RESENHA CRÍTICA: Nasce uma Estrela (A Star is Born)

Neste ano de estreias tão fracas e poucos filmes que parecem merecer maior destaque, este novo Nasce uma Estrela me tocou muito

11/10/2018 23:44 Por Rubens Ewald Filho
RESENHA CRÍTICA: Nasce uma Estrela (A Star is Born)

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Nasce uma Estrela (A Star Is Born)

EUA, 18. 2h16 min. Direção de Bradley Cooper. Roteiro de Eric Roth e Cooper (e mais 7 créditos). Com Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Andrew Dyce Clay, Alec Baldwin, Dave Chapelle, Rafi Gavron, Ron Rifkin.

Já houve outros cinco filmes clássicos sobre o mesmo tema de “nasce uma estrela” e praticamente todos eles são do primeiro time, em particular quando estrelados por Judy Garland e Barbra Streisand (ainda mais quando empoderadas por ótimas trilhas musicais). Por isso, que foi muito arriscado e corajoso o projeto levado adiante por Bradley Cooper (que a maior parte das pessoas achava que era apenas um coadjuvante competente, justificado por ter sido indicado algumas vezes ao Oscar, na verdade duas por Sniper Americano, 14 (ator coadjuvante e filme), outras Trapaça , 14 (coadjuvante) e O Lado Bom da Vida, 13. É muito possível que desta vez leve até o prêmio graças a esta estupenda e inesperada criação . É visível que ele fez grande esforço com o personagem de Jack, um cantor pop/rock viciado em drogas e alcoolismo que tem uma certa redenção quando vem a conhecer uma jovem aspirante a cantora Ally (primeiro grande papel estrelar da notável cantora Lady Gaga).

Logicamente eu vi as versões anteriores que são na verdade reflexos bem interessantes de diferentes épocas, partindo de um fato real, houve sim a historia de um ator mal sucedido que em desespero prefere se matar numa praia, mas este filme consegue o caso raro de reapresentar uma sequência de premiação de um prêmio Oscar (no caso do filme de Judy, era James Mason, que lhe dava um tapa meio por acaso, neste novo filme é uma situação semelhante quando Ally vai ganhar um prêmio musical tentando controlar o marido fora de si!). Mas fora disso, a situação é mais contemporânea, a trilha musical é pop rock, e é preciso ser justo com a agora finalmente estrela Lady Gaga.

Na verdade, comecei a conhecê-la nos desfiles de fantasia que fazia na entrada de premiações e aos poucos foi vencendo o bizarro para se estabelecer como uma excelente cantora de bela figura. Confesso que fiquei chocado quando descobri o fato de que ela sofre da chamada Fibromialgia (sofre de dores pelo corpo todos ao que parece sem solução). Ainda assim acompanhei diversos shows dela (como o com Tony Bennett), fiquei chocado quando foi indicada, mas não ganhou o Oscar de canção por uma notável canção em 2016, com Dianne Warren, chamada The Hunting Ground, Til it Happens to You (denúncia do estupro!) e ainda assim observei com admiração a discrição e verdade como quem canta tão bem e interpreta com absoluto brilhantismo.

Talvez o filme não seja totalmente perfeito, porque se constitui uma história muito forte, pesada mesmo, senti certa semelhança com outra história de rock que me tocou na época que foi Bette Midler em A Rosa em 1980, indicada também ao Oscar fazendo o papel disfarçado de Janis Joplin, de forma igualmente esplêndida. Mas aqui é em uma dupla o que torna os fatos ainda mais dramáticos. Não é uma simples love story. Mas pensando bem os outros filmes homônimos também não eram nada leves, talvez os tempos atuais é que tenham se tornado mais trágicos.

Neste ano de estreias tão fracas e poucos filmes que parecem merecer maior destaque (e a Academia dá piores sinais de estar perdida em suas ações!) este novo Nasce uma Estrela me tocou muito.

 

Nasce uma Estrela

Por Adilson de Carvalho Santos

A história de uma jovem aspirante a atriz envolvida com um astro em decadência em uma gangorra sentimental em que ambições profissionais e realizações pessoais divergem. De Constance Bennet a Lady Gaga, essa história tem sido vista e revista há gerações sempre nos levando a questionar o preço da fama e do sucesso artístico.

A verdade é que desde seus primórdios o cinema já trazia diversas histórias de sucesso e tragédia como em “Hollywood” (What Price Hollywood?) de 1932, dirigido por George Cukor. A história de Adele Rogers St.John, roteirizada por Gene Fowler e Rowland Brown, girava em torno da garçonete Mary Evans (Constance Bennet), que sonha com uma carreira de atriz. Uma noite ela encontra o diretor Maxmillian Carey (Lowell Sherman) que lhe abre a primeira porta para o sucesso. Apesar da forte e leal amizade, formada entre Max e Mary, ambos seguem caminhos opostos com Max afundando na bebedeira, enquanto Mary se casa com o advogado Lonny Borden (Neil Hamilton) e se torna uma atriz famosa. Mary chega a ganhar um Oscar de melhor atriz, mas vê seu casamento desabar. O estrelato tão desejado não cala a dor de Mary quando Max se suicida. A autora baseou-se na história real do casal Colleen Moore e John McCormick; além do ator e diretor Tom Forman, que se suicidou após um surto nervoso da mesma forma que o personagem Max Carey, com um tiro no peito.

Quatro anos depois o mesmo David O’Selznick (produtor de o Vento Levou”, “King Kong”), que trabalhou para a RKO como produtor executivo de “Hollywood”, decidiu filmar a história extremamente similar de William Wellman e Robert Carson para “Nasce uma Estrela” (A Star is Born) desta vez para sua própria produtora, a “Selznick International Pictures”, irritando a RKO, responsável pelo filme de 1932, que esteve prestes a processar Selznick, mas acabou não o fazendo. Quando George Cukor foi chamado para assumir a direção, recusou por ser muito similar ao seu trabalho em “Hollywood”, então Wellman asssumiu como diretor e as filmagens começaram em 20 de abril de 1937, com Janet Gayner no papel da aspirante a atriz Esther Blodgett, que se torna a estrela Vicky Lester, papel que Gaynor também viveu em uma adaptação radiofônica. Esta vive um romance com o decadente ator Norman Maine (Fredric March), que se entrega ao alcoolismo à medida que Vicky chega ao topo da glória artística. Reza a lenda que o casamento tumultuado de Barbara Stanwyck e Frank Fay teria sido a inspiração para o casal Vicky/Norman, mas Wellman baseou-se em suas próprias experiências, e também na carreira de John Bowers, ator do período silencioso que se suicidou depois de ter a carreira arruinada pela chegada do som. Já os historiadores relacionam o personagem de Norman Maine aos atores John Barrymore (Avô de Drew Barrymore) e John Gilbert. Tanto “Hollywood” quanto “Nasce uma Estrela” compartilham o mesmo foco nos sonhos e, sobretudo, nas desilusões dos que nascem e morrem sob as luzes dos holofotes. Na décima cerimônia de entrega dos Oscars, o filme de Wellman foi premiado pela melhor história original, além de um prêmio especial para W. Howard Greene pela fotografia em cores, um triunfo técnico para este que foi o primeiro filme colorido indicado pela Academia.

Nos anos que se seguiram, a “Selznick International Pictures” se dissolveu e os direitos do filme foram vendidos indo parar nas mãos de Sid Luft, então marido de Judy Garland. Luft conseguiu convencer George Cukor a assumir a cadeira de diretor e fazer dessa adaptação um filme musical com roteiro assinado por Moss Hart. Este triunfou ao usar a música como fio condutor da história de Norman (James Mason) e Vicky (Judy Garland). Uso criativo do Cinemascope, o filme foi preparado para ser o retorno ao estrelato de Judy, que estava há alguns anos afastada das telas depois do fim de seu longo contrato com a MGM. George Cukor, que dirigira “Hollywood” aceitou o cargo, que havia recusado em 1937, conduzindo seu primeiro musical com seu lendário toque, uma filmagem atribulada pelos problemas com sua estrela. Judy, então aos 32 anos. A atriz encarnava na vida real os conflitos advindos de seus vícios e excessos, mas imprimiu na tela uma atuação pungente, intensa, entoando com sua belíssima voz canções como “The Man That Got Away” e “ Gotta Have me Go With You”. Produzido por cinco milhões de dólares, com esplêndida fotografia de Sam Leavitt, o filme quase teve Cary Grant no papel de Norman Maine, mas este teve receio de contracenar com as inconstâncias de Judy Garland. Apesar do sucesso, Cukor nunca chegou a ver seu filme pronto. Assim que encerrou as longas filmagens, o diretor viajou para a Europa em busca de locações para seu próximo projeto. Nesse meio tempo a Warner cortou 27 minutos de sua metragem original de 181 minutos além de adicionar a canção “Born in a Trunk”. Somente em julho de 1983, a Academia de Artes e Ciências de Hollywood relançou o filme restaurando 19 minutos das cenas não utilizadas, mas Cukor falecera pouco antes. O sucesso de público e crítica levou Judy a ser indicada ao Oscar de melhor atriz mas perdeu para Grace Kelly no que é considerado uma das maiores injustiças da história. Quando a vitória de Grace era anunciada, os repórteres estavam no quarto de hospital em que Judy estava internada, todo o mundo incluindo a própria acreditando no favoritismo, mas enfrentando uma decepção que abriu mais uma chaga no coração da estrela, um sentimento de rejeição que ela nunca conseguiu superar.

22 anos depois o diretor Frank Pierson recriou “Nasce uma Estrela” trocando o cinema pelo mundo da música. Assim, Norman Maine tornou-se John Norman Howard (Kris Kristorfeson), um astro do rock que se envolve com a desconhecida Esther (Barbra Streisand). A medida que o abuso de álcool e drogas destrói lentamente John, Esther cresce e se torna uma cantora de sucesso. O filme foi um veículo para o talento de Streisand, cuja voz fez de “Evergreen” a melhor canção original pela Academia. A própria estrela teria dirigido algumas cenas devido a constantes desentendimentos com o diretor. Ela queria Elvis Presley para seu co-astro, tendo viajado para Las Vegas para pessoalmente convencê-lo. Com o insucesso das negociações nomes como Mick Jagger e Marlon Brando foram mencionados até a contratação de Kris Kristofferson, que teve sua atuação apontada como inspirada em Jim Morrisson do “The Doors”, embora o ator tenha negado. Streisand era a estrela de uma outra época, também co-produtora, tomando as rédeas da adaptação como veículo para seu enorme talento, seja atuando ou cantando. Terceira maior bilheteria do ano de seu lançamento, o filme, que foi o primeiro realizado no sistema de Dolby surround, recebeu vários prêmios e indicações, tendo sido ainda incluída pelo AFI (American Film Institute) na lista de 100 maiores canções do cinema com “Evergreen”. Em 2013 ainda houve a versão indiana “Aashiqui 2” feita em Bollywood, chegando a mais de 9 milhões de dólares nas bilheterias ao longo de 4 semanas de exibição.

A força dessa história é que ela não apenas fez brilhar Bennet, Gaynor, Garland, Streisand e agora Lady Gaga, mas também nos faz lembrar de toda uma constelação que inclui Monroe, Hayworth, Gardner, Hayward, Hepburn e tantas outras que marcaram seus nomes no firmamento Hollywoodiano, “vidas que se acabam, luzes que se apagaram” como na letra de João de Barros para “Luzes da Ribalta”, apontando a certeza de que esse ideal renascerá em outros corações.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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