A Forca do Trabalho Num Filme Hoje de Epoca
Revisto tantas decadas depois, Bra?os Cruzados, Maquinas Paradas se parece com um filme de epoca que poderia ter sido feito ontem com o material antigo
Um dos filmes que marcaram a cinefilia paralela de Porto Alegre no começo da década de 80 foi o documentário de luta política e operária Braços cruzados, máquinas paradas (1979), de Sérgio Toledo Segall e Roberto Gervitz. Visto na época como uma reportagem audiovisual feita no calor da hora em que se davam as greves de trabalhadores e as transformações sindicais, trabalhadores e sindicatos, sufocados e abafados pelo golpe militar de 1964, começavam a jogar sua cabeça para fora a partir dos metalúrgicos paulistas. O aparecimento das greves operárias tendo como nascente as fábricas de São Paulo é um fato historicamente relevante quando se pensa nos dias de abertura política que os militares da agonia do regime projetavam como “lentos e graduais”. As greves da mais industrializada cidade do país atropelaram as cercas ainda impostas pelo último ditador. Braços cruzados, máquinas paradas capta cinematograficamente estes instantes: é a história do cinema brasileiro se confundindo com a própria história (política e social) brasileira. Há uma força antropológica em cada imagem que acompanha a batalha dos metalúrgicos da época por melhores salários, por uma divisão de lucros mais justa entre capital e trabalho.
Revisto tantas décadas depois, Braços cruzados, máquinas paradas se parece com um filme de época que poderia ter sido feito ontem com o material antigo. Há uma cena em que a câmara fica fixa diante de várias trabalhadoras que se queixam, vorazmente, das condições das mulheres que trabalham nas fábricas. Como tantas outras do filme, esta sequência mantém a tensão estética original que encantou os espectadores nos tempos de suas primeiras exibições por aqui, em Porto Alegre, às expensas do Ponto de Cinema, nos fundos dum teatro na Rua da República. Há coisas bastante datadas mas que historicamente funcionam na reflexão proposta pelos realizadores: as primeiras imagens do documentário mostram Getúlio Vargas e os trabalhadores, tratando da ambiguidade de Vargas, que criou condições mais humanas de trabalho mas ao mesmo tempo, espelhado no fascismo italiano, usou de estrutura sindical que amordaçava o trabalhador e depois, durante a ditadura militar de 64, foi bem usada para manter a rédea curta nas relações trabalhistas. O retrato do dirigente sindical Joaquim dos Santos Andrade (o Joaquinzão), em seus estereótipos e maniqueísmos às vezes incômodos, tem esta função: ligar o lado autoritário de Vargas às condições de trabalho que determinavam as relações nas fábricas naquele fim dos anos 70.
Pouco depois de Braços cruzados, máquinas paradas, Renato Tapajós fez outro documentário de greves operárias, Linha de montagem (1982), que entre nós circulou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde então eu estudava, numa exibição clandestina na Faculdade de Economia. Neste filme de Tapajós já aparecia Lula como o ápice dos líderes operários de então. Braços cruzados, máquinas paradas, com a câmara áspera e tensa de Aloysio Raulino, é o embrião de toda esta leva de impulso na direção do momento histórico. Outro dado fundamental para as instalações fílmicas de Toledo e Gervitz é a voz-over de narração de Othon Bastos, persona característica do cinema brasileiro desde os anos 60, desde Glauber Rocha.
(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)
Sobre o Colunista:
Eron Duarte Fagundes
Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro Uma vida nos cinemas, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br
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