Festim Diabólico – Experiência Única do Mestre do Suspense

Considerada uma experiência única na história do cinema: uma narrativa praticamente desenvolvida em uma única tomada, com movimento contínuo de câmera

27/01/2015 15:02 Por Paulo Telles
Festim Diabólico – Experiência Única do Mestre do Suspense

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Vamos focar desta vez em uma obra do Mestre do Suspense Alfred Hitchcoock (1899-1980), seu primeiro filme a cores e o primeiro dos quatro que fez com James Stewart (1908-1997), considerada uma experiência única na história do cinema: uma narrativa praticamente desenvolvida em uma única tomada, com movimento contínuo de câmera, audácia formal realizada mediante extrema precisão e rigor na coreografia da mise-em-scène (a filmagem ininterrupta exigia perfeita concatenação de atores, décor e câmera).

 

Festim Diabólico (Rope), produzido em 1948, foi baseada em peça de 1929, de autoria de Patrick Hamilton (1904-1962), foi por sua vez inspirada no caso real Leopold-Loeb. Em 1924 os jovens Leopold e Loeb (19 e 18 anos, respectivamente), raptaram e mataram um garoto de 14 anos chamado Bobby, na cidade de Chicago. O caso teve grande repercussão em jornais da época. Ambos foram julgados, mas conseguiram escapar da pena de morte, sendo apenas aprisionados. Loeb morreu na prisão, e Leopold saiu dela após 45 anos, morrendo no início dos anos 70. O Caso Leopold-Loeb seria levado ao cinema em um filme de 1958, Estranha Compulsão, de Richard Fleischer, com Bradford Dillman e Dean Stockwell nos papéis principais e ainda tendo Orson Welles como o brilhante advogado que defende os dois jovens da acusação e salvá-los da pena de morte.

Na peça teatral em que se baseava o roteiro do filme, a ação era contínua, sem cortes ou elipses e sem mudança de cenário. Nessas condições, Hitchcock resolveu filmar em tempo real, como se diz hoje, em um único plano-sequência — ou seja, uma única tomada, sem interrupções para recarregar a película na câmera, durante toda a ação.

A trama de Festim Diabólico transcorre numa noite (das 19h30m às 21h15m) em um apartamento e cobertura de Nova York, onde dois diletantes homossexuais, Shaw Brandon (John Dall, 1918-1971), e Phillip Morgan (Farley Granger, 1925-2011), convencidos de que são seres superiores, com direito até a eliminar os que eles acharem medíocres ou quem quer que se metam em seus caminhos, e fascinados pela ideia do crime perfeito, estrangulam com uma corda um colega de faculdade, David Kentley (Dick Hogan, 1917-1995), escondem o cadáver numa arca e, de modo a celebrar o feito, convidam pessoas ligadas à vítima para uma festa – no qual o jantar será servido tendo a própria arca como mesa.

Presentes nesta reunião, estão o pai de David, o Sr. Kentley (Cedric Hardwicke, 1893-1964), a tia, Srª Atwatar (Constance Collier, 1878-1955), a noiva de David, Janet Walker (Joan Chandler, 1923-1979), o amigo Kenneth (Douglas Dick), a governanta Srª Wilson (Edith Evanson, 1896-1980), e um ex-professor, Rupert Cadwell (James Stewart), a quem caberá descobrir e solucionar o caso, onde tudo começa com uma discussão sobre o ideal nazista do “super-homem” nietzschiano, segundo o saudoso crítico brasileiro Paulo Perdigão.

Entre as muitas dificuldades técnicas decorrentes durante a produção, uma afetou diretamente a montagem do filme: o máximo de película que a câmera comportava não dava para mais de 10 minutos de filmagem. Como trabalhar sem quebrar a continuidade de ação, sem alterar as condições da cor e da intensidade da luz do pôr-do-sol? Como movimentar a volumosa câmera montada sobre trilhos nos estritos limites da sala e cozinha? Como passar por entre os móveis e pela porta sem mudanças cenográficas?

Rodado em apenas 21 dias, o filme é constituído pelo chamado ten minute’s take: são onze tomadas variando de cinco a dez minutos cada uma (normalmente, um filme vem a compor cerca de 600 planos, variando de 5 a 15 segundos cada um). Hitchcock não pôde rodar todo o relato em um único take porque era necessário trocar o rolo da câmera (cada qual com 300 metros, cerca de 10 minutos). Em cinco dos dez cortes, disfarçou a mudança da bobina nos momentos em que a câmera se fecha sobre o terno azul de John Dall.

Tais cortes se alternaram com os outros cinco, feitos à moda tradicional (campo e contracampo) para facilitar a mudança e rolos na projeção (os rolos de projeção têm 600 metros, o dobro de bobina da câmera). Aproximadamente, Hitchcock usou na trilha sonora o “Movimento Perpétuo nº 1” de Francis Poulenc.

Embora a sexualidade dos dois jovens assassinos não seja bem confirmada no filme, à relação entre os personagens de Granger e Dall tem um subtexto homoerótico forte, habilmente projetado por Hitchcock e seus atores através da encenação, direção de arte, e nuance. Os próprios intérpretes eram gays na vida real. "Foi apenas uma coisa assumida," disse Farley Granger muitos anos depois sobre a homossexualidade de seu personagem. "Ou você é ou não é”. Como um dos roteiristas do filme, Arthur Laurents (1918-2011), que era amante de Farley na época, explicou, "Não havia uma palavra de diálogo que diz que os dois foram amantes ou homossexuaismas não havia uma cena entre eles onde não era claramente implícito”.

Granger ainda faria alguns trabalhos de notoriedade para o cinema e para a TV e faleceu em 2011 aos 85 anos de idade, não sem antes de escrever uma autobiografia onde contava sobre sua bissexualidade e os casos que teve com Shelley Winters, Ava Gardner, e o compositor Leonard Bernstein. Depois de uma longa ausência da tela, John Dall retornou em 1960 no épico Spartacus,de Stanley Kubrick, e no ano seguinte atuou em outra superprodução sobre a antiguidade, na mistura de épico e ficção científica Atlântida, o Continente Perdido de 1961. Realizou pouquíssimos trabalhos, e sua morte até hoje não esta bem desvendada, pois fontes mencionam um ataque cardíaco, aos 52 anos, a 15 de janeiro de 1971. Já outras falam que ele faleceu de uma perfuração no pulmão. Seu corpo foi doado para medicina.

Ao ser exibido pela primeira vez na TV brasileira, em 1993 (pela TV Globo, na Sessão de Gala, quando esta era exibida aos sábados, e houve grande divulgação pela TV na época), Festim Diabólico foi apresentado sem cortes para comerciais, para que o espectador pudesse perceber os detalhes aqui apresentados, ao tempo real dos seus 80 minutos de projeção.

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Sobre o Colunista:

Paulo Telles

Paulo Telles

Paulo Telles é natural do Rio de Janeiro, onde nasceu em 1970. Mora na mesma cidade na região boêmia da Lapa. Curte cinema desde a adolescência, e através das matinês da TV, aprendeu a amar a Sétima Arte e os astros e estrelas do passado. Ele é o editor do blog FILMES ANTIGOS CLUB, acessível em: http://www.articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/, espaço dedicado a matérias relacionadas ao cinema antigo, com biografias e resenhas de alguns filmes. Também é locutor da Escola de Rádio Web. Email: filmesantigosclub@hotmail.com ou paulotellescineradio@r7.com

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