Um livro importante chega ao Brasil: Lágrimas de Combate de Brigitte Bardot

Sua maior defesa volta a ser a luta insana e incansável pelos bichos, mas geralmente perdoamos a senhora de muletas e já sem a beleza de antigamente

24/07/2018 00:07 Por Rubens Ewald Filho
Um livro importante chega ao Brasil: Lágrimas de Combate de Brigitte Bardot

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Lágrimas de Combate (de Brigitte Bardot, Anne-Cécile Huprelle). Globo Livros 2018. Tradução de Andrea Manfrin. Copyright de Fondation Brigitte Bardot.

Pouca gente soube, mas mais há alguns anos atrás quando ainda estava no Telecine quando me convidaram - e aceitei - participar de uma “Declaração de Bem-Estar Animal”, para uma organização nova chamada WSPA-World Society for the Protection of Animals (Sociedade Mundial de Proteção Animal). Fiz parte de um grande pôster ao lado de pessoas famosas como Eliana, Luisa Mell, Evandro Mesquita, Bety Gofman, Thiago Fragoso, Cora Ronai, Luigi Baricelli, Georgia Wortmann - todos posando com seus bichos de estimação e eu exagerado logo com meus dois cachorros (infelizmente já falecidos) com o slogan PARA MIM OS ANIMAIS IMPORTAM. “Faça como Rubens Ewald Filho, participe da declaração Universal do Bem Estar Animal “ (da qual não tive mais notícia). Mas eu havia complementado por uma declaração minha onde dizia que a razão porque fazia parte da campanha era também pelo fato de que o cinema durante décadas e desde sua criação tratou mal e com frequência matou toda sorte de animais em troca do efeitos e truques, fossem cavalos, cachorros, quaisquer bichos. E o triste é que muitos foram mortos porque as regras de Hollywood chegaram muito atrasadas apenas por volta de vinte a trinta anos atrás. Só então começaram a ser seguidas...

Nessa altura, o tema das mortes dos animais já tinha uma líder e uma heroína que tem uma presença especial para o Brasil até hoje porque durante certo tempo morou com um namorado na praia de Búzios, a estrela Brigitte Bardot (onde até hoje tem uma escultura de cabelos soltos) que a tornou ainda celebre por aqui (Brigitte estava então no auge de sua carreira de atriz, nasceu em setembro de 1934, foi perseguida pela Imprensa, chegou a gravar canção em português - Maria Ninguém, aliás de forma adorável). Largou o cinema em 1973 e hoje tem plena consciência de que poucos se lembram dela como a estrela de Roger Vadim (seu primeiro marido e descobridor com o filme ainda lendário E Deus Criou a Mulher, 56). Sucesso mundial inclusive nos Estados Unidos e um dos raríssimos casos em que La Bardot foi imitada por mulheres em toda parte, inclusive no Brasil. Mas eventualmente abandonou tudo para se tornar defensora dos animais, em especial na França, sua terra, onde justamente as leis e regras são menos facilitadas porque é a Terra das caçadas (como com as raposas), onde ainda se come carne de cavalo, usam casacos de vison (e que tais), do foie gras, dos cachorros que são abandonados nas estradas e assim por diante. E também dos políticos falsos e mentirosos, que prometeram tudo para ela e não cumpriram (bom isso sucede em outros países que conhecemos também ou melhor!).

Em nenhum momento Brigitte é ou foi santa, mas há mais de trinta anos e tantos anos dedica toda sua vida de corpo e alma, para a redenção dos diversos bichos (a luta mais famosa foi justamente a das focas, o que acabou a levando justamente à Fondation). Este é sua terceira autobiografia e a mais bem escrita, mais sincera, mas nem por isso assume certas falhas de seu caráter, como o fato de estar casada há 25 anos com um político da extrema direita (o que na França é até comum mas também repulsivo ainda assim confessa que são companheiros mas nem por isso tão próximos assim) e não há muito tempo andou se manifestando contra o que chamou de abuso dos gays franceses (o que há mais chocante porque a vida toda ela foi adorada e paparicada por eles. No mínimo uma traição. Aqui ela não menciona o fato que mancha boa parte de sua lenda).

Brigitte aos quase 84 anos já não tem mais a mesma beleza, o sex-appeal (palavra antiga mas que diz muito). Poucas mulheres ou estrelas tiveram tal carga de sensualidade quanto a chamada B.B., também um caso único ou raro de usar apenas iniciais. M.M. (Marilyn Monroe) veio junto ou por causa dela ate porque Brigitte fez sucesso em todo o mundo e sempre foi admirada, infelizmente Marilyn custou muito a ser reconhecida! Enfim, hoje vive em recolhimento na sua casa antiga em Saint Tropez, a famosa La Mandrague, com seus animais e de onde sairá apenas morta (os bichos herdarão o lugar a que chama de modesto - e é de fato!). Devo confessar que junto com o meu amigo e fã dela, o diretor de cinema Djalma Limongi Batista, aproveitando folga em Cannes fizemos curiosos uma tour pela cidade ainda hoje ainda é a capital do verão francês e onde chegamos a visitar uma loja da irmã, mas não conseguimos encontrá-la. Não vimos também nenhum animal solto...

Recomendo alguns filmes de Brigitte que estão disponíveis para melhor entender essa figura carismática, boa atriz, sensual em filmes como O Desprezo de Godard, Viva Maria com Jeanne Moreau (a quem elogia muito), A Verdade de Clouzot, Amores Célebres, onde estrelou com Alain Delon, a quem confessa ser um grande amigo e uma pessoa querida, e até um faroeste chamado Shalako ao lado de Sean Connery. Há outro ponto negativo em sua vida que foi justamente o fato de ter se casado de forma apressada com um ator (no livro ela cita outros como grandes amores, no caso Sami Frey e Jean Louis Trintignant, sendo que este tentou se matar por ela). Mas o maridão foi o mais bonito Jacques Charrier. O problema foi que com ele ela teve um único filho a que mal e mal chegou a criar, passando para as mãos do pai. O escândalo é que Brigitte corre atrás de focas e bichos e rejeita logo seu único filho, o que veio a ser outro problema que só agora começa a se modificar. É o capitulo que se chama Mãe Indigna (!) e de que vou reproduzir um trecho pequeno: “como eu disse, quando trabalhava no cinema, eu fui chamada de puta, vagabunda, péssima atriz entre outras coisas.” Depois relembra como a agressividade e traições a desanimaram. E ficou traumatizada quando deu a luz a criança sozinha na sua casa e que “tudo foi emporcalhado e destruído”. Não havia sala de cirurgia e ficou tão traumatizada e que deixou de ser ela mesma (admite agora que foi o filho Nicholas quem ficou sofreu as consequências porque ela se defende afirmando que era muito jovem, inexperiente, ativa, conhecida e instável. Bom, acho a situação discutível, mas Brigitte anuncia um lado positivo, sendo que Nicholas finalmente voltou a falar com ela, mora na Noruega e a visita uma vez por ano e ainda falam ocasionalmente no telefone. Tem outro detalhe quando publicou outro livro dela, chegou a declarar “que preferia parir um cachorro, do que um filho!”.Hoje afirma : “meu filho é formidável, eu o amo de uma forma especial, e ele a mim... Fisicamente se aparece um pouco comigo e com Charrier. Não parece que seja rancoroso, apesar da mãe louca que fui para ele. Sofreu muito.Tem o temperamento forte, muito inteligente, seu próprio casulo, sua família”. Se tem alguma mãe que concorde com ela, eu não conheço.

Sua maior defesa volta a ser a luta insana e incansável pelos bichos, mas geralmente perdoamos a senhora de muletas e já sem a beleza de antigamente. E o fato é que conseguiu algumas vitórias na sua campanha bem intencionada e algumas mudanças de leis pela Europa e parte do mundo (mas sempre a França é a mais ranzinza e difícil de apoiar!). Será que você é capaz de perdoar essa mulher confusa e sincera, cheia de contradições, mas que ao mesmo tempo salvou muitos animais e procurou ensinar para o mundo o amor e importância dos bichos? Uma coisa temos que admitir: a Bardot é corajosa, atrevida, me parece sincera. Errou, procurou diversos caminhos e certamente não é um modelo para a criação de filho! Mas o que fez e ainda continua fazendo pela preservação dos animais merece a admiração!

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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