FILMES CLÁSSICOS NAS TELONAS: 4ª TEMPORADA

O Cinemark exibirá mais filmes clássicos consagrados por gerações, confira quais são e a opinião de Rubens Ewald Filho sobre eles. Na primeira semana: Touro Indomável

20/10/2014 14:38 Por Rubens Ewald Filho
FILMES CLÁSSICOS NAS TELONAS: 4ª TEMPORADA

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O Cinemark trará uma segunda temporada de filmes clássicos nas telonas dos cinemas. Depois do sucesso da temporada anterior, os filmes escolhidos foram:

TOURO INDOMÁVEL - dias 25, 26, e 29 de outubro

FOOTLOOSE - dias 1, 2 e 5 de novembro

BONNIE & CLYDE - dias 8, 9 e 12 de novembro

LOVE STORY - dias 15, 16 e 19 de novembro

SCARFACE - dias 22, 23 e 26 de novembro

UMA LINDA MULHER - dias 29, 30 de novembro e 3 de dezembro

Para ver quais as salas e horários, visite o site do CINEMARK.

 

A cada semana traremos a resenha crítica completa de cada filme a ser exibido. Para começar, temos:

 

Touro Indomável (Raging Bull)

EUA, 1980. 128 min. Produzido por United Artists/Chartoff-Winkler. Direção de Martin Scorsese. Roteiro de Paul Schrader e Mardik Martin (e também Peter Savage, Robert Martin) baseado na autobiografia de La Motta. Fotografia de Michael Chapman. Elenco: Robert De Niro, Cathy Moriarty, Joe Pesci, Frank Vincent, Nicholas Colasanto, Theresa Saldana, John Turturro. Preto e branco.

Sinopse: A vida de Jake La Motta, campeão mundial de peso-médio: sua ascensão, apogeu e queda. Ele Teve 83 vitorias, 19 derrotas e 9 empates. Ficou famoso por vencedor Sugar Ray Robinson.

Comentários: Esta foi a primeira vez que assisti integralmente este filme desde sua estreia (disponível em Blu-Ray). Embora o tenha colocado no meu livro sobre os Cem Melhores do Século XX, tenho que confessar que mantinha uma certa antipatia contra De Niro (infelizmente hoje confirmada pela repetição de caretas e personagens, em filmes que não o merecem) e por tabela o filme. Para se ver que mesmo estando atentos, a gente às vezes cria preconceitos ou mesmo conceitos errados e injustos. Na vida e com o cinema. Rever o filme foi para uma epifania, como dizem os católicos, uma revelação, um momento de redescoberta e alegria. Sem dúvida, este é o melhor filme sobre boxe já feito pelo cinema (e por tabela, também filme de esporte) e provavelmente o melhor trabalho de Martin Scorsese que nunca fez algo tão marcante e memorável.

O impacto já começa nos letreiros iniciais (repare como está grafado o titulo original, ou seja, a maneira certa seria por tudo junto como esta ali, “RagingBull”, tudo junto (naturalmente este é o apelido do biografado La Motta. Aliás, há noticias de que se produz para 2014 nova cinebiografia dele The Bronx Bull, de Martin Guigui, com William Forsythe. Em Portugal, o filme se chama O Touro Enraivecido, feio mas mais correto!). Mas a imagem de De Niro lutando, ou melhor se exercitando no ringue sozinho, num clima sombrio e enevoado, é antológica . Não há trilha musical original.  Mas o uso frequente e brilhante do mesmo tema musical tirados da obra do compositor italiano Pietro Mascagni (1863-1945), que são os trechos da Ópera Cavalaria Rusticana: Intermezzo, e também durante o filme Silvano: Barcarolle, Guglielmo Ratcliff: Intermezzo, e cerca de 33 canções antigas em gravações originais (entre elas a musica brasileira Não Tenho Lágrimas, de 1933, interpretado por Patrício Teixeira). Essas canções populares são usadas de forma incidental, são executadas no rádio ou em night-clubs mas é musica operística de Mascagni que dá pompa e clima ao filme (Scorsese a escolheu por ser muito “triste” e para aumentar o efeito fez um ringue maior do que o tamanho normal).

Indicado para Oito Oscar® (coadjuvantes Pesci e Moriarty, fotografia, direção, filme e som) ganhou apenas  de melhor ator (o segundo para De Niro, o primeiro como protagonista) e montagem (que é da celebre Thelma Schoonmaker que  acompanha Scorsese até hoje por toda sua carreira incluindo o recente “Hugo”. Mas este foi o primeiro trabalho deles juntos, desde a estreia de Martin, no independente e experimental Who's That Knocking on My Door? quando eles eram ainda colegas de escola de cinema . O problema é que na época o Sindicato dos Montadores negou o ingresso dela, porque não havia mulheres entre eles). Mas Touro Indomável acabou sendo votado o melhor filme da década pelos críticos americanos e atualmente está em quarto lugar na lista do American Film Institute dentre “Os Melhores filmes americanos de todos os tempos” e em primeiro dentre os filmes de esporte. É considerado também a maior injustiça da História do prêmio Oscar® (que naquele ano privilegiou Gente como a Gente/ Ordinary People, estreia na direção de Robert Redford. Um bom filme mas inferior a este). Há outra razão porque o filme não levou mais Oscar®: na época, a produtora United Artists estava em estado de pré-falência por causa dos problemas com O Portal do Paraíso/ Heaven´s Gate de Michael Cimino  e não tinha dinheiro para fazer campanha promocional (esse filme realmente provocaria o fim do regime da United, que nunca mais teria o brilho de antes).

Scorsese parou as filmagens durante quatro meses para que De Niro pudesse engordar de 160 para 215 libras, quase trinta quilos, um fato inédito no cinema, só semelhante ao de Tom Hanks em Náufrago em 2000, sendo que neste caso o filme ficou parado um ano e o ator teve que perder e não ganhar peso. Cathy Moriarty, indicada ao Oscar® como coadjuvante, estreou neste filme e era uma modelo de 19 anos descoberta por Joe Pesci (que anos mais tarde ganharia Oscar® de coadjuvante noutra fita com De Niro e Scorsese, Os Bons Companheiros). Ele na época não tinha qualquer sucesso e dirigia um  restaurante no Bronx. Depois de virar astro por uns tempos, teve que se afastar do trabalho por problemas graves de saúde (ainda assim aparece nos extras do Blu-ray dando depoimento). Cathy tem um jeito meio amador que é cativante e hoje resiste bem a uma revisão (ela fez outros filmes mas nunca chegou a emplacar). Reparem também como ela esta vestida como se ela fosse uma fã e imitadora de Lana Turner. O pai do diretor Charles Scorsese (1913- 93) faz pontinha como homem que está com Tommy Como, na mesa dos mafiosos e depois apareceria também em outros filmes do filho. Martin também aparece muito rapidamente como o empregado do Barbizon que pede para La Motta entrar em cena. O hoje famoso John Turturro estreia no cinema em ponta, como homem na mesa no Webster Hal.

Robert De Niro e Joe Pesci, a pedido de Scorsese, passaram muito tempo juntos e acabaram se tornando até hoje grandes amigos. Mas na cena em que eles brigam tudo é para valer e num momento de treino De Niro acidentalmente quebrou uma costela de Pesci (a cena esta no filme e Pesci grunhe e câmera corta para outro ângulo). Embora durem pouco no filme, cerca de 10 minutos, elas eram tão coreografadas que levaram 6 semanas para serem filmadas. O diretor não queria o uso de câmeras múltiplas preferindo seguir a coreografia pré determinada em story board. Ela seria uma espécie de terceiro lutador no ringue. Ao final, quando Jake (De Niro) ensaia trechos para seu show, Scorsese queria usar trechos de Ricardo III de Shakespeare mas seu amigo o veterano diretor Michael Powell insistiu para ele aproveitar diálogos do filme Sindicato de Ladrões, com Marlon Brando, de que o verdadeiro La Motta gostava muito e tinha tudo a ver com o tema da história. Mas pediu a interpretação mais sem expressão possível para não pensarem que este estava se referindo ao próprio irmão (curiosamente a autobiografia de La Motta nunca menciona o irmão). Outro detalhe curioso: o palavrão "fuck" é usado 114 vezes no filme. O personagem chamado no filme de Tommy Como (feito por Nicholas Colasonto), é baseado no gangster real Frankie Carbo, que controlava todo boxe em Nova York nos anos 1940 e 50. Eventualmente foi mandado para prisão por chantagem  e extorsão por Robert Kennedy. Há também uma proposta clara no filme, ele não quer ser confundido ou comparado com outro sobre boxe da época, Rocky, o Lutador de Stallone. A montagem já começou ainda durante a rodagem do filme no apartamento do diretor a noite. Um trabalho lento porque Scorsese achava que aquele seria seu ultimo filme e  o queria perfeito. A cena da ultima luta na teve são imagens autenticas.

Avaliando o Filme: Sempre desconfio da avaliação contemporânea de uma obra de arte, quando ela é muito especial, inovadora, em geral é mal compreendida. Há casos frequentes em que a crítica não soube fazer justiça, sendo que aqui, De Niro ganhou o Oscar® mais por ter mudado fisicamente de forma tão óbvia. Enquanto revendo agora sua interpretação não é apenas o auge de sua carreira, sua composição mais perfeita, como realmente ele se transforma inteiramente, “encarnando” um personagem distante de sua personalidade na vida real.  E ainda por cima fazendo uma figura antipática, violenta, grosseira, com quem a gente é impossível de se identificar ou as vezes ate mesmo gostar. E, no entanto, ele mergulha no papel, sem medo de se expor, sem cair nos extremos, nem o critica (era fácil cair na caricatura), nem o defende ou justifica (apenas procura torná-lo humano, sem esconder suas fraquezas ou limitações, o que é muito bem explicitado nas cenas em que prepara as piadas, que abre a narrativa e depois conclui o filme). De Niro aparece na parte final completamente deformado dando vida a esse protagonista tão desagradável e chauvinista chamado Jake La Motta, campeão de peso-médios nos anos 40 e 50. Ele é péssimo marido, mau caráter, atraiçoa o irmão e aliena todas as pessoas próximas. No ringue, luta como um touro enfurecido, sua decadência é tão drástica quanto merecida. O filme já começa com ele como apresentador de um “night-club” em 1964, para depois retratar sua ascensão e decadência, mas nunca chega a ser uma biografia convencional.

O roteiro de Paul Schrader (Taxi Driver) e Mardik Martin (iraniano, homem de confiança de Scorsese que trabalhou em vários filmes como New York, New York, Caminhos Perigosos) fez a primeira versão do roteiro contando tudo de maneira mais convencional. Mas teve que largar por exaustão de forma que Scorsese e De Niro passaram 5 semanas trabalhando no roteiro final como eles desejavam, sem crédito. Parece a primeira vista ter o hábito de se fixar apenas em episódios violentos e gritados, lembrando muito os filmes italianos do Neo-Realismo. Deixa no ar inclusive as motivações e justificativas do personagem, tanto de Jake quanto de seus comparsas. Mas é a maior ousadia do filme, justamente isso. As cenas são longas e esticadas, parecem improvisadas, como se fosse na vida real, com muita verdade (e uma delas o primeiro encontra de Jake com Vicky, foi inteiramente improvisada). O que confere um tom naturalista, especial ao filme, fugindo dos clichês dos filmes de boxe (ainda que existam vários e muitos sobre o tema, em geral eles se fixam na corrupção e bastidores do esporte mais do que na personalidade dos lutadores. Como Trágica Farsa, inspirado na vida do lutador Primo Carnera e Marcado pela Sarjeta, sobre Rocky Graziano), mas este é certamente o mais bem filmado deles todos. Contam que quando Paul Schrader trabalhou no script, ele acrescentou momentos chocantes de propósito (como cena de masturbação e colocar o pênis num saco de gelo). Scorsese reduziu isso (agora De Niro coloca gelo dentro de sua  cueca).

Outra ideia interessante é os filmes caseiros propositalmente riscados. É a única parte da fita que é em cores, alias a escolha do preto e branco é extremamente acertada. Parece que Scorsese fez como Hitchcock em Psicose, recusou o colorido que faria o sangue jorrando tudo se tornar um filme de terror barato e “gory”. Alias o sangue aqui é feito de chocolate para dar maior efeito! Scorsese também teria se inspirado na cena do chuveiro daquele filme para decupar a luta final com Robinson. As sequências de lutas de boxe nunca são menos do que empolgantes. O PB tem um efeito extraordinário numa montagem rápida, envolvente. Tudo espetacularmente fotografado, em especial na luta final com Sugar Ray Robinson. O excelente Michael Chapman filmou tudo com muita luz, vazando inclusive na lente, muito brilhante, pegando detalhes do suor ou sangue voando na plateia, as vezes em câmera lenta. Assim como é excepcional o uso do som (os técnicos estouraram melões e tomates e o pipocar das câmeras dos fotógrafos eram o barulho de revolveres disparando. Quando terminaram a mixagem, eles jogaram fora o material com medo de que outros pudessem reutilizá-lo). Só essas cenas já justificariam o filme mas há uma explicação ao final do diretor católico, citando São João: La Motta estava cego para o que se passava à sua volta. Por isso, perde família, amigos, tudo.

Diz Scorsese: “Dediquei este filme a um velho professor armênio, Haig Manoogian, que tinha morrido recentemente, porque foi ele também que me abriu os olhos”. A citação é a seguinte: “Os que não veem, isto é, os humildes de coração, vejam iluminados pela minha doutrina, mas os sábios, os orgulhosos, os fariseus se tornem cegos espiritualmente....”. A razão de tudo isso é que o filme seria um renascimento cinematográfico dele. Por isso a dedicatória foi “com amor e resolução”. Manoogian havia ajudado Scorsese a conseguir produção para o seu primeiro filme.

Talvez se possa fazer uma leitura do personagem de La Motta nas suas repressões católicas da sexualidade, que acabam se desenvolvendo numa forma de sadomasoquismo e autodestruição. Mesmo assim, isso fica mais na cabeça dos realizadores do que na tela. O filme basicamente é um retrato de um sujeito repulsivo que o público não consegue gostar. Contam que quando viu o resultado pela primeira vez numa tela, o verdadeiro La Motta ficou surpreso que o personagem fosse tão negativo, percebeu pela primeira vez que pessoa horrível ele tinha sido. Perguntou a ex esposa Vicki: “Eu era realmente assim?”. E Vicki lhe respondeu: ”Você era pior".

Não acho que o filme julga ou condena o protagonista. Ao contrário, o observa com distância crítica. E nisso ajuda muito a interpretação antológica de De Niro e as magníficas cenas de luta, até hoje ainda não suplantadas. Há realmente uma história bonita de redenção provocada pelo filme. Em 1978, Scorsese não queria fazer o filme e o recusou várias vezes preferindo documentários (e afirmando que não gostava de filmes sobre esportes). Mas na verdade estava tentando se libertar de um terrível vício de cocaína. De Niro foi procurá-lo num hospital onde se tratava, e finalmente o convenceu a aceitar. De certa maneira o filme salvou não apenas a carreira dele, mas também sua própria vida.

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Sobre o Colunista:

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho

Rubens Ewald Filho é jornalista formado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), além de ser o mais conhecido e um dos mais respeitados críticos de cinema brasileiro. Trabalhou nos maiores veículos comunicação do país, entre eles Rede Globo, SBT, Rede Record, TV Cultura, revista Veja e Folha de São Paulo, além de HBO, Telecine e TNT, onde comenta as entregas do Oscar (que comenta desde a década de 1980). Seus guias impressos anuais são tidos como a melhor referência em língua portuguesa sobre a sétima arte. Rubens já assistiu a mais de 30 mil filmes entre longas e curta-metragens e é sempre requisitado para falar dos indicados na época da premiação do Oscar. Ele conta ser um dos maiores fãs da atriz Debbie Reynolds, tendo uma coleção particular dos filmes em que ela participou. Fez participações em filmes brasileiros como ator e escreveu diversos roteiros para minisséries, incluindo as duas adaptações de “Éramos Seis” de Maria José Dupré. Ainda criança, começou a escrever em um caderno os filmes que via. Ali, colocava, além do título, nomes dos atores, diretor, diretor de fotografia, roteirista e outras informações. Rubens considera seu trabalho mais importante o “Dicionário de Cineastas”, editado pela primeira vez em 1977 e agora revisado e atualizado, continuando a ser o único de seu gênero no Brasil.

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