Quando Kafka Encontra Orwell, numa Linguagem de Forster

Não Me Abandone Jamais é uma obra bastante acima da média e que guia o leitor por um labirinto de signos que pode fasciná-lo

17/11/2017 09:23 Por Eron Duarte Fagundes
Quando Kafka Encontra Orwell, numa Linguagem de Forster

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Kazuo Ishiguro nasceu no Japão mas, criando-se desde pequeno na Inglaterra, é um escritor inglês. É um dos mais conceituados romancistas de hoje e o cinema o ajudou a difundir sua obra: dois de seus livros foram filmados. Agora, sendo agraciado pelo Prêmio Nobel de Literatura, o mesmo que no ano passado premiou um cantor, o norte-americano Bob Dylan, a difusão internacional se completa. É hora de lê-lo e saber o que ele traz para a literatura: suas influências, suas novidades, suas reiterações britânicas.

Não me abandone jamais (Never let me go; 2005) é um de seus trabalhos mais conhecidos. Foi levado ao cinema pelo diretor Mark Romanek, trazendo no elenco intérpretes muito característicos como Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley; o filme é de 2010. A narrativa de Ishiguro tem uma atmosfera de conto de antecipação, navegando entre um realismo aparente e uma porção simbólica de episódios; lembra um pouco George Orwell e suas reflexões sobre indivíduos automatizados, dominados; mas é também algo feito no rastro das estranhezas de anotações de Franz Kafka, em que toda frase conduz a uma interpretação subliminar; porém o texto evoca outras sutilezas de linguagem inglesa, como Jane Austen, Henry James (um americano europeizado) e E.M. Forster. Desta mistura de sombras literárias o escritor nipo-britânico extrai um vagar estético sensível, bonito de ler; é claro que, para encerrar em suas influências um cerco mais complexo e profundo, lhe falta, em Não me abandone jamais, a demência do cotidiano de Kafka, o estado delirante de Orwell e a precisão de textos de Austen, James ou Forster. Mesmo assim, Não me abandone jamais é uma obra bastante acima da média e que guia o leitor por um labirinto de signos que pode fasciná-lo.

Hailsham, o lugarejo fantasmagórico das memórias da protagonista (o livro é narrado em primeira pessoa), é evocado um pouco à sombra daquele castelo de Kafka lá embaixo. “Mas agora percebo que boa parte do que houve depois foi decorrência  dos anos que passamos em Hailsham, e é por esse motivo que desejo, primeiro, reviver essas primeiras memórias com todo o cuidado.” Melancólico e terno, o relato exposto em Não me abandone jamais expõe fissuras emocionais que rangem sem fazer barulho: os destinos marcados das personagens nos arrepiam porque, em linhas gerais, são os destinos de todos nós, que um dia vamos embora, partiremos “em direção a fosse qual fosse o lugar onde era para eu estar”.

Há uma certa angústia sígnica, de natureza metafisica em algumas passagens do romance. Que representam certas imagens? “A mata ficava no alto do morro que se erguia atrás de Hailsham House. A única coisa que conseguíamos ver, na verdade, era uma franja escura de árvores, mas tenho certeza absoluta de que não era a única da minha idade a sentir dia e noite a presença dessas árvores. Quando o tempo fechava, era como se elas lançassem uma sombra sobre Hailsham inteira; bastava virar a cabeça ou chegar a uma janela que lá estavam elas, assomando à distância. A área mais segura era a frente do casarão, porque das janelas daquele lado não dava para ver nenhuma árvore. Mesmo assim, você nunca se livrava por completo delas.”

Refazendo em parte o que se disse num certo trecho deste comentário, dir-se-ia que Ishiguro, em Não me abandone jamais, se liberta das sombras das árvores literárias que o geraram e cria seu próprio quintal de palavras, com uma complexidade e uma profundidade mais apropriada à literatura do século XXI. Sem nenhuma reserva crítica, Não me abandone jamais é um romance de densa beleza; clássico em suas estruturas frasais, mas intensamente atualizado.

 

(Eron Duarte Fagundes – eron@dvdmagazine.com.br)

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Sobre o Colunista:

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes

Eron Duarte Fagundes é natural de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde nasceu em 1955; mora em Porto Alegre; curte muito cinema e literatura, entre outras artes; escreveu o livro “Uma vida nos cinemas”, publicado pela editora Movimento em 1999, e desde a década de 80 tem seus textos publicados em diversos jornais e outras publicações de cinema em Porto Alegre. E-mail: eron@dvdmagazine.com.br

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