parece somente um recheio para o que de fato vai interessar, literariamente.

A beleza das coisas é, como se disse, um belo romance, a categoria da linguagem encadeia-se com a acuidade do raciocínio. Uma questão estética: ou de estética literária. Embora o narrador aluda à beleza das coisas para a confrontar com o mal do mundo, como toda literatura que importa, ou ao menos desde uma certa parte do século XIX, olha mesmo para o mal. O mal do mundo. Talvez “as coisas” não sejam mesmo belas. Talvez o belo esteja somente na arte, que é uma outra “coisa”. “A mesma espécie, a mesma cultura, a mesma língua, o mesmo período, geraram Thomas Mann e Joseph Goebbels. Mesmo outra geografia, geraram Carlos Drummond de Andrade e o coronel Ustra. O mal absoluto e a beleza absoluta.” Não haveria surpresa no “mal absoluto”? Então como se dá a beleza absoluta?

A beleza das coisas é um romance-ensaio, como costumam ser as obras de ficção de André Caramuru Aubert. Talvez Poesia chinesa (2018) seja aquele livro em que ele levou mais longe este conceito, ou tipo de proposta narrativa; embora o extraordinário A cultura dos sambaquis (2013) utilize o ensaio na dinâmica mesmo da história que se conta, e de maneira cortante. Quase no fim de A beleza das coisas, em que o desânimo chega a invadir profundamente o íntimo da personagem deparamos: “Foi uma tarde em que o mal, ou o receio dele, triunfou espetacularmente sobre a beleza. E não tive nenhum ânimo para regressar às minhas traduções e muito menos aos meus poemas, nem o da beleza das coisas e nem o dedicado à minha namorada.” Este espírito de ver pode ser uma antevisão do desfecho que surge um pouco como a interrupção da construção da beleza, que é por onde começara A beleza das coisas, “estou aqui lutando com a escrita de um poema”. O mal, que pode ser a morte do autor, interrompe a beleza. Se há coisas urgentes a dizer hoje em dia, nem sempre o discurso (por mais belo e crucial que seja) chega ao fim.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

Linha
tamanho da fonte | Diminuir Aumentar
Linha

Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro ?Uma vida nos cinemas?, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

Linha

relacionados

Todas as máterias

Efetue seu login

O DVDMagazine mantém você conectado aos seus amigos e atualizado sobre tudo o que acontece com eles. Compartilhe, comente e convide seus amigos!

E-mail
Senha
Esqueceu sua senha?

Não é cadastrado?

Bem vindo ao DVDMagazine. Ao se cadastrar você pode compartilhar suas preferências, comentar ou convidar seus amigos para te "assistir". Cadastre-se já!

Nome Completo
Sexo
Data de Nascimento
E-mail
Senha
Confirme sua Senha
Aceito os Termos de Cadastro