Entre Ozu e Resnais: Ao Espaço Sucede o Tempo

Chris Marker é ao mesmo tempo o avesso e o irmão de genética cinematográfica de outro cineasta francês

08/03/2018 13:53 Por Eron Duarte Fagundes
Entre Ozu e Resnais: Ao Espaço Sucede o Tempo

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Chris Marker é ao mesmo tempo o avesso e o irmão de genética cinematográfica de outro cineasta francês, Alain Resnais. Não é para menos. Ambos, antes de serem realizadores conhecidos (Resnais mais do que Marker), codirigiram um média-metragem de trinta minutos em 1953, As estátuas também morrem. Tanto Marker quanto Resnais são obcecados pela luta dialética entre memória e esquecimento. Resnais: o amor esquecido de O ano passado em Marienbad (1961), a bomba esquecida de Hiroshima, meu amor (1959: “Tu nada viste em Hiroshima.”). Marker é bem menos cultuado e estudado que Resnais, daí esta impressão de que Marker pode desfrutar dos fragmentos-sobras de Resnais. Em Sem sol (Sans  soleil; 1982), o mais aclamado dos trabalhos de Marker, dá a dimensão das aproximações e distâncias entre Resnais (que nasceu em 1922) e Marker (nascido em 1921). Sem sol é, como os principais filmes de Resnais (e Meu tio da América, 1980, mais que todos), um documentário de memória. No centro de cosimento de Sem sol há umas cartas dum cineasta inventado dentro do filme que são lidas por uma mulher que observa o mundo a partir de suas viagens (África, Japão, Estados Unidos) destas cartas; esta mulher aparece na voz perfeccionista e profunda de Florence Day. Marker começa com o espaço do japonês Yasujiro Ozu (boa parte das sequências convivem com os trens nipônicos e os tradicionais quimonos) e vai dar nas complexidades de tempo de Resnais; mas o tempo que Marker busca está mais nos subterrâneos da filosofia. Numa determinada reflexão, a narradora, estimulada pelo cineasta de invenção (ambos, cineasta e narradora, porta-vozes do eu cinematográfico de Marker), documenta uma ficção do futuro, um tempo em que a memória total nos dará saudades da sociedade do esquecimento que é a do século XX. Em outra sequência Marker exibe seu fascínio crítico com uma obra-prima da memória e do esquecimento, Um corpo que cai (1958), do inglês Alfred Hitchcock, revisitando San Francisco nos Estados Unidos; sob a aparência duma narrativa de espionagem e perseguição, uma narrativa da espiral do tempo; tudo estava no espaço ou no cenário (inclusive a espiral que havia no cabelo de Madeleine/Kim Novak), o que Hitchcock fez foi transformar o espaço em tempo, isto é, chegar ao espaço moral que é o tempo. De todo o encadeamento de pensamentos e sensações arrolados ao longo do filme, Marker extrai uma espécie de suma da trajetória do homem por todo um século, um século em que o sentimento dirigiu a memória que chegou à imaginação que voltou à memória que se reconstruiu em sentimento que embaralhou as percepções.

O título, Sans soleil, é extraído duma composição dum músico japonês. O nome completo do cineasta é Christian François Bouche-Villeneuve. Ele teve uma experiência indispensável no século XX: estudou filosofia sob a orientação de Jean-Paul Sartre. Anatole Dauman, homem de exigência estética, é produtor de Sem sol. Chris Marker é um indivíduo recluso e avesso ao narcisismo midiático: não dá entrevistas, não é fotografado. Sua paixão por bichos se revela quando lhe pedem uma fotografia: ele manda a de um gato. Em Sem sol seu amor aos animais está em documentar a mística duma família japonesa junto ao tútmulo da gata Tora, e também na referência ao cão Hichiko, famoso porque, após a morte de seu dono, continuava a esperá-lo junto à entrada do conservatório onde o homem dava aulas quando um belo dia lhe deu um enfarte fatal; a história do cão, filmada antes no Japão, entre nós foi conhecida por sua refilmagem americana, Sempre a seu lado (2009), do sueco Lasse Hällstrom, com Richard Gere no papel central (se é que o papel central não era o do cão).

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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