NOS CINEMAS: 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey)

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29/05/2017 15:59 Por Rubens Ewald Filho
NOS CINEMAS: 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey)

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2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odissey)

EUA/Inglaterra, 1968. 139 min. Produzido por MGM. Direção de Stanley Kubrick. Roteiro de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke baseado na estória “The Sentinel”, escrita por Clarke. Fotografia de Geoffrey Unsworth e John Alcott. Elenco: Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester, Daniel Richter, Leonard Rossiter e a voz de Douglas Rain.

Introdução: Indicado somente ao Oscar de direção, roteiro original e direção de arte, ganhou apenas o de Efeitos Especiais. O filme estreou no Brasil, simultâneo com os Estados Unidos e em versão em 70 milímetros. O ano era 1968 e o homem ainda não tinha chegado a Lua. Mas Stanley Kubrick foi capaz de tirar o homem da Terra e levá-lo para o espaço. Não existia na época a tecnologia digital e o próprio gênero Ficção- Cientifica não era levado a sério pelo cinema. 2001, uma Odisséia no Espaço mudou tudo isso. É difícil imaginar a sensação que tiveram as plateias quando viram pela primeira vez o filme, um espetáculo áudio visual, com um mínimo de diálogos ou explicações. Ficaram tão perplexos diante da narrativa inusitada. Se muita coisa que Kubrick previu ainda não se realizou neste novo século, com certeza a fita feita por ele, baseada no livro de Arthur C. Clarke é obra de um visionário, talvez a primeira a prenunciar a chamada New Age, a Nova Era... Mais do que razão suficiente para colocá-lo como um dos grandes clássicos do século que acabou.

Sinopse (COM SPOILERS): Durante 15 minutos vemos um deserto sem homens. Os planos são longos, estáticos, os cortes bruscos dissolvendo em negro. Vemos um grupo de macacos. Parecem humanos porque são os ancestrais do homem, o “pitecantropus”. Reúnem-se em grupos, espécie de famílias, em torno de lugares onde existe água. Naquela manhã do homem, ainda macaco, há um bloco negro, um monólito. E a presença dessa entidade estranha que assiste (e provoca) o despertar da inteligência naquele homem-macaco. É a violência da descoberta do uso da força (representada pelo osso do animal) que dá o primeiro passo. Depois na defesa da água, ele a usará como arma. Essa violência, precursora do progresso é seguida por um gesto de triunfo, o osso é jogado ao ar e num corte magnífico, transforma-se numa nave espacial. Viajando no ano 2000 em direção à base estação interplanetária. Nesse corte, estão sintetizados alguns milhões anos de civilização. Depois do primeiro “empurrão” a história que se seguiu foi a mesma. O medo gerando a agressividade, a inteligência, a violência.

Ao som de uma valsa, a nave viaja pelo espaço. Todo ritmo da cena parece realmente correr ao compasso binário do “Danúbio Azul”. O espaço é infinito, silencioso, as cenas são igualmente lentas, demoradas. Fica-se assim conhecendo alguma coisa do conforto das aeronaves, da ausência de gravidade (e o problema com os banheiros), da comida sintética, do aparente equilíbrio de forças do mundo. Sabe-se também do progresso, no espaço já existem hotéis Hilton, restaurantes Howard Johnson, mas os homens não mudaram muito. Na história, sabe-se que há um mistério na base de Claius, uma cratera subterrânea na Lua. É mantido o máximo segredo na descoberta de um Monólito Negro. Quando os cientistas vão visitá-los, comportam-se exatamente como os macacos (posam para fotografias, tocam nele sem compreender do que se trata), mas naquele momento ouve-se um tremendo ruído: são os raios que um monolito envia a Júpiter, primeiro sinal de vida inteligente fora da Terra.

Imediatamente depois, começa a primeira viagem humana tripulada a Júpiter, com três cientistas congelados, dois astronautas e um supercérebro eletrônico Hal 9000. Esses astronautas são homens frios de pouca emoção, despreparados para um mundo que desbravam. O único que sabe o segredo da missão é Hal, o computador que fala e tem emoções humanas. Sabe jogar xadrez e mentir, elogiando os desenhos medíocres de Bowman. Mas o segredo acaba por enlouquecê-lo. Hal, na verdade, é o mais humano da tripulação, e fazendo seu papel de Polifemo (o gigante de um olho só, que guarda os segredos da caverna na Odisseia de Homero). Mata os tripulantes e deixa Bowman fora da nave. Esse Polifemo enlouquecido, havia lido nos lábios dos astronautas, a desconfiança e resolvera que não havia necessidade de homens para cumprir sua missão. Bowman custa a entender mas arrisca-se entrando pela porta de emergência, mesmo sob o perigo do vácuo (é um instante de silêncio, no vácuo não há som) até caminhar (na trilha sonora apenas o arfar de sua respiração) para o desligamento do computador, quase uma lobotomia e também uma das cenas mais emocionantes do filme, quando a voz de Hal, cantando “Daisy”, vai deixando de existir.

 

Júpiter e além do Infinito

A viagem prossegue em direção a Júpiter (é importante lembra que Júpiter na mitologia greco-latina seria o Deus supremo). Prossegue no espaço do Sol e da Lua, de astros de formas arredondadas até aparecer o Monolito Negro (de linhas retas, isto é, nascido de uma inteligência). O que é esse Monolito? Pode ser quase tudo: a Pedra Filosofal, o princípio de todas as coisas, a opção entre o bem e o mau, entre a vida e a morte. Pode ser também alguma entidade superior, inexplicável. Pode ser Deus, ou alguém que não entendamos e chamamos de Deus.

O astronauta, ao alcançar Júpiter, atravessa uma barreira de raios coloridos e psicodélicos. Seria o “portal de uma estrela” (Star Gate), a porta de entrada de uma outra dimensão, a entrada para a eternidade, dominada por uma inteligência semelhante a Deus. Ele é primeiro retornado a infância, depois transformado em puro intelecto e por fim levado de volta a Terra, carregando consigo toda a sabedoria do Universo.

A maior dificuldade é entender que o astronauta morreu ao atravessar a barreira. Num canto da tela aparece o sinal vermelho, anunciando que as funções vitais de Bowmam foram interrompidas. A partir daí, tenta-se explicar sua presença naquela sala branca. Há várias versões: o apartamento decorado à la Luis XV, representa além do passado (a herança cultural), o inconsciente coletivo que busca o luxo. Ou então emissões captadas do subconsciente de Bowmam. Poderia ser a vida que ele teria na Terra quando voltasse, ou desejaria ter. O fato é que o espírito de Bowmam envelhece e num gesto, repetindo os macacos, tenta tocar o monolito. Por fim, é por ele absorvido. E ressurge feto, renasce, olhos claros e puros, olhando a Terra. O primeiro dos “novos homens” olhando seu mundo. Haveriam outras interpretações: a nave Discovery que vai a Júpiter, seria um gigantesco espermatozoide fecundando o espaço, de cuja união nascerá o homem novo.

Não é a toa que o filme chama-se Odisséia, não é apenas uma aventura, mas a busca mítica de Deus, um filme profundamente religioso que desejava que o homem que chegasse a Lua, aprendesse o segredo do Universo e fosse um “Homem Novo” (como desejava Niesztche).

Crítica: A primeira impressão dos críticos brasileiros foi de frustração por não verem nenhum marciano. O fato é que foi preciso algum tempo para eles se recomporem e descobrirem que 2001, Uma Odisséia no Espaço era uma obra-prima. O diretor Stanley Kubrick, disse uma grande verdade a respeito de seu filme: “2001 é tão perfeito tecnicamente que o próximo filme sobre viagens espaciais, se quiser ser melhor terá de ser filmado nos próprios locais”. O extraordinário em 2001 – entre outras coisas – é sua importância profética. Kubrick mostra antes dos homens chegarem à Lua que a Terra é azul, que no espaço não existe o tempo e que o homem continua sendo o mesmo primata subdesenvolvido. Como tema musical ele escolheu (ou redescobriu) o “Danúbio Azul”, de Strauss que se tornou desde então a música oficial dos lançamentos dos projetos da NASA. O mesmo com o resto da trilha: “Assim falou Zaratustra” (de Strauss para o nascimento do novo homem), “Gayne Suite”, de Kachaturian, e quatro composições de Gyorgy Ligetti. A fita custou 12 milhões de dólares e foi rodada na Inglaterra a partir do primeiro “script” de Kubrick e Arthur C. Clarke. O ponto de partida do filme foi o conto “The Sentinel”, de Clarke, que mais tarde passou a ocupar apenas trecho da história (a viagem a Júpiter e o combate de Hal com os astronautas). Na produção trabalharam 106 técnicos, inclusive da NASA, IBM e General Electric. O sucesso de 2001 foi devido principalmente às plateias jovens. Foram elas que descobriram a fantástica beleza visual e mensagem implícita na conquista do Espaço – inclusive tomando LSD para melhor apreciar o filme – foram elas que tornaram o filme um sucesso de bilheteria, apesar de ser também um filme difícil.

Todos os escritos de Arthur C. Clarke baseiam-se em três axiomas: 1) Quando algum cientista anuncia que alguma coisa é possível, ele provavelmente está certo. Quando ele anuncia que alguma coisa é impossível, provavelmente ele está errado; 2) A única maneira de definir os limites do possível é ir além dele, a caminho do impossível; 3) Qualquer tecnologia extraordinariamente avançada é indistinguível da magia.

Mais tarde, Clarke transformou roteiro num livro, que explicava vários pontos obscuros. Já Kubrick na sua famosa entrevista à “Playboy” recusou-se a explicar o filme: “Tentei criar um experiência visual que ultrapassasse a comunicação verbal e penetrasse diretamente no subconsciente, com um conteúdo emocional e filosófico. Quis que o filme fosse uma experiência intensamente objetiva que atingisse o espectador, a um nível profundo de sensibilidade como faz a música”. Disse ainda: “O conceito de Deus está no centro de 2001 – mas não qualquer imagem antropomórfica de Deus. Não creio em nenhuma religião monoteísta da Terra, mas acredito que se pode construir uma definição científica de Deus.”

“Quando pensamos nos gigantescos avanços tecnológicos que o homem efetuou em poucos milênios – menos de um microssegundo na cronologia do Universo – não podemos imaginar a evolução que essas formas de vida muito mais antigas alcançaram. Elas podem ter progredido de espécies biológicas que são frágeis conchas para a inteligência, a imortais entidades e então, após inúmeras eras, podem ter emergido da crisálida de matéria, transformadas em seres de pura energia e espírito. Suas potencialidades seriam ilimitadas e sua inteligência inatingível pelos humanos. Tudo isso tem relação com o conceito de Deus em 2001. Porque esses seres hão de ser deuses para bilhões de raças menos avançadas no universo”.

"Há uma considerável diferença de opinião entre cientistas e filósofos. Alguns sustentam que o encontro com uma civilização altamente adiantada produziria um choque cultural traumático no homem, por arrancá-lo de seu etnocentrismo e destruir a ilusão de que ele é o centro do Universo. No sentido mais profundo, creio na potencialidade do homem e na sua capacidade de progresso. Não sou de forma alguma hostil às máquinas. Não há dúvida, porém, que estamos entrando numa ‘mecanarquia’. Olhando o futuro distante suponho não ser inconcebível uma subcultura de robôs-computadores capaz de resolver um dia, que podem prescindir do homem.”

“Confirmando a ideia de ‘experiência visual’ de 2001, o filme tem 139 minutos e menos do que 40 minutos de diálogos. Parafraseando Mac Luhan, Kubrick quis que ‘a mensagem fosse o veículo’ (The message is the medium). Assim ninguém explica uma sinfonia de Beethoven. Isso criaria uma barreira artificial entre a concepção e a criação.” Continua Kubrick: “Vocês são livres para especular sobre o significado filosófico e cultural do filme. Não quero estabelecer um mapa verbal que todos sejam obrigados a seguir. A intenção é provocar no espectador uma reação que precisa – e não deve – ser explicada.”. Infelizmente, a produtora MGM resolveu fazer uma continuação em 1984, chamada 2010, o Ano em que Faremos Contato (2010), dirigido e fotografado por Peter Hyams, com Roy Scheider, Helen Mirren, John Lithogow e participação especial de Keir Dullea (do primeiro filme). O filme acabou explicando tudo aquilo que o original deixava ambíguo, misterioso e fascinante, resultando numa aventurazinha banal e medíocre, uma “bastardização” da grande obra original.

Para mim é ainda a obra prima de Kubrick, junto com Fellini Oito e Meio (meu filme favorito) e adequado para se ver numa bela projeção de um cinema especial. Mudou a historia do gênero, do cinema e da própria ciência.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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