MOSTRA DE CINEMA DE SP SEGUE EM SUA SEGUNDA SEMANA
Confira as dicas de Filmes de diversos paises com novidades e surpresas
Iniciada no dia 15/10, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nesta edição de 50 anos, segue com dezenas de filmes diários. É um dos festivais mais importantes do país, que ocorre em mais de 50 cinemas e espaços culturais da capital paulista, além de exibições de filmes no streaming (nos três streamings parceiros da Mostra, Spcine Play, Sesc Digital e Itaú Cultural Play). Serão 390 títulos de 93 países, como longas, médias e curtas-metragens, exibidos até o dia 29/10.
A Mostra de 2026 conta com o patrocínio master da Petrobrás, o patrocínio do Itaú, a parceria institucional do Sesc, a parceria da SPCine e da Prefeitura de São Paulo, o fomento do ProAC – Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas, a colaboração da Embratur e da Netflix, o apoio do Projeto Paradiso, a promoção da Globofilmes, do Canal Brasil, Folha de S.Paulo, da TV Cultura, da Arte 1, do Instituto Bandeirantes e da Revista Piauí, além do apoio técnico da Quanta e do Cultura Artística. Realização: Ministério da Cultura, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Site oficial da Mostra: https://mostra.org/ (além de redes sociais, como Facebook e Instagram).
Confira abaixo filmes já assistidos e que indico:
Fiz um foguete imaginando que você vinha
(Brasil - 2026, de Janaína Marques)
Apresentado na seção Forum da Berlinale 2026 e indicado lá ao Teddy Bear, o filme brasileiro não apenas conta uma história de reencontro de mãe com filha, mas reconfigura a própria ideia de memória. A estreia da cineasta Janaína Marques, até então curtametragista, reflete o mundo íntimo de uma forte protagonista, Rosa (Verônica Cavalcanti), que sai em uma viagem de carro pelo interior do sertão revisitando a infância. Em um carro velho, ela leva junto a mãe, Dalva (Luciana Souza), que percorrem centenas de quilômetros entre risadas e lembranças. O tempo parece voar naqueles dias descritos por Rosa como “quase os mais felizes de sua vida”. Dado momento sabemos que as duas não se viam há muito tempo, e que Dalva foi presa acusada de matar o marido de uma vizinha, quando Rosa era pequena, trauma que a filha carrega até hoje. As duas seguem para a cidade da melhor amiga da mãe, Consuelo, numa viagem que será um divisor de águas na relação daquelas duas mulheres. O filme segue uma linearidade comum em filmes desse tipo, até que na metade há uma ruptura: a realidade se distancia, dando espaço para a imaginação/ficção. Memórias de Rosa ecoam vivas, como se fossem atuais, enquanto busca se reconectar com a mãe por meio de toques e olhares. O filme é um percurso também pelo subconsciente da protagonista, vasculhando traços da infância de Rosa. Cada cenário parece existir num limiar entre o concreto e o simbólico, o presente e o passado, como se o mundo externo fosse moldado pela instabilidade das lembranças de Rosa. Uma viagem que se desdobra em ciclos, onde há espaço para discutir violência doméstica, inseguranças e julgamentos transmitidos de geração para geração. A fotografia é belamente construída destacando as figuras femininas no quadro – elas cruzam por territórios distintos, de paredões de pedras a dunas que cintilam, fazem paradas em motéis à beira de estrada e se comunicam com novos indivíduos que aparecem, como uma motorista de caminhão e um rapaz apelidado de “profeta das chuvas”. As atrizes completam uma à outra em performance digna de aplausos – enquanto Veronica é mais contida como a filha em fase de restabelecimento emocional, Luciana traz leveza e alto astral, alternado a momentos de drama. A música “Sangue latino” (cantada por Ney Matogrosso) surge em várias passagens, adaptada na voz da mãe, em passagens de ternura e reaproximação. O filme integra a Mostra Brasil da 50ª Mostra, com exibição no dia 27/10.
Dao
(França/Senegal/Guiné-Bissau - 2026, de Alain Gomis)
“Dao” abre com uma definição que funciona como um manifesto: “Um movimento perpétuo e circular que flui em tudo e une o mundo”. A partir desse discurso, o filme mergulha numa narrativa que oscila entre o íntimo e o performático, entre o que é vivido e o que é encenado. Gloria (Katy Correa), de 50 anos, é a protagonista, uma mulher africana que preserva na França suas tradições. Ela se prepara para o casamento da filha em Paris, mas a Cidade Luz se mostra como um dos polos desse movimento circular. O outro está em Guiné‑Bissau, onde anos atrás enterrou o pai, numa cerimônia marcada por dança e lembrança dos antepassados. O filme se transpõe entre as duas nações, rompendo as fronteiras entre documentário e ficção ao nos levar para um casting da produção de um filme; “Dao” é construído em duas partes, uma de um filme ficcional e a segunda, de uma espécie de documentário que registra a preparação daquele filme que será encenado. A voz fora de cena, quase onipresente, anuncia que o primeiro passo é formar esta família que surgirá na tela. Atores e não atores são convocados para serem os membros daquele clã familiar - não apenas no papel, mas na construção de uma comunidade temporária que atravessará continentes, rituais e lutos. É como se a obra cinematográfica nos lembrasse que toda família, real ou inventada, é sempre uma ficção partilhada. À medida que viajamos entre Paris e Guiné‑Bissau, as histórias individuais se entrelaçam com heranças comuns. Amor, risos, rituais, dor e memória surgem como fios condutores que costuram um tecido híbrido, onde fatos e imaginação se confundem. O movimento circular anunciado no início reaparece constantemente, não como metáfora abstrata, mas como forma de olhar: tudo retorna, tudo se dobra sobre si mesmo, tudo ecoa. É um filme sobre complexas relações humanas, feito de uma autoralidade que há tempos não via tão bem formatada na tela. Ele não apresenta divisão em capítulos, tudo é encaixado de forma discreta, com cortes que fazem o longa transitar entre a ficção e o documentário. As tradições ritualísticas da cultura de Guiné Bissau, evocadas pelo canto e a dança, seja para o luto ou para a comemoração do casamento, trazem ritmo e brilho para a composição estética desse riquíssimo filme que é o terceiro trabalho do diretor Alain Gomis indicado ao Urso de Ouro, seguido de “Aujourd'hui” (2012) e “Felicidade” (2017). Esteve na competição oficial da Berlinale, cotado para vencer o Urso de Ouro (o que não ocorreu). O filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25 e 28/10.
Yellow Cake
(Brasil – 2026, de Tiago Melo)
Depois do excelente, mas bem inusitado “Azougue Nazaré” (2018), o cineasta pernambucano Tiago Melo volta a desafiar as convenções em mais uma obra autoral, “Yellow Cake”, que teve première no festival Olhar de Cinema depois de ser exibido no Festival de Rotterdam em janeiro deste ano. Não espere um filme fácil ou tão compreensível – o assisti na abertura do festival Olhar de Cinema, no Ópera de Arame, numa sessão com 1600 pessoas, e senti ali um misto de surpresa, dúvidas e aplausos. Misturando idioma português e inglês, com atores brasileiros e americanos (com momentos que conectam com “Bacurau”), é um filme simbólico sobre exploração do território (como um “neo-neocolonialismo” tecnológico, pelos norte-americanos) e os limites da sobrevivência em um mundo marcado por tensões ambientais. Na trama, um grupo de estrangeiros no sertão da Paraíba, na cidade de Picuí, buscam uma alternativa para acabar o mosquito aedes aegypti (transmissor da dengue). Ali é uma região rica de urânio, material radioativo capaz de eliminar a doença. O experimento se chama “Yellow Cake”, encabeçado por uma cientista brasileira (Rejane Faria) em conjunto com os americanos. Só que a situação foge totalmente de controle, desencadeando disputas políticas, econômicas e territoriais naquele fim de mundo. O filme tem uma trama muito particular para os tempos exaustivos que vivemos (de ameaças recorrentes de Trump de explorar minerais raros no Brasil), dialogando com a pressão social e como as comunidades periféricas lidam com as ameaças de invasão (personagens secundários entrarão nesse conflito, no caso os papéis de Tania Maria e Valmir do Côco). Tudo é árido e opressivo, com um toque menor de um humor mais direto (exatamente nas falas e ações de Tania Maria e Valmir do Côco). Parece ser futuro, mas um futuro sem distopia ou mudanças radicais de cenário – o que deixa o filme também ambíguo. O desfecho atinge a linha do brutal, quase um cinema raiz B de scifi setentista (o que gostei muito). O filme integra a Mostra Brasil da 50ª Mostra, com exibição no dia 27/10.
Armageddon time
(EUA - 2022, de James Gray)
Indicado à Palma de Ouro em Cannes, o drama, coprodução EUA/Brasil, foi exibido na 46ª Mostra Internacional de Cinema de SP e agora retorna ao festival na Retrospectiva James Gray (em homenagem ao cineasta que está no evento e assina o pôster deste ano). Tem um elenco em bom momento (Anne Hathaway, Anthony Hopkins, Jeremy Strong, rápida participação de Jessica Chastain e o melhor de todos, o protagonista mirim, Banks Repeta, indicado ao Critics Choice pelo papel), e fala sobre a rotina de altos e baixos de um garoto de classe média às vésperas da eleição de 1981, que elegeu Ronald Reagan. Envolve-se em problemas na escola, é cobrado pelos pais a ter bom comportamento, e tem no avô uma inspiração. Até que um crime banal o coloca frente a frente com policiais. Nas entrelinhas, o drama explora o fim do “sonho americano”, critica o capitalismo à modo Reagan, traz as mudanças de comportamento com o fim dos anos 70 e tem um momento curioso que mostra a família Trump (no caso o pai e a irmã do ex-presidente Donald Trump). O filme tem traços autobiográficos, da infância e parte da adolescência do diretor James Gray (é dele o roteiro, bem autoral vale destacar, e o diretor já realizou obras de destaque que estarão na retrospectiva, como “Fuga para Odessa” e “Os donos da noite”, além da premiére de seu novo trabalho, que abriu ontem a Mostra, “Tigre de papel”). As sessões do filme na Retrospectiva James Gray serão no dia 24/10.
Deixem-nos passar, caros ancestrais
(Filipinas - 2026, de Lav Diaz)
Todo novo filme do cineasta filipino Lav Diaz entra na programação da Mostra de SP, e foi aqui que conheci o cinema desse diretor. Diaz realiza filmes marcados pela extrema duração (que variam entre três e cinco horas), recorrente fotografia em preto e branco, gravação em locações (quase sempre em florestas), longos planos estáticos e também é o roteirista das obras, de forte discussão da História política e social das Filipinas. Um dos principais expoentes do slow cinema, Diaz é o maior nome do cinema de seu país, cujos filmes marcam presença em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. “Deixem-nos passar, caros ancestrais” é outra obra orgânica autoral dentro de sua filmografia típica, que parece derivar das anteriores e volta a tratar das origens do seu povo e da relação deles com a natureza - mas aqui puxando outro tema, a colonização. A história se passa no início do século XVII nas Ilhas Filipinas. Um padre espanhol leva o catolicismo para dentro das florestas, onde habitam os indígenas. Ele tem boa relação com aquela comunidade, mas é evidentemente uma figura que veio para colonizar, implantar a cultura branca e a religião aos futuros convertidos. Porém os indígenas resistem com seus ritos próprios, sua devoção e hábitos. O drama se passa integralmente nas florestas nuas sob o som de cigarras, tratando do contraste entre civilização e dominação (a Espanha invadiu as Filipinas e por três séculos manteve os domínios daquelas terras). Vencedor de um prêmio especial no Festival de Veneza, o filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 25/10 e 01/11.
Atlas mágico
(Singapura - 2026, de Sun Xun)
Animação surrealista de Singapura que demorou 10 anos para ser produzida (de 2016 a 2026). No meio desse período veio a pandemia da covid, e o diretor (Sun Xun) optou em alterar o roteiro trazendo uma perspectiva mais densa e de visão assustadora de futuro, de confinamento e controle em uma sociedade tomada pelo autoritarismo. O isolamento social pela pandemia proporcionou a ele reunir ilustradores do mundo inteiro a fim de terminar o projeto. “Atlas mágico” fala de uma sociedade controlada, durante o chamado “Império de Luosha” (fictício, apenas criado no roteiro). Um mágico recém-chegado a uma região longínqua daquele império é preso pelo temido imperador, cujo governo é especializado em apagamento histórico (desde documentos a mapas, tornando as pessoas escravizadas, sem memória). Até que ele se encontra com um garoto perdido na multidão, que o faz viajar pelo tempo e espaço. É uma animação que mistura nanquim com ilustrações modernas pintadas a mão, numa história que vai mudando conforme as entradas dos personagens em uma espécie de multiverso dentro de um atlas mágico, onde há ditadores cruéis, animais que assumem formas humanas, criaturas bizarras, uma criança como símbolo de esperança e uma peste que dizima as pessoas (em referência ao coronavírus). Parece um sonho dentro de outro sonho, em um ambiente distópico e caótico. Animação adulta, com muitos diálogos e forte comentário social. Exibido no Festival de Locarno, onde concorreu ao Leopardo de Ouro, o filme integra a Competição Novos Diretores da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 26/10.
A ginasta
(EUA – 2026, de Charlotte Glynn)
Drama independente norte-americano, o filme é um pequeno retrato sobre a relação de pai e filha em uma cidade industrial do interior dos EUA no início dos anos 90. Monica é uma jovem ginasta, focada nos treinos para participar em breve de uma competição nacional. Certo dia fere o joelho num ensaio. Impossibilitada de continuar treinando, e muito aflita com o futuro, ela passa por sessões de fisioterapia e fica sob os cuidados do pai, um homem instável e mulherengo. Monica tem o apoio da treinadora, única pessoa com quem consegue se abrir (ela, para complicar, sofre bullying na escola). Dia a dia tenta lidar com o pai, que via na filha uma esperança de dias melhores inclusive de ajuda financeira em casa. Filme típico da Mostra, um trabalho pouco conhecido, que traz sinceridade nas atuações do trio central, composto pelos atores Ethan Embry (de “Comportamento suspeito”), Britney Wheeler e Margarita Levieva. Feito por uma diretora, Charlotte Glynn, que busca a potência do elenco em seus enquadramentos com closes e planos americanos, além do uso de uma fotografia correta. Exibido no Festival de Roterdã, está na Competição Novos Diretores da Mostra, com exibição nos dias 24 e 26/10.
Diário de uma camareira
(Romênia/França - 2026, de Radu Jude)
Mais um filme irreverente do diretor romeno Radu Jude, já ganhador do Urso de Ouro (pelo filme exibido na Mostra de 2021 “Má sorte no sexo ou Pornô Acidental”). Ele é um cineasta mega autoral, que costuma pintar uma Romênia contraditória, cercada pela hipocrisia, moralismo e a exploração do trabalho. Suas obras estão sempre na Mostra de SP, e desta vez, com “Diário de uma camareira”, ele revisita o clássico livro do francês Octave Mirbeau (lançado em 1900), que na década de 60 já havia virado filme pelas mãos de Buñuel. Bem diferente da versão do cineasta espanhol-mexicano, o filme já informa nos créditos iniciais que é uma “variação” do livro, em que atualiza a história para os dias atuais. Reunindo elenco francês (como os conhecidos Mélanie Thierry e Vincent Macaigne), a obra feita em duas línguas (francês e romeno) acompanha dois meses na vida de uma jovem camareira, Gianina (Ana Dumitrascu), entre início de outubro até o dia de Natal. É um pouco do dia a dia da garota, entre os cuidados de um menino de classe média e a relação com a família dele, os Donnadieu. Sua rotina é marcada pelas mesmas atividades (cozinhar, cuidar do menino); longe da filha, conversa com ela por vídeos no celular. Gianina quer ser atriz, e nas horas vagas passa a ensaiar uma peça política/erótica. Radu Jude utiliza de cortes secos e brutos, até interrompendo diálogos, para novamente ironizar falsos moralismos e criticar a sociedade e seus excessos. O humor está nos detalhes das conversas e em algumas cenas nonsense – as sequências das três peças de teatro que Gianina atua, por exemplo, podem não ser reais e sim imaginações da personagem. Gostei do filme, que serve para quem costuma apreciar o cinema desse diretor de linguagem própria. O filme integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 24 e 26/10 e 01/11.
A terra de meu pai
(Polônia/Alemanha/Itália/França - 2026, de PaweÅ‚ Pawlikowski)
Um dos filmes mais aguardados da Mostra desse ano, o drama de época inspirado em fatos verídicos é o novo trabalho do diretor polonês PaweÅ‚ Pawlikowski, que volta a discutir temas de guerra (como o nazismo e os desdobramentos da Segunda Guerra Mundial), depois de “Ida” e “Guerra fria”. Aqui ele trata da relação da atriz e tradutora Erika Mann com o pai, o renomado escritor Nobel de Literatura duas vezes Thomas Mann (1875-1955), em sua viagem de volta, por um breve período, à Alemanha, com o fim da Segunda Guerra. O retorno à Alemanha com a filha (o que nunca ocorreu com ela, pelos relatos, mas sim em companhia da esposa) será de um vazio gritante, em um país dividido, quebrado e destruído. O ano é 1949, e Mann vai para lá no bicentenário de Goethe, seu “mentor” literário, para receber dois prêmios, um em Frankfurt e outro em Weimar, cidades respectivamente onde nasceu e morreu Goethe. Mann é uma persona non grata para boa parte dos intelectuais, acusado de traidor da pátria devido ao seu posicionamento político contra o regime nazista e à recusa em retornar à Alemanha após a queda de Adolf Hitler, Mann A acusação partiu majoritariamente de intelectuais e cidadãos alemães que haviam permanecido no país durante a ditadura nazista, vendo Mann deixar o país para ir aos EUA no nazismo. Mann está velho e enfrenta problemas com o filho, Klaus, um viciado em drogas (apesar de escritor e jornalista de mão cheia). Drama político, o filme traz muito sarcasmo e ironias, além de planos grandiosos com imagens marcantes (como a do funeral do filho e o gran finale numa catedral ao som da música clássica “Jesus bleibet meine Freude”, do alemão Bach). A fotografia em PB, típica do cineasta, é um trabalho de mestre, que gera todo os contrastes existenciais que o filme discute, sobre vida e morte, alento e desalento. Sandra Hüller como Erika e o veterano Hanns Zischler como Thomas estão formidáveis na construção dos personagens (e tem também uma participação mínima, de menos de cinco minutos, de August Diehl, como Klaus). Vencedor do prêmio de melhor direção em Cannes, é um forte candidato ao Oscar do próximo ano (nas categorias de fotografia, direção de arte, roteiro, filme estrangeiro e edição). O filme, distribuído no Brasil pela Imovision em parceria com a Mubi, integra a Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 24/10, e estreia nos cinemas em 29/10.
Squel - Confissões de uma porta-bandeira
(Brasil - 2026, de Celina Torrealba e Zeca Brito)
Neste documentário assinado por Celina Torrealba e Zeca Brito, conhecemos a carreira de Squel Jorgea Ferreira, carioca nascida no Estácio que se tornou uma das mais respeitadas porta-bandeiras do Carnaval do Rio. O filme traça memória e atualidade, resgatando a ligação de Squel com o Carnaval, que vem de berço, e de desafios com a idade. Neta do compositor Xangô da Mangueira e filha de dançarina que desfilava na Estação Primeira de Mangueira, ela, no doc, relembra trechos marcantes da trajetória, do trabalho exaustivo e focado, e da ausência por um período nos desfiles devido à maternidade. Entusiasta do samba, Squel carrega no sangue a paixão pelo pavilhão, reconhecida pela postura elegante, técnica apurada e forte presença de cena, que conquistou as principais agremiações do Rio de Janeiro – ela defendeu na Sapucaí escolas de samba como a Mangueira, o Salgueiro e a Império da Tijuca, por exemplo. Squel se consolidou como uma referência cultural e feminina na preservação da arte dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, que inspira até hoje novas gerações de passistas por todo o Brasil. O filme tem produção da Donna Features, com coprodução da Anti Filmes. Além do roteiro, Celina e Brito dividem créditos de produção e fotografia – num trabalho conjunto afinado, de ótima edição, com cortes exatos de cenas de Squel de antes e de hoje (que completou recentemente 44 anos de idade). Integra a programação da Mostra Brasil na 50ª Mostra e conta com sessões no dia 26/10. O filme tem previsão de lançamento nos cinemas brasileiros para 2027.
Homem ao mar
(México – 2026, de Gael García Bernal)
Poucos sabem, mas o ator mexicano Gael García Bernal também é diretor (além de produtor e roteirista), tendo no currículo 11 filmes dirigidos, entre curtas e longas. O novo trabalho dele, “Homem ao mar”, traz Bernal em múltiplas funções: diretor, roteirista, produtor e ator, interpretando o papel central dessa comédia dramática metalinguística eu trata o mundo dos bastidores do mundo do cinema. Ele é Camilo, um industrial, pai de um bebê, que mora com a esposa, Juana, que é atleta, numa casa antiga de pedra próxima ao mar. Ele é aficionado por uma novela brasileira "A liberdade", sobre um sindicalista preso na Ditadura (que descobrimos depois ser o presidente Lula). Camilo nasceu em Cuba, mas agora mora no México, enfrentando uma crise conjugal. Juana recebe um dinheiro do pai para financiar um filme sobre sua vida, ela será a diretora e roteirista, e contará com a mínima participação do marido na produção. Surgem na casa de pedra do casal duas novas personagens, uma jornalista e uma atriz que interpretará a atleta. O conflito do casal escala quando a mulher convida para o filme um ator bonitão (papel especial do cantor Ricky Martin), que será Camilo, um homem de comportamento estranho, cujo papel não tem semelhanças com a figura original. E os problemas só aumentam quando tanto a residência quanto a fábrica do marido se torna locações para as gravações. É um filme de muitos personagens, de história dentro de outra, que demonstra a vitalidade na direção de Bernal e a habilidade com ideias ousadas e originais (o ator, que sempre foi politizado, insere a história de Lula no filme como uma maneira de identificar os dois personagens). Reparem na trilha sonora brasileira, com Vinicius de Morais, Toquinho e Secos & Molhados. Exibido no Festival de Veneza, está na seção Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 27, 28 e 29/10.
Uma família
(Holanda/Bélgica – 2026, de Mees Peijnenburg)
Um dos melhores filmes da Mostra deste ano, a coprodução Holanda/Bélgica retrata pelo ponto de vista de dois adolescentes a separação dos pais. São dois capítulos de 40 minutos cada: o primeiro traz a perspectiva de Nina (Celeste Holsheimer), uma garota que faz dança e está se descobrindo sexualmente (ficando com uma menina). Enfrenta crises nervosas, não se dá com a mãe e vê nos amigos de escola o apoio necessário para essa fase da vida. Os pais (interpretados pelo belga Pieter Embrechts e pela conhecida atriz holandesa Carice van Houten) se separaram, brigam pela disputa da casa e as intermináveis discussões respingam tanto em Nina quanto em Eli, seu irmão menor. O segundo capítulo é sobre Eli (Finn Vogels), como ele reage ao divórcio e o vai pra lá e pra cá como um boneco dos pais. Ele pratica natação, e passa o tempo pensativo, vez ou outra se distraindo com os amigos de escola. O filme apresenta situações iguais, mas captadas de ângulos diferentes por cada personagem em seu determinado capítulo. O diretor Mees Peijnenburg sabe trabalhar os olhares e gestos dos adolescentes diante da crise dos pais, captando o medo e aflição de Nina e Eli, mesmo nas cenas de silêncio profundo. Um bom filme, que nos mexe, emociona e termina de forma brilhante, de arrancar lágrimas (os dois jovens atuam muito bem, com destaque para o menino, Finn Vogels). Recebeu menção especial na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano. Está na competição Novos Diretores da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 24/10.
Full Phil
(França/Bélgica/Luxemburgo – 2026, de Quentin Dupieux)
Apreciadores do cinema nonsense/surrealista já conhecem Quentin Dupieux, que tem um estilo próprio com o “humor absurdo e morto” (chamado de “Deadpan”). Também produtor musical e compositor, conhecido na música como Mr. Oizo, Dupieux costuma reunir dramas com comédia e cenas escatológicas e sangrenta em seus filmes, como em “Full Phil” (o desfecho explicará o título do filme). É o primeiro filme dele com elenco americano e falado em inglês – a maioria de seus filmes são franceses, já trabalhou com os principais nomes de lá, como Jean Dujardin, Gilles Lellouche, Vincent Lacoste, Anaïs Demoustier, Léa Seydoux, Vincent Lindon e Louis Garrel. É um mestre nessa linguagem debochada e caricatural, agora fazendo um comentário crítico ao consumismo. Philip (Woody Harrelson), um industrial norte-americano, leva sua filha, Madeleine (Kristen Stewart) para uma viagem à Paris. Hospedam-se em um hotel de luxo e tentam uma reconexão após longo período de afastamento. Madeleine passa as horas comendo bolos e tortas, assistindo no notebook um filme scifi B, de um monstro que come cabeças humanas (no filme PB, há participação da atriz Emma Mackey). A chegada de Lucie (Charlotte Le Bon), uma funcionária do hotel, ao quarto ameaçará a aparente tranquilidade de pai e filha. Prepare-se por situações absurdas, grotescas, virando pastelão e gore, como é de se esperar no cinema de autor de Dupieux (quem viu dele “Rubber - O pneu assassino” e “Deerskin” sabe do que falo). É uma brincadeira a dois, com direito a um trabalho solto e à vontade de Woody Harrelson e Kristen Stewart. É o quarto filme de Dupieux na Mostra ao longo dos anos. Exibido no Festival de Cannes, está na seção Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 22 e 27/10.
O samurai e o prisioneiro
(Japão – 2026, de Kiyoshi Kurosawa)
Kiyoshi Kurosawa é outro diretor frequente na Mostra de SP. Cineasta japonês premiado (ele não tem parentesco com Akira), ele realiza obras originais de terror misturado com scifi e dramas históricos, como é o caso deste “O samurai e o prisioneiro”, uma adaptação do romance “Kokurojo (The Samurai and the Prisoner)”, de Honobu Yonezawa, de 2020. A trama se passa no Japão Feudal, em uma região longínqua de domínio de um tirânico imperador, Nobunaga Oda. Um dia, lorde Murashige Araki se rebela contra ele e se encastela nas muralhas de sua casa, ao lado de samurais e familiares. O exército de Oda segue com tudo para destruir Araki, então ele faz um pacto com um prisioneiro de guerra, Kanbei Kuroda, considerado traidor, trancafiado no porão do castelo. Paralelo a isto, crimes misteriosos ocorrem debaixo do nariz de Araki, o que acende o alerta de um inimigo infiltrado na própria casa. É um filmão épico, com todos os elementos do cinema samurai do Japão Feudal, como disputa de território e poder, estratégias de guerra, jogos psicológicos e alianças improváveis para derrotar o inimigo. Preste atenção, pois são inúmeros diálogos, personagens com diversas camadas e subtramas envolventes. Exibido nos festivais de Cannes e Sydney, o filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25, 26 e 28/10.
Trilogia “A Batalha do Chile”
(Cuba/Chile/França – 1975 a 1979, de Patricio Guzmán)
Está na seção Filmes Restaurados da 50ª Mostra a trilogia “A Batalha do Chile”, documentário político monumental de Patricio Guzmán (o cineasta chileno viria para a Mostra, mas faleceu há menos de um mês, aos 85 anos). Além da Trilogia, a Mostra exibe outro documentário dele, “O primeiro ano” (1972), sobre o mesmo assunto (os anos do governo Allende e a derrocada institucional com o brutal Golpe Militar). Os filmes todos estão em excelente cópia restaurada, com distribuição pela Mubi, que também acaba de inserir a Trilogia em seu catálogo, já disponível no streaming. “A Batalha do Chile” é um registro histórico do final do governo de Salvador Allende até o Golpe Militar e seus desdobramentos na sociedade em 1973. É composta pelos capítulos “A Insurreição da Burguesia” (1975), “O Golpe de Estado” (1976) e “O Poder Popular” (1979), três produções feitas entre Cuba, Chile e França. São documentários em preto-e-branco reunindo gravações de jornalistas e do próprio Guzmán, que lutou contra a ditadura chilena por meio de seu cinema de contestação – ele chegou a ser preso após a morte de Allende, em 1973, e depois partiu para o exílio, para a França e depois Cuba, onde editou a trilogia. Os filmes estão com imagens recuperadas com ampla nitidez, juntos são um cinema documental aterrador dos bastidores da política turbulenta do Chile entre os anos de 1972 e 1975, focando na polarização dos dois grupos rivais à época – a Unidade Popular (UP), de esquerda, contra os grupos de centro, formado pelo Partido Democrata Cristão (PDC), aliado à direita, o Partido Nacional (PN), e na queda do governo democrático pelos militares, liderados por Augusto Pinochet. Na parte 1, “A Insurreição da Burguesia” (1975), acompanhamos a forte oposição ao governo da Unidade Popular (UP), incluindo greves patronais, boicotes econômicos, a agitação da classe média e a articulação de setores conservadores com apoio financeiro externo (como dos Estados Unidos); na parte 2, “O Golpe Militar” (1976), o enfoque são os dias decisivos de setembro de 1973, registrando a derrocada institucional, a movimentação das forças armadas e o bombardeio ao palácio presidencial de La Moneda, que culminou com a morte de Allende, e a consequente tomada do poder pelos militares. E por fim, na parte 3, “O Poder Popular” (1979), como a sociedade civil reagiu aos anos da ditadura, como se organizou para sobreviver em meio a reformas neoliberais profundas, forte repressão política e a desigualdade (aqui vemos centenas de grupos de poder popular resistindo e ajudando na distribuição de comida para os mais necessitados). Os filmes, exibidos em festivais como Cannes e Nova York, serão exibidos em dias diferentes e alguns em sequência, entre 22 e 28/10 (confira no site da Mostra as datas, horários e locais). Vale conferir.
O dia em que ela volta
(Coreia do Sul – 2026, de Hong Sang-soo)
11º filme do cineasta sul-coreano Hong Sang-soo exibido na Mostra Internacional de Cinema de SP (desde 2011) e o nono que eu assisto aqui. Na edição deste ano tem ainda outro dele na programação, também produzido em 2026, “Onde repousar meus olhos” (vencedor dos prêmios de melhor direção, melhor atuação - para Kim Min-hee, e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Locarno). “O dia em que ela volta” é mais um olhar da vida cotidiana na Coreia, e mais um filme do que está por trás do fazer cinema: são seis capítulos curtos em torno de um dia na vida de uma atriz renomada (Song Seon-mi) que retorna à carreira após afastamento (segundo ela, por motivos de maternidade e vício em bebida). Animada, ela se senta em um bar alemão para dar entrevistas sobre sua carreira - os três capítulos iniciais são da atriz em três entrevistas distintas. Ali ela trata do passado e do presente, e fala muito sobre particularidades suas. Os capítulos finais são do retorno dela para casa e do reencontro com a filha. Quem conhece Sang-soo verá ali seu cinema por completo: enquadramento fixo por longo tempo, fotografia em um lúcido preto-e-branco, longos planos com diálogos, poucos cortes e poucos cenários/tomadas. Tem ali suas metalinguagens e seus desafios estéticos, numa história leve, com bom humor. Exibido nos Festivais de Berlim e Moscou, o filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23, 26 e 27/10.
Aqui não é o seu lugar
(Romênia – 2026, de Florin Serban)
O cotidiano de um cirurgião viúvo, chefe do principal hospital de uma cidade romena, é abalado quando o filho adolescente aparece com um machucado na perna e logo em seguida a polícia o investiga por um crime bárbaro (o assassinato de um homem com um objeto contundente na cabeça). A única coisa que o espectador vê, de repente, é um corpo jogado após um ataque noturno de uma gangue de rapazes mascarados que vandalizam carros na rua. Essa é a premissa de uma história de ritmo vagaroso, que privilegia longas cenas de ambiente interno, paisagens urbanas e olhares dos personagens (com seus silêncios que também comunicam). Florin Serban, o diretor, produtor e roteirista, opta por ser um observador daquela relação de pai e filho diante de uma tragédia que demora a ser explicada. Ele utiliza cortes de cenas na mesa de cirurgia, da cidade em movimento, do jantar entre pai e filho, da conversa do cirurgião no hospital etc. Não é uma obra fácil (até pela duração, de 154 minutos), com aquelas figuras solitárias melancólicas, de pouca comunicação. Eu gostei, pois entrei no clima da trama e nesse tipo de cinema que a Mostra costuma trazer e treinar o olhar do público para narrativas diferenciadas. Vencedor do Leopardo de Ouro e de outros três prêmios no Festival de Locarno, o drama com momentos de suspense integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 23 e 25/10.
Chicas tristes
(México/França/Espanha – 2026, de Fernanda Tovar)
Gostei mais da composição e da técnica do filme do que a própria história (sobre amadurecimento de adolescentes, tantas vezes já exploradas no cinema). Vencedor do Urso de Cristal de melhor filme na seção Generation 14plus do Festival de Berlim deste ano, “Chicas tristes” traz duas amigas de 16 anos, Paula e La Maestra, que nutrem uma amizade inseparável. Elas praticam natação e são as melhores da equipe, e se preparam para o campeonato panamericano. Paula, numa noite entre amigos, fica com um rapaz e faz sexo com ele. No outro dia, La Maestra percebe algo estranho ocorrendo com Paula, que se distancia dela. A suspeita é de que a jovem tenha sido estuprada, o que muda radicalmente a relação entre as duas e de Paula com a família. Um filme que começa mais leve e vai se adensando com as complexidades daquela amizade profunda e do ocorrido com a personagem Paula. A parte técnica da qual falei envolve cenas belíssimas com uso de plongée e contra-plongée (como as imagens submersas na água na piscina ao som de “Anunciação”, de Alceu Valença”, do eclipse, do reflexo do celular para se comunicar com os aviões, tudo muito formidável e que dão uma rica moldura). Tem trilha sonora caribenha, com salsa, samba brasileiro e rock alternativo, e um bom trabalho das amigas, interpretadas por Rocio Guzman e Darana Alvarez. É o segundo filme mexicano que está na Mostra com trilha sonora brasileira (o outro é “Homem ao mar”, de GAL Garcia Bernal). Está na Competição Novos Diretores, com sessões nos dias 24 e 26/10.
A vida e as mortes de Wilson Shedd
(EUA – 2026, de Tim Blake Nelson)
Drama prisional baseado em história verídica que teve première recentemente no Festival de Toronto e agora chega com exclusividade à mostra de Cinema de SP. E é um dos melhores filmes desta edição, que recomendo. Escrito e dirigido pelo ator Tim Blake Nelson (em seu sexto filme na direção), que aparece numa ponta, o filme tem um grande trabalho de Amanda Seyfried como Karen, uma professora que vai trabalhar na reeducação de presos em uma penitenciaria de segurança máxima. Ela vai ensiná-los escrita criativa e noções de literatura. Um deles é Wilson Shedd (Scoot McNairy), preso por matar quatro pessoas, incluindo a cunhada; Karen o ajuda a desenvolver textos onde ele pode relembrar pontos do passado, incluindo os crimes, como forma de se livrar daquele tormento. A partir daí ela começa a entrar no universo de Shedd, lendo o que ele escreve; Karen se afeiçoa àquela figura errante, porém enigmática - no filme, a narração do ator conduz os flashbacks de sua vida pregressa ligada a crimes violentos. A professora enfrenta um dilema moral ao deixar sua rotina de lado para se entregar aos cuidados daquele homem encarcerado, ao mesmo tempo que enfrenta um relacionamento abusivo do namorado, com quem mora (ele bate nela com frequência e a trai com mulheres dentro de casa). Tudo muda quando Shedd entra para a lista dos próximos condenados no corredor da morte. Uma boa direção com ótimo trabalho do elenco, incluindo Scoot McNairy no papel-título. A sequência final é difícil de acompanhar e digerir, uma das cenas mais chocantes já vistas de pena de morte. Está na Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 22 e 25/10 – espero que o público assista a esse filme sério e duro, que traz questões sensíveis sobre reeducação de presos, violência doméstica e de pena de morte.
Na terra de Arto
(França/Armênia – 2025, de Tamara Stepanyan)
Cineasta nascida na Armênia, filho de atores, Tamara Stepanyan viveu como refugiada no Líbano nos anos 90 após a queda da União Soviética. Em 2025 ela escreveu e dirigiu dois filmes sobre seu país de origem, o documentário “Meus fantasmas armênios” (exibido em Berlim, sobre o pai ator e a carreira dela como diretora) e “Na terra de Arto”, uma ficção mas com pano de fundo real. O filme é autoral e se passa nos anos 2020, nos conflitos de terra de Karabakn, na região montanhosa do Cáucaso, que funcionou como um Estado autoproclamado independente e de maioria étnica armênia (chamado de República de Artsakh), mas que após a ofensiva militar ficou sob controle do Azerbaijão. Nessas terras chega Céline (Camille Cottin, atriz francesa, de “Casa Gucci”), que está pela primeira vez ali. Ela tem uma missão: acompanhar a documentação da morte de seu marido, Arto. Descobre que ele viveu com outra identidade, envolvido com a guerra na região. A ida de Céline para Karabakn será uma viagem de descobertas do falecido marido, que mora em sua mente como um fantasma; ela irá descortinar seu passado, percorrendo o território e relembrando seus passos. Drama emotivo e eficiente rodado nas verdadeiras terras de Guiumri, conta com ótima fotografia e bom trabalho de Camille Cottin, que sustenta o filme nas costas (veja uma participação rápida no final do multifacetado ator Denis Lavant). Exibido nos Festivais de Locarno e Jerusalem, é o representante oficial da Armenia para uma vaga ao Oscar 2027. O filme integra a Mostra Perspectiva Internacional da 50ª Mostra, com exibição nos dias 25, 27, 28 e 29/10. Distribuição da Autoral Filmes.
A morte não tem dono
(Venezuela/Canadá/Itália/Luxemburgo – 2026, de Jorge Thielen Armand)
Exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes, a produção venezuelana é a representante do país para uma vaga ao Oscar 2027 de melhor filme estrangeiro. Drama sobre colonialismo e disputa de propriedade, traz no elenco a atriz italiana Asia Argento, filha do mestre do cinema de terror Dario Argento, em um papel voraz, cuja trama fica toda em seu entorno. Ela é uma mulher de cinquenta anos que viaja para a Venezuela para vender a plantação de cacau do falecido pai. Chegando à antiga mansão da família, no meio da mata, repara que no lugar estão morando funcionários da colheita; ela tenta negociar a saída deles, mas a conversa é em vão. Resolve fazer justiça, pegando em armas para expulsar o grupo, o que inicia um banho de sangue. A violência de uma mulher branca, rica e herdeira, contra um grupo de trabalhadores rurais simboliza no filme o colonialismo, a disputa de posse que termina em sangue, num filme dramático autoral de ar sombrio (e com momentos que lembram o próprio terror psicológico). Há muitas qualidades técnicas e estéticas, da fotografia estranha, levemente distorcida, ao uso pontual dos sons da natureza, aliado a momentos de silêncio da protagonista, que parece entrar em um pesadelo sem fim. Não é uma obra fácil, há uma série de elementos históricos que remetem aos resquícios do colonialismo europeu, e muitos diálogos de embate. Os filmes do cineasta Jorge Thielen Armand (que é diretor, produtor e roteirista) trabalham nessa linha de memória e colonialismo, como em “La soledad” e “La fortaleza”. Está na seção Perspectiva Internacional da Mostra, com sessões nos dias 23, 24 e 28/10.
Ray Gunn
(EUA/Canadá/Espanha – 2026, de Brad Bird)
Animação fresquinha, que acaba de ser exibida em première mundial nesse mês no BFI Londres e agora estaciona na 50ª Mostra, na seção Perspectiva Internacional. O filme é um barato total, para entrar de cabeça, ainda mais quem é inserido no mundo do cinema clássico; isso porque a animação (mais para adultos do que crianças) é cheia de metalinguagem e referências à Sétima Arte, numa divertida mistura de cinema noir com ficção científica (como se fosse uma fita B dos anos 50). O engraçado é a constante tensão do visual dos anos 40, com detetives de terno-e-gravata, em salas com móveis rústicos, com paisagens futuristas, de carros voadores. Na cidade de Metropia, tomada por arranha-céus de 800 andares, carros possantes que voam como aviões e luzes neon por todo canto, o charmoso detetive particular Ray Gunn (voz de Sam Rockwell) se envolve numa conspiração de assassinato e espionagem envolvendo uma estrela de cinema arrogante, Vênus Nova (voz de Scarlett Johansson), alienígenas e mafiosos. Para que sua investigação chegue ao fim, contará com ajuda do parceiro de polícia, um velho alienígena verde de um olho só, Olhívio (voz de Tom Waits). Humor, ação, romance, suspense, tudo vira uma boa miscelânea nesta que é uma das melhores animações do ano, original do começo ao fim, e que deve ser candidata ao Oscar 2027. Também uma homenagem ao cinema noir, com detetive em crise, femme fatale e o submundo do crime. Brad Bird é o diretor e roteirista, brilhante mais uma vez (ex-Disney e Pixar, criador de sucessos como “Os incríveis” e “Ratatouille”). Longa que demorou 30 anos para ser concebido (segundo Brad Bird), é produzido pela Skydance com a Netflix, e deve estrear no streaming em 18/12. Conta com sessões na Mostra ainda nos dias 24 e 25/10.
O homem mais solitário da cidade
(Áustria – 2026, de Tizza Covi e Rainer Frimmel)
Destaque no Festival de Berlim desse ano, o filme de arte austríaco compõe a programação da Perspectiva Internacional da Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 23 e 25/10. É documentário com elementos de ficção, ambientado na Viena atual, e que retrata o dia a dia do lendário guitarrista, pianista, cantor e compositor austríaco Al Cook, conhecido como o "Rei Branco do Blues Negro". Influenciado por Elvis Presley, o artista de voz grave é recluso, quase não dá entrevistas, e sua música ficou notória por juntar o blues rural tradicional do Mississippi ao boogie e rhythm and blues. No filme, ele conta uma versão de si, do passado e do presente, recorrendo a memórias da juventude, de perdas e do trabalho no mundo da música. Ele está deixando o apartamento onde mora, que será demolido, e nessa despedida fica diante das câmeras, cara a cara com a dupla de entrevistadores (a dupla de cineastas premiados por “Vera”, Tizza Covi e Rainer Frimmel), falando de histórias melancólicas e outras bem humoradas. As imagens (bem montadas no filme) retratam ainda sua dedicação aos ensaios de piano, bem como os afazeres banais do cotidiano, demonstrando um homem solitário, que escreve músicas a mão, assiste à TV, vai ao bar bebericar sozinho ouvindo velhas canções no jukebox etc. Além de Berlim, foi exibido nos festivais de Nova York e Vancouver.
Emergency exit
(Espanha – 2025, de Lluís Miñarro)
Novo trabalho que a Mostra traz do veterano cineasta espanhol Lluís Miñarro, de “Estrela cadente” (2014) e “Love me not” (2019 – que eu assisti na Mostra). Em um ônibus com destino ao além (isto mesmo, para a morte), um grupo de pessoas excêntricas segue a viagem pela noite afora. Ali estão duas amigas idosas com roupas extravagantes, bregas, que falam banalidades (como viagens e joias), um padre com desejos pecaminosos com homens mais novos, uma atriz pomposa que relembra a carreira, uma antropóloga cansada, uma mãe com a filha pequena levando flores ao cemitério. Eles viajam sem parada, até que Eros, o deus do amor, surge na forma de um garotão seminu, atiçando a vontade de muitos daquele ônibus. Comédia inusitada, do cinema absurdo, curtinho, que arranca algumas risadas, mas sempre em tom melancólico. Último trabalho da atriz frequente de Pedro Almodóvar Marisa Paredes (que faleceu na finalização do filme, em 2024), e participação da diretora japonês Nami Kawase. Está na programação da Perspectiva Internacional da 50ª Mostra de SP, com sessões ainda nos dias 25, 26 e 28/10.
Lorca: A voz partida
(Espanha/Argentina – 2026, de Manuel Menchón)
Excelente documentário de linguagem original, que mistura desenho com fotos, vídeos e paisagens, sobre Federico García Lorca (1898–1936), um dos mais importantes poetas e dramaturgos espanhóis, membro de destaque da chamada Geração de 27 e que foi brutalmente assassinado por causa de seus posicionamentos, como a defesa de ideias progressistas e da homossexualidade (considerada uma afronta pela direita ultraconservadora). Lorca tornou-se alvo prioritário logo no início da Guerra Civil Espanhola, preso várias vezes, considerado um agitador, que mobilizava a classe artística e parte da sociedade civil. Defensor dos marginalizados, autor de peças contestatórias e polêmicas (como “Bodas de sangue” e “Yerma”), foi detido e sumariamente fuzilado por milícias fascistas ligadas ao general Francisco Franco. Tinha uma genialidade artística única, revitalizando o teatro e a poesia moderna ao fundir o vanguardismo (como o surrealismo) com a rica cultura popular da região da Espanha onde nasceu e viveu, a Andaluzia. O filme parte de um arquivo secreto guardado por um dos últimos amantes de Lorca, o jornalista e escritor Juan Ramírez de Lucas – pouco antes de falecer, em 2010, Lucas deixou que se revelassem cartas trocadas entre os dois e materiais inéditos sobre Lorca. O longa é um arquivo vivo de importante relevância, que revela um novo Lorca ao público. A narração do filme é do ator espanhol Álvaro Morte, que ficou conhecido pelo papel de O Professor na série da Netflix “La casa de papel”. Exibido no Festival de San Sebastián, é um dos grandes filmes da 50ª Mostra, em exibição na seção Perspectiva Internacional nos dias 26, 27, 28 e 29/10.
Sobre o Colunista:
Felipe Brida
Jornalista, cr?tico de cinema e professor de cinema, ? mestre em Linguagens, M?dia e Arte pela PUC-Campinas. Especialista em Artes Visuais e Intermeios pela Unicamp e em Gest?o Cultural pelo Centro Universit?rio Senac SP, ? pesquisador de cinema desde 1997. Ministra palestras e minicursos de cinema em faculdades e universidades, e ? professor titular de Comunica??o e Artes no Imes Catanduva (Instituto Municipal de Ensino Superior de Catanduva), no Senac Catanduva e na Fatec Catanduva. Foi redator especial dos sites de cinema E-pipoca e Cineminha (UOL) e do boletim informativo "Colunas e Notas". Desde 2008 mant?m o blog "Cinema na Web". Apresenta quadros semanais de cinema em r?dio e TV do interior de S?o e tem colunas de cinema em jornais e revistas de Catanduva. Foi j?ri em mostras e festivais de cinema, como Bag?, An?polis, Bras?lia e Goi?nia, e consultor do Brafft - Brazilian Film Festival of Toronto 2009 e do Expressions of Brazil (Canada). Ex-comentarista de cinema nas r?dios Bandeirantes e Globo AM, foi um dos criadores dos sites Go!Cinema (1998-2000), CINEinCAT (2001-2002) e Webcena (2001-2003). Escreve resenhas especiais para livretos de distribuidoras de cinema como Vers?til Home V?deo e Obras-primas do Cinema. Contato: felipebb85@hotmail.com
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